Como uma mulher de 67 anos ensina o que os aplicativos de mindfulness não conseguem
Como uma mulher de 67 anos ensina o que os aplicativos de mindfulness não conseguem
Barry Stevens tinha 67 anos quando passou três meses na Ilha de Vancouver, no Canadá, convivendo intensamente com Fritz Perls, o criador da Gestalt-terapia, num centro experimental onde psicólogos, psiquiatras, artistas e curiosos tentavam aprender a viver de uma forma que a sociedade ocidental moderna parece ter decidido tornar cada vez mais difícil: presentes.
O livro é o diário dessa imersão, mas chamar de diário é reduzi-lo a algo que ele transcende completamente: é um documento vivo de uma mente humana aprendendo a desligar o piloto automático da existência, a perceber o que está acontecendo aqui e agora em vez de ficar presa nas fantasias sobre o que poderia ser, no passado que não existe mais e no futuro que ainda não existe. É ao mesmo tempo a história de uma mulher que aprendeu a viver de modo radicalmente diferente dos padrões de sua sociedade e que registra, sem pudor e sem performance, o processo lento, confuso, ridículo e glorioso de se tornar mais inteira.
O que torna este livro especialmente desconcertante é a sua forma. Não é um manual. Não é uma teoria. Não é um conjunto de técnicas. É, como a própria Barry diz em vários momentos, um livro que vai sendo escrito enquanto as coisas acontecem, sem censura, sem edição excessiva, com todos os erros, todas as contradições, todos os eus que brigam entre si, todos os momentos em que ela vai até a cozinha fazer chá no meio de um pensamento importante, todos os sonhos que processa à la Gestalt, todos os povos indígenas com quem aprendeu antes de conhecer Perls que a sabedoria mais profunda não reside na análise mas na percepção direta, não no pensar sobre mas no notar o que é.
Fritz Perls aparece nestas páginas não como guru mas como um velho de 76 anos que aprende a cozinhar ovos sem relógio e fica feliz com isso, que confessa que “tenta ao máximo não pensar” quando é terapeuta, que tem noites em que funciona pior e é honesto o suficiente para dizer “esta noite estou lerdo”. É essa qualidade de presença sem performance, de existência sem máscara, que o livro tenta ensinar pelo contato mais do que pela instrução.
OBJETIVO DO LIVRO
Este livro tem um objetivo que é ao mesmo tempo radical e desconcertantemente simples: mostrar, através do relato vivo e sem mediação de uma experiência pessoal concreta, que é possível aprender a notar o que está acontecendo dentro e fora de nós neste momento, sem interferir, sem apressar, sem forçar resultados, sem substituir a experiência real pelo mapa mental que temos da experiência, e que essa capacidade de tomada de consciência é a base de todo crescimento genuíno, de toda relação humana autêntica e de toda saúde psicológica que merece esse nome.
Barry Stevens
Nasceu em 1902 (o mesmo ano que Carl Rogers, dado que ela mesma menciona com deleite no livro) e morreu em 1985, tendo vivido uma existência que desafia qualquer tentativa de classificação: largou a escola em 1918 porque, como ela própria explicou, o que queria aprender não estava lá; morou com povos indígenas Hopi, Navajo e Havaiano por períodos prolongados; foi gerente de construção, editora universitária, cozinheira, escritora, colaboradora de Carl Rogers (coautora do clássico “De Pessoa para Pessoa”) e, mais tarde, praticante e facilitadora de Gestalt-terapia.
Não tem título acadêmico nenhum, fato que ela menciona com a mesma neutralidade com que menciona a cor das nuvens sobre o Lago Cowichan. Teve dois filhos, sobreviveu ao suicídio do marido, passou por duas crises mentais severas das quais saiu narrando o processo com curiosidade de naturalista, e foi descrita por Fritz Perls como “um dos terapeutas natos” que conheceu, e por Carl Rogers como alguém que “atingiu uma sabedoria de vida excessivamente rara nestes dias em que o conhecimento assumiu tamanha importância.”
A curiosidade mais significativa de sua biografia: ela chegou ao Instituto Gestalt do Canadá em 1969 sem a menor intenção de se tornar terapeuta, apenas querendo “ver o que era o lugar”. Saiu três meses depois reconhecida pelo próprio Fritz Perls como líder de grupo e treinadora de outros terapeutas. Tinha 67 anos.
