10 Perguntas que Explicam o Porquê da Crise nas Universidades
10 Perguntas que Explicam o Porquê da Crise nas Universidades
Brasil e o Mundo; Compilado com base em pesquisas científicas, rankings internacionais e obras de referência 2025
Introdução
As universidades sempre ocuparam um lugar singular na história das civilizações: foram elas que produziram o conhecimento que curou doenças, ergueu democracias e alimentou revoluções científicas. Mas hoje, algo mudou. Em todo o mundo, essas instituições enfrentam uma crise que não é apenas orçamentária — é de identidade, de legitimidade e de propósito.
No Brasil, 87% das universidades caíram nos rankings internacionais em 2025. Nos Estados Unidos, o endividamento estudantil ultrapassou US$ 1,7 trilhão. Na Europa, o Processo de Bolonha transformou a formação humanística em esteiras de competência técnica. E em países do Sul Global, universidades públicas sangram por falta de recursos enquanto o mercado privado avança sem compromisso com o conhecimento crítico.
Este artigo não é uma lamentação. É uma análise. Com base nas pesquisas mais sólidas disponíveis — de Boaventura de Sousa Santos a Christopher Newfield, de Bill Readings a Sheila Slaughter — formulamos dez perguntas que cortam a superfície e chegam ao núcleo do problema. Cada pergunta abre uma janela para uma dimensão diferente da crise; juntas, elas oferecem um mapa para entender o que está em jogo quando uma universidade adoece.
“A universidade pública confrontou-se com a necessidade de justificar cada vez mais a sua existência perante a sociedade, quando anteriormente era ela quem definia os critérios de justificação.”
— Boaventura de Sousa Santos, A Universidade no Século XXI (2010)
Pergunta 1 O que é, exatamente, a crise das universidades?
Antes de buscar causas, precisamos definir o fenômeno. A crise não é um acidente conjuntural — é estrutural. O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, na obra seminal A Universidade no Século XXI (Cortez, 2010), identificou três crises simultâneas que corroem a universidade moderna por dentro:
As três crises de Boaventura de Sousa Santos
A primeira é a crise de hegemonia: a universidade perdeu o monopólio do saber legítimo. O conhecimento agora é produzido em laboratórios corporativos, plataformas digitais, think tanks e consultorias privadas. A universidade não é mais o centro gravitacional do pensamento.
A segunda é a crise de legitimidade: a sociedade questiona se a universidade serve a todos ou apenas a uma elite. A massificação do ensino superior não resolveu as desigualdades de acesso e permanência — e a desvalorização dos diplomas no mercado de trabalho aprofundou a desconfiança pública.
A terceira é a crise institucional: a autonomia científica e pedagógica da universidade depende financeiramente do Estado. Quando o Estado reduz essa prioridade — ou condiciona os recursos a critérios de mercado — a instituição perde sua capacidade de operar segundo lógicas próprias.
Essas três crises não são independentes: elas se alimentam mutuamente, criando um ciclo vicioso que nenhuma reforma parcial consegue romper sozinha.
▸ Santos, B. S. A Universidade no Século XXI: Para uma Reforma Democrática e Emancipatória da Universidade. 3ª ed. São Paulo: Cortez, 2010.
▸ Readings, B. The University in Ruins. Cambridge: Harvard University Press, 1996.
Pergunta 2 O neoliberalismo causou a crise? Como e por quê?
A resposta da pesquisa acadêmica é: sim, em grande medida. Mas o mecanismo é mais sofisticado do que um simples corte de verbas. O neoliberalismo introduziu na universidade uma racionalidade de mercado que transformou o modo como ela pensa a si mesma.
O americanista Christopher Newfield, professor emérito da Universidade da Califórnia (Santa Bárbara), dedicou uma trilogia de livros a este tema. Em The Great Mistake: How We Wrecked Public Universities and How We Can Fix Them (Johns Hopkins, 2016), ele descreve o que chama de “ciclo devolucionário”: cortes no financiamento público → aumento de mensalidades → endividamento estudantil → perda de confiança na universidade pública → novos cortes. Um espiral descendente sem ponto de saída interno.
