Cervantes – A Biografia Mais Louca da História da Literatura (Parte 2)
Cervantes – A Biografia Mais Louca da História da Literatura (Parte 2)
Mas o que torna esse mistério ainda mais inquietante para quem estuda a mente humana é o seguinte: mesmo quando temos os fatos materiais em mãos, quase nunca sabemos por quê. Por que Cervantes partiu para a Itália em 1569, com apenas vinte e dois anos? Por que se alistou no exército em 1571? Por que, depois de se casar, passou anos perambulando pela Andaluzia como cobrador de impostos em vez de se dedicar à escrita? Por que, após voltar a Madri em 1608, retornou definitivamente à literatura? As motivações profundas — aquelas que revelam a psicologia real de um indivíduo, os movimentos invisíveis da consciência que determinam as escolhas mais importantes da existência — permanecem ocultas.
É por isso que muitos estudiosos sucumbiram à tentação de mergulhar nas obras de Cervantes em busca do homem que está por trás delas. Afinal, quem escreve não escreve do nada — escreve do que viveu, sentiu, sofreu e pensou. Mas Cervantes é, nesse sentido, um adversário formidável: ele quase nunca fala em nome próprio. Prefere delegar a voz a narradores imaginários — o mais famoso deles sendo Cide Hamete Benengeli, o suposto historiador árabe cujos manuscritos o narrador do Dom Quixote diz estar traduzindo. E quando se expressa diretamente, nos prólogos, nas dedicatórias, nas passagens mais pessoais do Viaje del Parnaso, o que oferece são fragmentos dispersos de um autorretrato cuja verdade escorrega entre os dedos antes de ser agarrada.
O resultado é que Cervantes, o homem mais estudado da literatura em língua espanhola, continua sendo, em alguma medida essencial, desconhecido. E talvez seja exatamente isso que ele queria.
Romances
- Dom Quixote – Parte I (1605)
- Dom Quixote – Parte II (1615)
- La Galatea (1585)
- Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda (1617)
Novelas Exemplares
- Novelas Exemplares (1613)
Algumas das novelas mais conhecidas da coletânea:
- A Ciganinha
- Rinconete e Cortadillo
- O Licenciado Vidreira
- O Colóquio dos Cães
Poesia
- Viagem ao Parnaso (1614)
Teatro
- O Cerco de Numância
- Os Tratos de Argel
- Oito Comédias e Oito Entremezes Novos Nunca Representados (1615)
Cervantes – A Biografia Mais Louca da História da Literatura (Parte 2)
PARTE I — AS ORIGENS: UM BERÇO MARCADO PELA HISTÓRIA E PELA DÚVIDA
Miguel de Cervantes nasceu em Alcalá de Henares, cidade universitária a leste de Madri, e foi batizado em 9 de outubro de 1547. A data exata do nascimento não se sabe com certeza — supõe-se que teria sido em 29 de setembro, dia de São Miguel, o que explicaria o nome que recebeu. Mas o que é certo é que seu nascimento coincidiu com um momento de inflexão histórica extraordinária: em 1547, Francisco I da França e Henrique VIII da Inglaterra morrem; o imperador Carlos V se encontra no auge do poder após vencer os príncipes protestantes em Mühlberg; o Concílio de Trento dá início a uma profunda reforma da Igreja Católica. Na Espanha, aquele mesmo ano marca decisões que definiriam o caráter da sociedade que Cervantes habitaria: a promulgação do primeiro Índice Inquisitorial proibindo livros considerados subversivos, e a adoção dos primeiros Estatutos de Limpeza de Sangue pela catedral de Toledo — normas que exigiam provar a ausência de ancestrais judeus ou mouros convertidos para ocupar cargos públicos ou eclesiásticos.