Não Apresse o Rio: como uma mulher de 67 anos ensina o que os aplicativos de mindfulness não conseguem
STEVENS, Barry. Não apresse o rio: ele corre sozinho. Título original: Don’t Push the River (it flows by itself). Tradução de George Schlesinger. Supervisão de Paulo Eliezer Ferri de Barros. São Paulo: Summus Editorial, 1978. (Coleção Novas Buscas em Psicoterapia, v. 6). 1ª edição americana: Real People Press, 1970.
PARTE I — LAGO: O COMEÇO DE UMA IMERSÃO
RESUMO DA PARTE
A primeira seção do livro é intitulada “Lago”, e a escolha do nome é perfeita: como um lago, esta seção reflete tudo ao seu redor sem apressar nada, deixa que a superfície se agite com o vento quando o vento passa, e que fique calma quando o vento cessa. Barry chega ao Instituto Gestalt do Canadá dois anos após seu primeiro contato com Fritz Perls em São Francisco, e o livro começa no meio da confusão, no meio de um estado estranho que ela descreve com admirável precisão: “Não sei o que quero”. Essa frase de abertura é programática: ela não abre o livro com uma teoria, com um conceito, com uma promessa de o que vai ensinar. Abre com uma confissão de não-saber que se tornará, ao longo das páginas, um princípio quase espiritual que vale mais do que qualquer certeza.
A seção vai desdobrando episódios do passado, reflexões sobre os povos indígenas com quem viveu, observações sobre o que está vendo agora pela janela, conversas com Fritz, experimentos que faz consigo mesma, momentos de bloqueio e momentos de clareza, tudo entrecortado pela percepção de que a vida real só acontece quando estamos nela, não quando estamos pensando sobre ela.
Pontos-chave
- Perguntar “posso pegar?” em vez de simplesmente pegar é um exemplo de como cedemos nosso poder para os outros por medo de ser “expulsos”.
- Fritz Perls exemplifica isso fumando durante uma palestra quando alguém disse que era proibido, e quando questionado sobre seu “direito” de fumar, respondeu: “Não tenho o direito de fumar, e não tenho o direito de não fumar. Apenas fumo.”
- A “zona intermediária” é o espaço onde confundimos o que realmente estamos sentindo com o que achamos que deveríamos estar sentindo.
- Aprender é descobrir, não ser ensinado: o exemplo do funcionário governamental que não avisou o índio Wilfred sobre o chapéu a ponto de ser levado pelo vento ilustra que deixar as pessoas descobrirem por si mesmas é mais respeitoso do que assumir que precisam ser protegidas.
- “Agito, ergo sum”: Barry inverte o cogito cartesiano de Descartes substituindo “penso, logo existo” por “me movimento, logo existo”, sugerindo que a existência é primariamente corporal e sensorial, não mental.
Reflexão Crítica
Há uma frase de Barry Stevens que deveria ser lida com muita atenção por qualquer pessoa que esteja navegando nas águas da cultura do crescimento pessoal, das terapias rápidas e das promessas de transformação instantânea que hoje abarrotam redes sociais, podcasts e aplicativos: “Levamos bastante tempo para desmascarar todo o logro freudiano, e agora estamos entrando numa fase nova e perigosa. Estamos entrando na fase das terapias estimulantes: ligando-nos em cura instantânea, em alegria instantânea, em consciência sensorial instantânea. Estamos entrando na fase dos homens charlatães e de pouca confiança, que pensam que se vocês obtiverem alguma quebra de resistência, estarão curados, sem considerar qualquer necessidade de crescimento, sem considerar o potencial real, o gênio inato em todos vocês.”
Essa frase foi escrita em 1970. Parece ter sido escrita ontem. A indústria do bem-estar e da transformação pessoal do século XXI transformou em produto exatamente o que Barry está criticando: a ideia de que é possível “chegar lá” rapidamente, que existe um hack, um protocolo, um retiro de fim de semana que vai resolver o que levou décadas para ser construído. O que “Não Apresse o Rio” defende, com toda a sua desconcertante lentidão narrativa, é o oposto disso: que a tomada de consciência genuína é um processo contínuo, sem fim, sem ponto de chegada, sem diploma a ser exibido, e que qualquer coisa que prometa o contrário é provavelmente uma fantasia que você está vendendo para si mesmo.