O capitalismo acadêmico
As pesquisadoras Sheila Slaughter (Universidade da Georgia) e Larry Leslie cunharam, nos anos 1990, o conceito de academic capitalism para descrever como as universidades passaram a competir por recursos externos, orientar pesquisas pela demanda do mercado e substituir sua missão pública por lógicas empresariais. O resultado é uma transformação silenciosa, porém radical: a universidade deixa de ser um bem público para tornar-se uma prestadora de serviços educacionais.
“O atual senso comum — de que, para ter sucesso, as universidades deveriam se parecer mais com empresas — está completamente errado.”
— Christopher Newfield, The Great Mistake (2016)
No Brasil, esse processo ganhou contornos específicos. O economista Francisco de Oliveira (USP) e Pablo Gentili mapearam, em Pós-neoliberalismo (Paz e Terra, 1995), como o ajuste fiscal dos anos 1990 transferiu progressivamente o ônus do ensino superior para famílias e estudantes, fortalecendo o setor privado em detrimento do público.
▸ Newfield, C. The Great Mistake: How We Wrecked Public Universities and How We Can Fix Them. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2016.
▸ Slaughter, S.; Leslie, L. Academic Capitalism: Politics, Policies and the Entrepreneurial University. Baltimore: Johns Hopkins, 1997.
▸ Oliveira, F.; Gentili, P. (Orgs.) Pós-neoliberalismo: As políticas sociais e o Estado democrático. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.
Pergunta 3 O que os números dizem sobre o Brasil especificamente?
Os dados mais recentes são inequívocos. Em 2025, o Center for World University Rankings (CWUR) publicou seu ranking global e o resultado foi alarmante para o Brasil: 87% das universidades brasileiras listadas entre as 2.000 melhores do mundo caíram de posição em relação ao ano anterior. Das 53 instituições avaliadas, 46 recuaram.
O presidente do CWUR, Nadim Mahassen, apontou o diagnóstico com precisão cirúrgica: o principal fator para o declínio é o enfraquecimento do desempenho em pesquisa, combinado com apoio financeiro limitado do governo, em meio à intensificação da competição global por parte de instituições bem financiadas.
Orçamento congelado, ciência estrangulada
O Relatório do Conhecimento 2026, apresentado na Câmara dos Deputados por entidades científicas e acadêmicas, revelou que o orçamento federal para as universidades está praticamente congelado: R$ 17,29 bilhões previstos para 2026, quase idêntico ao de 2025 (R$ 17,27 bilhões). Em termos reais, isso representa uma perda de poder de compra ano a ano.
A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) publicaram nota conjunta em maio de 2025 alertando que a limitação orçamentária ameaça mais de 90% da pesquisa científica nacional — pois é esse o percentual produzido nas universidades públicas brasileiras.
“Países desenvolvidos investem massivamente em educação e ciência. O Brasil, ao contrário, desmonta suas universidades, exporta cérebros e aumenta sua dependência tecnológica estrangeira.”
— Academia Brasileira de Ciências, Nota Institucional (maio 2025)
▸ CWUR. World University Rankings 2025. Center for World University Rankings, 2025.
▸ Academia Brasileira de Ciências (ABC) / SBPC. Nota Institucional: Corte Orçamentário Ameaça Sobrevivência das Universidades Federais. Maio 2025.
▸ Relatório do Conhecimento 2026. Câmara dos Deputados, Comissão de Legislação Participativa, setembro 2025.
Pergunta 4 A universidade perdeu seu propósito cultural e filosófico?
Esta é talvez a pergunta mais incômoda — porque toca no que a universidade é, não apenas no que ela faz. E a resposta, segundo alguns dos mais influentes filósofos da educação, é: sim.
Bill Readings, professor canadense de literatura comparada, publicou The University in Ruins (Harvard University Press, 1996) — obra que se tornou referência obrigatória nos estudos críticos sobre o ensino superior. Readings argumentou que a universidade moderna nasceu com uma missão clara: formar o cidadão nacional, transmitir a cultura e o saber da nação. Com a crise do Estado-nação e a globalização, essa missão evaporou.