Essa última informação é mais do que um detalhe histórico para quem quer entender Cervantes. A origem de sua família é, até hoje, tema controvertido. Embora um relatório feito após seu retorno de cativeiro em Argel o tenha classificado como “cristão velho” — ou seja, sem antepassados judeus ou mouros —, Cervantes nunca apresentou prova documental definitiva de sua limpeza de sangue. Seu avô paterno, o licenciado Juan de Cervantes, foi advogado e familiar da Inquisição, o que seria incompatível com origens judias. Mas a mulher de Juan, Leonor de Torreblanca, pertencia a uma família de médicos de Córdoba — e as famílias de médicos eram, naquela época e naquele lugar, frequentemente de origem judaico-conversa. Já Rodrigo, pai de Miguel, casou-se por volta de 1542 com Leonor de Cortinas, de família camponesa de Castela Velha. Seu ofício — cirurgião itinerante — e suas constantes mudanças de cidade durante a infância dos filhos levaram o historiador Américo Castro a classificá-lo como converso, hipótese que outros estudiosos recusaram.
A questão, porém, não deve ser superestimada. Se um dia se provar que Cervantes descendia de cristãos novos, esse fato não explicaria automaticamente sua visão de mundo — haveria um abismo entre ele e outros escritores contemporâneos de origem conversa comprovada, como Mateo Alemán. O que a possível necessidade de ocultar origens poderia iluminar são certas tensões na forma como Cervantes via a sociedade de seu tempo — essa tendência a colocar em cena personagens que são mais do que parecem, identidades que escapam às classificações oficiais, mundos que existem nas margens do que é reconhecido pelo poder. Mas a chave de sua criação está em outro lugar.
Cervantes foi o terceiro filho do cirurgião, nascido depois das irmãs Andrea e Luisa. Viria depois o irmão Rodrigo, que compartilharia seu cativeiro em Argel, e a irmã Magdalena. Da infância e da formação acadêmica de Miguel, sabe-se quase nada. Não há certeza sequer sobre se ele acompanhou os deslocamentos do pai entre Córdoba e Sevilha. O que sabemos é que, em 1566, já se encontrava com a família em Madri, cidade onde Felipe II havia estabelecido sua Corte.
PARTE II — OS PRIMEIROS PASSOS INTELECTUAIS E A PARTIDA PARA A ITÁLIA
Em 1569, com cerca de vinte e dois anos, Cervantes deu seus primeiros passos como escritor: quatro composições poéticas foram incluídas por seu mestre, o humanista Juan López de Hoyos — reitor do Estudo da Vila em Madri — numa relação oficial publicada por ocasião da morte da rainha Isabel de Valois. López de Hoyos o chamou de “caro e amado discípulo”, mas essa menção breve não permite avaliar o grau real de instrução de um jovem que nunca chegou a se matricular em nenhuma universidade. A posteridade lhe aplicaria o qualificativo, claramente inexato, de “engenho leigo” — como se a ausência de diploma universitário equivalesse à ausência de formação intelectual. Cervantes provaria, pelo resto da vida, o quanto essa equação é falsa.
Nesse mesmo ano de 1569, Cervantes partiu repentinamente para Roma. O motivo preciso não é claro. Um documento encontrado no século XIX no Arquivo de Simancas menciona que um certo “Miguel de Cervantes, estudante” havia ferido num duelo um mestre de obras chamado Antonio de Sigura — e que o culpado, fugido para Sevilha, havia sido condenado em revelia a ter a mão direita cortada publicamente e a dez anos de exílio. Se era o mesmo Cervantes, nunca foi provado com certeza absoluta. O fato é que Miguel chegou a Roma, possivelmente recomendado por um parente distante — o cardeal Gaspar de Cervantes e Gaete —, e passou alguns meses a serviço do jovem cardeal Acquaviva, conforme ele mesmo mencionaria anos depois na dedicatória de La Galatea.
Os anos na Itália marcaram Cervantes de forma profunda e permanente. Não apenas pelas experiências humanas e literárias — os círculos intelectuais que frequentou em Nápoles, os pensadores que conheceu ou dos quais ouviu falar, como o filósofo antiescólastico Bernardino Telesio, que reapareceria transfigurado em La Galatea —, mas também por uma mudança radical de trajetória que ninguém teria previsto: em algum momento de 1571, ele abandonou o serviço clerical e se alistou no exército. Ingressou na companhia de Diego de Urbina, onde já servia seu irmão Rodrigo. O mundo estava em guerra — e Cervantes quis estar no centro dessa guerra.