Aplicações práticas
- A primeira aplicação prática desta seção é também a mais simples e a mais difícil: durante um dia, tente substituir perguntas por afirmações. Em vez de “posso sentar aqui?”, sente-se (ou não se sente). Em vez de “posso te dizer uma coisa?”, diga (ou não diga). Observe o que muda na sua sensação de presença no mundo.
- A segunda aplicação é um exercício de Barry e Fritz chamado “Para mim é óbvio que…” Sente-se diante de outra pessoa e, em turnos, cada um diz apenas o que pode observar diretamente, sem interpretar. “Para mim é óbvio que você está com o braço cruzado.” “Para mim é óbvio que você olhou para o lado quando comecei a falar.” Não é preciso ir além do óbvio. O óbvio, observado com atenção, é infinitamente mais rico do que qualquer interpretação.
PARTE II — FOLHA E MIRAGEM: O PROCESSO DE SE TORNAR PRESENTE
RESUMO DA PARTE
Nestas seções o livro vai se aprofundando no que significa estar presente à própria experiência, e o faz de um jeito que nenhum manual de mindfulness conseguiria: através da experiência vivida, descrita no momento em que acontece, com todos os seus tropeços, suas contradições e suas descobertas que só ocorrem porque Barry comete “erros” e os nota em vez de tentar escondê-los ou corrigi-los antes que alguém veja.
A seção “Folha” é particularmente tocante porque Barry descreve estados de presença plena em que a percepção das folhas se torna “completa, nada a ser acrescentado, nada a ser tirado, nenhum desejo de mudar nada”, seguidos imediatamente por náusea, tremedeira, soluços, descarga emocional que ela não tenta controlar e que eventualmente cede, deixando “mais moleza do que tremor, com alguma força na moleza.” A seção “Miragem” continua esse processo de descoberta, intercalado com reflexões sobre a qualidade da linguagem, sobre os indígenas, sobre a diferença entre saber intelectualmente algo e tê-lo presente no corpo inteiro.
Pontos-chave
- * A diferença entre “notar” e “pensar sobre” é fundamental: quando Barry está plenamente presente observando as folhas, não há palavras, não há análise, não há opinião. Quando começa a pensar sobre as folhas, a experiência vira descrição e perde sua vitalidade imediata.
- * O choro, a tremura e os soluços que aparecem espontaneamente não são patologia: são o organismo se livrando de tensões acumuladas, liberando o que estava preso.
- * “Pensar é ensaiar”: Fritz Perls. Cada vez que nossa mente “ensaia” para uma situação futura ou “rememora” uma situação passada, nos desconectamos do presente.
- * Fazer perguntas em vez de afirmações é uma forma de perder o centro de poder: a pergunta coloca o outro no controle, a afirmação coloca você.
- * A “organização horizontal”, baseada em comunicação e confiança mútua em vez de hierarquia vertical, é mais orgânica e mais humana, mas também mais rara e mais frágil.
Reflexão Crítica
Nesta seção aparece com força uma das ideias mais radicais do livro: a ideia de que a maioria das dificuldades que temos com nosso comportamento, com nossas emoções e com nossos relacionamentos provém não de falhas de caráter ou de traumas irrecuperáveis, mas de um problema de percepção. Não estamos vendo o que está acontecendo. Estamos vendo nossa história sobre o que está acontecendo. E a diferença é imensa. Uma pessoa que está com raiva de outra é diferente de uma pessoa que percebe que está com raiva de outra: a primeira é arrastada pela emoção, a segunda tem espaço para escolher o que fazer com ela.
Barry descreve em vários momentos como a simples tomada de consciência de uma emoção, sem tentar mudá-la, sem julgamento, frequentemente a transforma por si mesma. Isso tem base neurocientífica sólida: pesquisas recentes em neurociência afetiva mostram que nomear e observar uma emoção reduz a ativação da amígdala cerebral, criando exatamente o espaço que Barry descreve. O livro, portanto, não é apenas sabedoria de vida: é uma prática que a neurociência moderna está aprendendo a confirmar.
Aplicações práticas
- Um exercício direto desta seção: na próxima vez que você sentir uma emoção forte, em vez de tentar entender de onde vem ou o que significa, simplesmente se torne ela. Feche os olhos. Deixe-a ocupar todo o seu corpo. Não há pensamento, não há história, só a emoção. Como ela se sente no peitoral? No estômago? Nos ombros? Onde ela está no corpo agora? Observe se muda quando você presta atenção nela.