O critério vazio da “excelência”
No lugar de um projeto cultural, Readings identificou a ascensão de um critério vazio: a “excelência”. Universidades hoje se avaliam, se classificam e se vendem com base em índices de excelência — mas ninguém consegue definir excelência em termos substanciais. É uma métrica que significa tudo e nada ao mesmo tempo. Funciona para os rankings, mas esvazia a instituição de seu sentido.
O filósofo alemão contemporâneo Markus Gabriel, em entrevistas e conferências recentes, aprofundou essa crítica ao apontar que a universidade contemporânea produz especialistas hiper-competentes em domínios cada vez mais estreitos, perdendo a capacidade de fazer as grandes perguntas interdisciplinares que o mundo urgentemente precisa.
▸ Readings, B. The University in Ruins. Cambridge: Harvard University Press, 1996.
▸ Sguissardi, V. Políticas de Estado e de Educação Superior no Brasil. In: Morosini, M. (Org.) Mercosul: Políticas e Ações Universitárias. Campinas: Autores Associados, 1998.
Pergunta 5 Como a globalização afeta as universidades dos países periféricos?
A globalização criou um mercado universitário transnacional — e nesse mercado, as universidades dos países ricos partem com enorme vantagem competitiva. O resultado é uma dinâmica perversa que Boaventura de Sousa Santos chamou de transnacionalização do mercado universitário.
Universidades americanas, britânicas e australianas expandiram-se via franquias, cursos online e campus satélites pelo mundo. Ao mesmo tempo, as melhores mentes formadas em países periféricos migram — o chamado brain drain — para centros de pesquisa do Norte Global, onde encontram melhores condições de trabalho e financiamento.
Dependência tecnológica e soberania
A ABC alerta que o enfraquecimento das universidades públicas brasileiras não é apenas um problema educacional — é uma questão de soberania nacional. Sem pesquisa pública robusta, o país aumenta sua dependência tecnológica estrangeira. Não haverá inovação local, nem soluções próprias para crises sanitárias, ambientais ou econômicas.
O volume coletivo Transformations to Higher Education (Noam Chomsky, Boaventura de Sousa Santos, Sheila Slaughter e outros) documenta como a globalização neoliberal, combinada com a crescente militarização das agendas de pesquisa pós-11 de setembro, deslocou as universidades de sua vocação democrática para uma lógica de segurança e competitividade geopolítica.
▸ Santos, B. S. Globalização: Fatalidade ou Utopia? Porto: Edições Afrontamento, 2001.
▸ Chomsky, N.; Santos, B. S.; Slaughter, S. et al. Transformations to Higher Education. University of Arizona Press, 2005.
▸ Mészáros, I. A Educação para Além do Capital. São Paulo: Boitempo, 2005.
Pergunta 6 A crise adoece as pessoas dentro das universidades?
Esta é uma dimensão frequentemente ignorada nos debates sobre política educacional — mas os dados de saúde mental dentro das universidades são alarmantes. A crise institucional produz uma crise humana.
Heribaldo Maia, em Neoliberalismo e Sofrimento Psíquico: O Mal-Estar nas Universidades (Ruptura Editorial), documenta como a racionalidade neoliberal transformou a universidade em um ambiente sistematicamente adoecedor. A lógica do mérito, da produtividade e da performance constante cria o que o autor chama de “máquina de moer gente”.
Professores, pesquisadores e estudantes em sofrimento
A pressão sobre os pesquisadores é descrita com precisão: a exigência de publicar em revistas de alto impacto (o publish or perish), captar recursos externos, orientar cada vez mais alunos com menos apoio, e manter-se competitivo em avaliações institucionais constantes. O resultado documentado é o aumento exponencial de burnout, depressão e ansiedade entre docentes e pesquisadores.