PARTE III — LEPANTO: A BATALHA QUE MOLDOU UMA MENTE
Em outubro de 1571, a Armada da Santa Liga — coalizão formada por Espanha, Veneza e o papado, comandada por dom João da Áustria — enfrentou a frota otomana no golfo de Lepanto, na costa da Grécia. Foi uma das maiores batalhas navais da história, e um dos momentos decisivos na contenção da expansão turca pelo Mediterrâneo. Miguel de Cervantes estava lá, embarcado na galera Marquesa.
O detalhe que se deve reter é que Cervantes combateu doente. Tinha febre. Seus companheiros o aconselharam a descansar no porão do navio, protegido do combate. Ele recusou. Declarou que preferia morrer lutando por Deus e por seu rei a se esconder. Foi alocado num posto particularmente perigoso — a popa do navio, no lugar chamado esquife — e no calor da batalha recebeu dois disparos de arcabuz no peito. Um terceiro tiro o atingiu na mão esquerda, destruindo-lhe o uso desta de forma permanente. Nascia ali o apelido que a posteridade lhe daria: “O Manco de Lepanto”.
Décadas depois, em 1615, ao responder aos ataques de seu rival Avellaneda, Cervantes escreveria sobre essa ferida com um orgulho que revela muito sobre seu comportamento e sua forma de entender a coragem:
Ele dizia que não lamentava a mutilação — lamentava que quem olhasse para ela não percebesse onde havia sido contraída. Que um soldado parece melhor morto em batalha do que vivo em fuga. E que, se lhe fossem oferecidas todas as condições do mundo para ter participado de outra forma na batalha de Lepanto — são e ileso —, ele teria preferido sair dela manco como saiu.
Não é apenas bravata de veterano. É uma declaração de valores que ilumina a psicologia de um homem que passaria o resto da vida confrontando adversidades enormes — cativeiro, pobreza, prisão, fracasso literário — sem jamais abandonar uma espécie de orgulho irredutível diante da própria existência. Cervantes não foi um homem que viveu sem ansiedade ou sem sofrimento. Foi um homem que escolheu, repetidamente, não deixar que o sofrimento definisse sua identidade.
Recuperado das feridas em Messina, participou nos anos seguintes — 1572 e 1573 — de outras campanhas militares de dom João da Áustria em Navarino, Corfu e Túnez. A Itália, com seus anos de guerra e de cultura simultâneos, deixaria marcas profundas e rastreáveis em sua obra posterior: a ação de várias de suas novelas se passa em territórios italianos, e os anos em Nápoles parecem ter sido especialmente ricos em experiências humanas e intelectuais.
PARTE IV — O CATIVEIRO EM ARGEL: CINCO ANOS QUE FIZERAM UM ESCRITOR
Em setembro de 1575, Cervantes decidiu voltar à Espanha. Trazia cartas de recomendação de dom João da Áustria e do duque de Sessa — documentos que esperava usar para conseguir reconhecimento e recompensa pelos seus serviços militares. Embarcou na galera El Sol, e durante a travessia, próximo à costa catalã não longe de Cadaqués, o navio foi atacado pelo corsário argelino Arnaut Mamí. Cervantes foi capturado e levado como escravo a Argel.
O que se seguiu foram cinco anos de cativeiro que deixariam marcas definitivas em sua mente, em seu comportamento e em toda a sua obra literária posterior. As condições do cativeiro em Argel eram brutais — sistema de escravidão organizado, com cativos de toda a Europa aguardando resgate —, mas o que mais impressiona na história de Cervantes nesse período não é o sofrimento passivo, mas a atividade resistente de sua consciência diante dele.