- Para a vida cotidiana: experimente passar uma refeição inteira sem falar, comendo devagar, notando textura, temperatura, sabor. Barry descreve como jantar em silêncio mudou completamente sua relação com a comida e com as pessoas ao redor.
PARTE III — NEVOEIRO E PEDRA: ERROS, CONFUSÃO E O QUE NASCE DISSO
RESUMO DA PARTE
Estas são as seções mais densas e ao mesmo tempo mais humanas do livro, aquelas em que Barry assume a função de líder de grupo de Gestalt pela primeira vez e descreve com uma honestidade que chega a ser dolorosa todos os erros que comete, todas as vezes em que perde o fio, todas as vezes em que sua cabeça entra na frente do seu instinto e estraga o que poderia ter sido um momento de contato genuíno. É também onde ela relata as descobertas que só foram possíveis porque cometeu esses erros e os notou em vez de tentar escondê-los.
Fritz Perls diz a ela no final: “Os erros não importam”. Ela primeiro concorda, depois discorda intensamente, depois concorda de novo, numa oscilação que é perfeita ilustração do processo de aprendizagem real. A seção “Pedra” contém a história de ficção científica “Janela para o Turbilhão” que ela escrevera anos antes, que de certa forma antecipa em linguagem literária tudo que o livro está tentando dizer em linguagem autobiográfica: a ideia de que o verdadeiro conhecimento não pode ser dado, apenas descoberto por si mesmo.
Pontos-chave
- * “Qualquer tentativa de mudar está sujeita ao fracasso. Qualquer tentativa de fracassar está sujeita ao sucesso.” (Fritz Perls) Esta é talvez a mais paradoxal e mais profunda frase do livro, e resume uma das descobertas centrais da Gestalt: que forçar mudança cria resistência, enquanto observar e aceitar o que é frequentemente cria as condições para que a mudança ocorra por si mesma.
- * “O organismo não toma decisões. A decisão é uma instituição artificial. O organismo funciona sempre com base na preferência.” (Fritz Perls)
- * “Tentando não cometer erros e a tentativa de corrigi-los que estraga tudo.” Erros notados no momento em que ocorrem, sem autocensura, sem plano de correção, simplesmente notados: isso é o contrário do que a maioria de nós aprende a fazer com os erros.
- * “Se eu não tenho uma meta, como posso cometer um erro?” O medo de errar, que paralisa tantos de nós, só existe em relação a uma meta que estabelecemos. Sem meta, só há o que acontece.
Reflexão Crítica
A discussão sobre erros nesta parte do livro toca num dos neuróticos mais comuns da nossa geração: o perfeccionismo. Barry mostra que o perfeccionismo não é uma virtude disfarçada de vício, mas um sinal de que a pessoa não está em contato com sua própria experiência. Quem está genuinamente presente no que faz comete erros, os nota, aprende e segue. Quem está preso na imagem do que deveria ser faz e desfaz, planeja e replaneja, ensaia e re-ensaia, e frequentemente não consegue começar nada porque o ponto de chegada imaginado é sempre mais perfeito do que qualquer ponto de partida real.
Pesquisas em psicologia da criatividade mostram consistentemente que a qualidade do output criativo aumenta quando as pessoas são encorajadas a cometer erros rapidamente em vez de planejar exaustivamente antes de começar. Barry Stevens chegou a essa conclusão experiencialmente, sem saber que estava descrevendo o que a psicologia cognitiva chamaria cinquenta anos depois de “aprendizagem por tentativa e erro intencional”.
Aplicações práticas
- * Por uma semana, tente fazer uma coisa por dia sem planejamento prévio: prepare uma refeição sem decidir o que vai fazer antes de abrir a geladeira e ver o que tem. Escreva algo sem decidir antes sobre o que vai escrever. Saia para caminhar sem decidir o caminho. Observe o que acontece na sua relação com o resultado quando o processo foi sem meta.
- * Para o ambiente profissional: nas próximas reuniões de equipe, preste atenção ao “fenômeno” antes da “projeção”. O que realmente está sendo dito, em contraste com o que você está interpretando que está sendo dito? Essa distinção simples pode mudar completamente a qualidade de qualquer conversa.