Entre estudantes, o cenário é igualmente grave. Pesquisas da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior) revelam altas taxas de sofrimento psíquico, especialmente entre estudantes de baixa renda e grupos historicamente excluídos, que enfrentam a pressão acadêmica sem as redes de suporte que os estudantes de camadas mais privilegiadas dispõem.
“O barulho dos neuróticos e os surtos dos histéricos deram lugar ao silêncio dos depressivos, dos esgotados e dos ansiosos.”
— Heribaldo Maia, Neoliberalismo e Sofrimento Psíquico
▸ Maia, H. Neoliberalismo e Sofrimento Psíquico: O Mal-Estar nas Universidades. Ruptura Editorial.
▸ Andifes. V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos Graduandos das IFES. Brasília: Andifes, 2019.
Pergunta 7 A privatização resolve ou agrava a crise?
A expansão do ensino superior privado é frequentemente apresentada como solução para a crise: mais vagas, mais acesso, menos ônus para o Estado. Mas a pesquisa acadêmica acumulada indica que essa narrativa é, no mínimo, incompleta — e, em vários aspectos, fraudulenta.
Christopher Newfield demonstra que a privatização das universidades americanas não reduziu custos para os estudantes: ao contrário, o custo médio do ensino superior nos EUA cresceu mais de 1.200% nas últimas quatro décadas, gerando uma dívida estudantil que ultrapassa US$ 1,7 trilhão. A transferência do risco financeiro do Estado para os indivíduos não é uma solução — é uma redistribuição do problema.
O caso brasileiro: expansão sem qualidade
No Brasil, o setor privado de ensino superior é um dos maiores do mundo em número absoluto de matrículas. Mas estudos do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e pesquisadores como Roberto Leher (UFRJ) documentam a discrepância de qualidade: enquanto as universidades federais produzem mais de 90% da pesquisa científica nacional, o setor privado é majoritariamente voltado ao ensino de graduação com baixíssimo investimento em pesquisa e extensão.
A dependência do FIES (Fundo de Financiamento Estudantil) e do Prouni criou ainda uma estrutura perversa: o Estado subsidia massivamente o setor privado — que, em troca, não investe em pesquisa nem em missão pública.
▸ Newfield, C. Unmaking the Public University: The Forty-Year Assault on the Middle Class. Cambridge: Harvard University Press, 2008.
▸ Leher, R. Universidade e Heteronomia Cultural no Capitalismo Dependente. Rio de Janeiro: Consequência, 2018.
▸ Inep. Censo da Educação Superior 2023. Brasília: MEC/Inep, 2024.
Pergunta 8 O que os rankings internacionais medem — e o que escondem?
Os rankings universitários tornaram-se a bíblia da política educacional global. Governos, reitores e empresas os usam para tomar decisões bilionárias. Mas o que eles efetivamente medem?
A pesquisadora Ellen Hazelkorn (Universidade Tecnológica de Dublin), em Rankings and the Reshaping of Higher Education (Palgrave Macmillan, 2011), demonstrou que os principais rankings — QS, Times Higher Education, Shanghai — mesurem primordialmente três coisas: publicações em inglês em revistas indexadas, volume de citações, e prestígio percebido por pares. Universidades que formam excelentes professores de ensino médio, que desenvolvem pesquisa aplicada em língua local, ou que cumprem missão social em regiões periféricas são sistematicamente subavaliadas.
Quem perde com os rankings
O perigo é que, ao organizar políticas em torno dos rankings, os governos distorcem as prioridades das universidades. Pesquisas voltadas a problemas locais — saúde pública em regiões tropicais, sustentabilidade de biomas específicos, cultura e identidade nacional — são preteridas em favor de temas que rendem publicações internacionais com maior fator de impacto.
No caso brasileiro, a queda nos rankings em 2025 é um sinal real de desinvestimento em pesquisa — mas os rankings não capturam, por exemplo, o imenso papel social das universidades federais na formação de professores, na assistência jurídica gratuita, na produção artística regional e na extensão universitária em comunidades vulneráveis.
▸ Hazelkorn, E. Rankings and the Reshaping of Higher Education: The Battle for World-Class Excellence. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2011.