Cervantes tentou fugir quatro vezes. Duas por terra, duas por mar. Em todas elas, quando o plano fracassou e houve prisões, ele assumiu sozinho a responsabilidade — declarando aos algozes que os outros cativos envolvidos nada sabiam e que tudo havia sido decisão sua. Esse comportamento, documentado nas declarações de companheiros de cativeiro colhidas em 1578 e 1580, revela uma dimensão moral que vai muito além da coragem física: é a disposição de proteger o outro ao custo de si mesmo, em condições de extrema vulnerabilidade, quando ninguém exige esse sacrifício.
Na última tentativa de fuga, em novembro de 1579, Cervantes foi denunciado por um dominicano extremenho chamado doutor Juan Blanco de Paz — e compareceu perante Hazã Bajá, rei de Argel, que era conhecido por sua crueldade e pelos castigos severos que aplicava a escravos rebeldes. O desfecho poderia ter sido a morte. Não foi. Os historiadores não conseguiram explicar de forma definitiva por que Cervantes foi poupado — a justificativa vaga de que “houve bons intermediários” sugere que talvez ele tivesse algum papel em negociações diplomáticas secretas entre os turcos e Felipe II, mediadas por um renegado eslavo chamado Agi Morato, figura que Cervantes incorporaria mais tarde às suas ficções.
Enquanto o escritor sobrevivia ao cativeiro com seus sucessivos planos de fuga, sua família em Espanha fazia esforços financeiros enormes para conseguir seu resgate e o de seu irmão Rodrigo. Finalmente, em 19 de setembro de 1580, Cervantes foi resgatado pelos padres trinitários pelo preço de quinhentos ducados — uma soma que representou sacrifício real para uma família sem recursos.
Cinco anos de cativeiro e de trauma não apagaram Cervantes. Pelo contrário — forjaram nele algo que poucos conseguem desenvolver mesmo em liberdade: a capacidade de habitar a dor sem ser destruído por ela, de observar com inteligência e ironia uma realidade que seria suficiente para paralisar qualquer mente menos resiliente. As comédias que escreveria sobre o ambiente argelino — Os tratos de Argel e Os banhos de Argel —, assim como o relato do Cativo inserido na Primeira Parte do Dom Quixote, são os registros literários de uma experiência que poucos escritores do período tiveram: conhecer por dentro os limites da existência humana quando privada de liberdade.
REFLEXÃO FINAL — O QUE UMA VIDA COMO ESSA PRODUZ
Reconstruir a biografia de Cervantes até esse ponto — infância obscura, juventude marcada por dúvidas de origem, os anos italianos, a guerra, a mutilação, o cativeiro, as fugas, o resgate — é entender por que Dom Quixote é um livro diferente de tudo que o precedeu. Não porque Cervantes era um gênio abstrato e etéreo, tocado por musas invisíveis. Mas porque era um homem que havia vivido na pele o que significa tentar manter valores — coragem, honra, lealdade, generosidade — numa sociedade que repetidamente pune quem os leva a sério.
Dom Quixote não foi inventado numa biblioteca. Foi destilado de décadas de choque entre o ideal e o real, entre o que a consciência exige e o que o mundo oferece, entre a inteligência que persiste e a adversidade que não cede. Quando o cavaleiro da Mancha insiste em ver gigantes onde há moinhos de vento, ele não está apenas expressando uma loucura literária. Está expressando a recusa filosófica, forjada na experiência vivida de seu criador, de se render inteiramente à realidade como ela é dada.
Para a geração que hoje lida com pressão de produtividade, com ansiedade de propósito, com a sensação de que o mundo não corresponde ao que foi prometido — a vida de Cervantes até o resgate de Argel é mais do que história literária. É a demonstração concreta de que trauma não precisa ser o fim da narrativa. Que a mente que sobrevive ao insuportável sem perder a capacidade de ironia, de compaixão e de criação é a mente mais livre que existe — independentemente das correntes que a prendam.
O homem que saiu de Argel em 1580 com quinhentos ducados de dívida, uma mão inutilizada e mais de trinta anos ainda pela frente, viria a escrever o livro mais lido da história da literatura depois da Bíblia. Não apesar do que viveu — por causa disso.