PARTE IV — UM PAPO COM BARRY: DIRETAMENTE DE PESSOA PARA PESSOA
RESUMO DA PARTE
A última seção do livro contém uma entrevista que Barry concedeu a um jornal local, incluída em meio ao fluxo de sua narrativa, e é uma das seções mais diretas e ao mesmo tempo mais reveladoras de todo o texto. É aqui que ela enuncia mais claramente o que aprendeu de três meses de imersão: que quando não pensa, funciona melhor. Que quando funciona sem pensar no que está fazendo, é mais disponível para as outras pessoas. Que o que a sociedade chama de “cuidar dos outros” frequentemente é o oposto disso: um modo de não se cuidar, de se perder no outro, de usar o outro para não ter que estar consigo mesma.
É aqui também onde o livro se fecha num movimento de abertura: Barry não sabe o que vai fazer quando sair do Instituto. Sabe que o que ganhou lá vai embora com ela. E isso é suficiente.
Pontos-chave
- * “É com a minha própria humanidade que eu me preocupo. Sinto-me bem dizendo isso, depois de tantos anos em que me foi dito que devo pensar nos outros.” Esta é uma das frases mais contraintuitivas e mais necessárias do livro, e ela esclarece de imediato: não é egoísmo. É que quando você não pensa, quando você está genuinamente presente, é então que funciona melhor, que é mais disponível para os outros. O problema é que a maioria de nós foi ensinada a “pensar nos outros” como uma forma de não pensar em si mesmo, e isso nos deixa nem aqui nem lá.
- * “Nos dizem que cometer erros é ruim. Mas isto é parte da aprendizagem, cometer erros e notá-los. Se não os combatermos, eles se corrigem. Como é que um bebê aprende a andar?”
- * A história de ficção científica “Janela para o Turbilhão” e “Aqui e Ali” funcionam como parábolas que dizem em linguagem simbólica o que não pode ser dito diretamente: que o conhecimento genuíno não pode ser transmitido, apenas descoberto, e que qualquer tentativa de “dar” o caminho para alguém rouba dessa pessoa o processo de descoberta que é o único que vale.
Reflexão Crítica
Há um paradoxo no coração deste livro que eu gostaria de nomear explicitamente, porque ele aparece em vários pontos da seção final: o paradoxo de escrever um livro para ensinar que não se pode ensinar. Barry menciona isso ela mesma, com característica honestidade: “Este livro era para dizer muita coisa sobre Gestalt. Quanto mais sei sobre Gestalt, menos posso dizer.”
É um paradoxo que todos os grandes ensinamentos contemplativos conhecem bem, do Zen ao Taoísmo ao Budismo: o dedo que aponta para a lua não é a lua. O mapa não é o território. O livro que descreve a presença não é a presença. O único jeito de chegar lá é ir. Isso não torna o livro inútil, pelo contrário: torna-o especialmente valioso como um dedo honesto, que aponta com clareza sem pretender ser a lua.
Aplicações práticas
- A prática mais direta que emerge desta seção é a mais simples: em vez de tentar ajudar alguém, tente primeiro estar com alguém. Há uma diferença imensa entre ficar com uma pessoa que está em sofrimento e imediatamente oferecer soluções, e ficar com essa pessoa notando o que ela realmente está expressando, não o que você acha que ela precisa.
- Para a vida profissional: a próxima vez que tiver de tomar uma decisão importante, antes de “decidir”, sente-se em silêncio por alguns minutos e preste atenção ao que seu corpo está dizendo. Não o que sua cabeça analisa, mas o que você sente fisicamente quando imagina cada uma das opções. O eu organísmico frequentemente sabe antes do eu intelectual.
IMPACTO NA SOCIEDADE
Numa sociedade que monetiza a atenção, que vende a cura instantânea como produto de assinatura, que transformou a presença em conteúdo, que chama de “mindfulness” uma prática de cinco minutos entre duas horas de scroll compulsivo, e que confunde o mapa do crescimento pessoal com o crescimento pessoal em si, “Não Apresse o Rio” de Barry Stevens funciona como um antídoto discreto e radical: um livro que não tem nada a vender, nenhum método a patentear, nenhuma garantia a dar, apenas o relato honesto de uma mulher de 67 anos aprendendo que a vida só acontece quando você para de tentar controlá-la e começa a notá-la, e que esse aprender não tem fim, não tem certificado, não tem dia de formatura, tem apenas o próximo momento de consciência, e o próximo, e o próximo, cada um completo e suficiente em si mesmo.