▸ Dias Sobrinho, J. Avaliação e Transformações da Educação Superior Brasileira. Avaliação (Campinas), v. 15, n. 1, 2010.
Pergunta 9 Existe uma crise política e democrática dentro das universidades?
Além das pressões externas de mercado e financiamento, as universidades enfrentam uma crise interna de governança, democracia e autonomia. E esta dimensão é frequentemente subestimada.
Henry Giroux, pedagogo crítico e professor na McMaster University (Canadá), é um dos mais contundentes analistas desta dimensão. Em Neoliberalism’s War on Higher Education (Haymarket Books, 2014), Giroux argumenta que a universidade foi progressivamente despolitizada: ao adotar valores corporativos de eficiência, neutralidade e gestão por resultados, ela abdicou de sua função como espaço de pensamento crítico e formação de cidadãos democráticos.
O ataque ao pensamento crítico
Giroux documenta como, nos Estados Unidos, disciplinas das humanidades — filosofia, história, literatura, artes — foram sistematicamente sucateadas por falta de retorno financeiro mensurável. O mesmo fenômeno ocorre no Brasil: cursos considerados “improdutivos” sofrem pressão política e orçamentária, enquanto engenharia, gestão e computação são valorizados por sua aderência imediata ao mercado.
No Brasil, este processo ganhou dimensão explicitamente política nos últimos anos, com ataques diretos a universidades públicas, tentativas de controle ideológico e cortes seletivos de verbas a pesquisas consideradas “desnecessárias”. O Grupo de Pesquisa Trabalho, Educação, Estética e Sociedade (UECE) documentou como a agenda empresarial e neoconservadora disputou ativamente o sentido do público nas universidades brasileiras ao longo da última década.
▸ Giroux, H. Neoliberalism’s War on Higher Education. Chicago: Haymarket Books, 2014.
▸ Rebuá, E. A Educação Disputada: Democracia e Sentidos do Público no Brasil Hodierno. Universidade e Sociedade, n. 60, 2017.
▸ Rabelo, J.; Jimenez, S.; Mendes Segundo, M. O Movimento de Educação para Todos e a Crítica Marxista. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2017.
Pergunta 10 Há saída? O que a pesquisa propõe como alternativas?
Seria desonesto encerrar uma análise desta natureza sem olhar para as propostas. A boa notícia é que a pesquisa acadêmica não apenas diagnostica — ela também aponta caminhos. A má notícia é que esses caminhos exigem escolhas políticas corajosas, que vão na contramão das tendências dominantes.
As propostas de Boaventura de Sousa Santos
Santos propõe uma reforma democrática e emancipatória centrada em quatro eixos: (1) reconquistar a legitimidade por meio de extensão universitária comprometida com as populações excluídas; (2) ampliar o acesso com equidade real, não apenas formal; (3) construir ecologias de saberes, reconhecendo conhecimentos não-científicos e não-ocidentais como legítimos; e (4) fortalecer a responsabilidade social da universidade como contrapeso à lógica de mercado.
A proposta de Newfield para as universidades americanas
Newfield defende o retorno ao financiamento público robusto e estável, a reversão das políticas de privatização e a reconstrução da universidade como bem público — não como prestadora de serviços. Ele propõe especificamente a eliminação do modelo de “subsidiar o privado com dinheiro público”, que é exatamente o que o FIES e o Prouni fazem em sua versão mais problemática no Brasil.
Autonomia financeira real
A pesquisa convergente de Santos, Newfield, Giroux e dos grupos brasileiros aponta para um ponto comum: não há reforma universitária possível sem autonomia financeira real. Isso significa fontes de financiamento estáveis, constitucionalmente protegidas, não sujeitas a contingenciamentos políticos. O modelo atual — em que o orçamento das universidades é negociado ano a ano no Congresso, sujeito a emendas parlamentares e cortes discricionários — é estruturalmente incompatível com a missão de longo prazo da ciência e da educação.
“A universidade pode ser pobre, pode estar em crise, pode até aparentar certa desorganização — mas estará salva se lograr preservar a qualidade de seu ensino, sua pesquisa e sua dignidade acadêmica.”
— SciELO / Revista Brasileira de Educação Médica
Conclusão: Dez Perguntas, Uma Crise, Muitas Escolhas
A crise das universidades não é inevitável. É o resultado de escolhas — econômicas, políticas e filosóficas — que foram feitas ao longo de décadas e que podem, portanto, ser desfeitas. A pesquisa acadêmica demonstra isso com uma clareza que os debates públicos raramente alcançam.
Entender a crise como estrutural e multidimensional é o primeiro passo para não se contentar com soluções cosméticas. Aumentar ligeiramente o orçamento, criar um novo índice de avaliação ou lançar um programa de bolsas não basta. O que está em jogo é a própria concepção de universidade: ela é um bem público, comprometida com o avanço do conhecimento e com a formação de cidadãos críticos — ou é uma empresa de serviços educacionais orientada pela lógica do mercado?
As dez perguntas deste artigo apontam para a mesma resposta: a crise das universidades é o sintoma mais visível de uma crise mais profunda — a crise da ideia de que o conhecimento é um bem coletivo, que o pensamento crítico é um valor social, e que investir em ciência e educação é investir no futuro de todos. Recuperar essa ideia, e financiá-la com a seriedade que merece, é o único caminho que a pesquisa indica como sustentável.
Referências Bibliográficas Principais
- ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS (ABC); SBPC. Corte Orçamentário Ameaça Sobrevivência das Universidades Federais. Nota Institucional. Maio 2025.
- CHOMSKY, N.; SANTOS, B. S.; SLAUGHTER, S. et al. Transformations to Higher Education. University of Arizona Press, 2005.
- CWUR. World University Rankings 2025. Center for World University Rankings, 2025.
- GIROUX, H. Neoliberalism’s War on Higher Education. Chicago: Haymarket Books, 2014.
- HAZELKORN, E. Rankings and the Reshaping of Higher Education. Basingstoke: Palgrave Macmillan, 2011.
- LEHER, R. Universidade e Heteronomia Cultural no Capitalismo Dependente. Rio de Janeiro: Consequência, 2018.
- MAIA, H. Neoliberalismo e Sofrimento Psíquico: O Mal-Estar nas Universidades. Ruptura Editorial.
- MÉSZÁROS, I. A Educação para Além do Capital. São Paulo: Boitempo, 2005.
- NEWFIELD, C. Ivy and Industry: Business and the Making of the American University, 1880–1980. Durham: Duke University Press, 2003.
- NEWFIELD, C. Unmaking the Public University: The Forty-Year Assault on the Middle Class. Cambridge: Harvard University Press, 2008.
- NEWFIELD, C. The Great Mistake: How We Wrecked Public Universities and How We Can Fix Them. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2016.
- OLIVEIRA, F.; GENTILI, P. (Orgs.) Pós-neoliberalismo: As políticas sociais e o Estado democrático. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.
- RABELO, J.; JIMENEZ, S.; MENDES SEGUNDO, M. O Movimento de Educação para Todos e a Crítica Marxista. Fortaleza: Imprensa Universitária, 2017.
- READINGS, B. The University in Ruins. Cambridge: Harvard University Press, 1996.
- RELATÓRIO DO CONHECIMENTO 2026. Câmara dos Deputados, Comissão de Legislação Participativa. Setembro 2025.
- SANTOS, B. S. A Universidade no Século XXI: Para uma Reforma Democrática e Emancipatória da Universidade. 3ª ed. São Paulo: Cortez, 2010.
- SANTOS, B. S. Globalização: Fatalidade ou Utopia? Porto: Edições Afrontamento, 2001.
- SLAUGHTER, S.; LESLIE, L. Academic Capitalism: Politics, Policies and the Entrepreneurial University. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1997.
- SGUISSARDI, V. Políticas de Estado e de Educação Superior no Brasil. In: MOROSINI, M. (Org.) Mercosul: Políticas e Ações Universitárias. Campinas: Autores Associados, 1998.