A MENSAGEM PARA A GERAÇÃO ATUAL
Você vive numa cultura que te ensinou a ser produtivo antes de aprender a ser. Que te ensinou a ter um plano antes de aprender a notar o que está acontecendo. Que te ensinou a gerenciar suas emoções antes de aprender a senti-las. Que te ensinou a construir uma marca pessoal antes de aprender quem você é quando não está performando para ninguém. E esse aprendizado tem um preço que você talvez sinta, mesmo que não consiga nomeá-lo: uma sensação de que você está sempre correndo para algum lugar sem saber exatamente para onde, que há sempre mais a fazer e menos tempo para sentir que o que está sendo feito valeu a pena, que o descanso parece culpa e o prazer precisa ser merecido.
Barry Stevens não tinha celular, não tinha redes sociais, não tinha aplicativos de produtividade. Mas o que ela descreve como a zona intermediária, esse espaço onde vivemos pensando sobre a vida em vez de vivendo-a, é mais intenso hoje do que jamais foi em qualquer época anterior. Cada notificação, cada scroll, cada comparação instantânea com outra pessoa, cada decisão de consumo, cada avaliação de restaurante, cada algoritmo de recomendação é uma camada a mais de zona intermediária entre você e a sua própria experiência direta do mundo.
A mensagem de “Não Apresse o Rio” para você, que tem entre 18 e 30 anos e está tentando descobrir quem é e o que quer, não é que você deveria usar menos o celular ou meditar mais, embora ambas as coisas possam ser úteis. A mensagem é mais fundamental: que o que você está procurando, essa sensação de estar inteiro, de estar presente, de estar vivo de um jeito que não é apenas executar tarefas e consumir conteúdo, essa sensação não está no próximo objetivo alcançado, na próxima viagem, no próximo relacionamento, na próxima versão melhorada de si mesmo que vai existir quando você finalmente resolver isso ou aquilo. Ela está aqui. Agora. No único momento em que qualquer coisa realmente existe.
Isso não é conselho fácil de seguir. É irônico que um livro sobre presença resulte em mais uma mensagem para você processar intelectualmente. Mas essa ironia é o próprio tema do livro: o limite do que pode ser ensinado e o território do que só pode ser descoberto por quem faz a viagem. “Não apresse o rio” não é um conselho. É uma descrição do que o rio faz de qualquer jeito, com ou sem a sua pressa.
CONCLUSÃO
“Não Apresse o Rio: Ele Corre Sozinho” é um livro que desafia a própria categoria de livro, porque enquanto a maioria dos livros que temos sobre psicologia, filosofia e crescimento humano oferecem sistemas, métodos, teorias e frameworks que prometem nos conduzir de um estado a outro, este nos coloca diante de um espelho e diz apenas: “Olha. Simplesmente olha. O que você vê?”.
Barry Stevens nos convida a habitar o paradoxo central da existência humana: somos criaturas capazes de pensar sobre nossa própria experiência, e essa capacidade extraordinária é também nossa prisão mais frequente, porque o pensamento sobre a experiência frequentemente substitui a experiência, e nos encontramos vivendo na cabeça uma vida que deveria estar sendo vivida no corpo, no presente, em contato com a realidade como ela é e não como gostaríamos que fosse ou temos medo que seja.
Conectar filosofia, mente, comportamento e realidade humana, como este livro faz, não é um exercício acadêmico: é o reconhecimento de que o modo como pensamos determina o modo como nos comportamos, que o modo como nos comportamos determina o tipo de relações que construímos, que o tipo de relações que construímos determina o tipo de sociedade em que vivemos, e que a sociedade em que vivemos é o resultado de um número imenso de pessoas que não aprenderam a notar o que está acontecendo dentro delas antes de agir. A sabedoria simples e radical deste livro é que a mudança começa aqui, neste momento, neste corpo, nesta experiência, neste notar sem julgamento, neste deixar o rio correr.
FRASES MEMORÁVEIS
- “Não apresse o rio. Ele corre sozinho.”
- “Qualquer tentativa de mudar está sujeita ao fracasso. Qualquer tentativa de fracassar está sujeita ao sucesso.”
- “Tomar consciência é o ABC da Gestalt. É também o XYZ. Todo o resto provém disso.”
- “Quando não penso, sou mais disponível aos outros. É então que funciono melhor. Isso pode parecer idiotice.”
- “A resposta está na pessoa que responde. É mentira se alguém pensa que tem a resposta certa. Ela só tem a própria resposta.”
O QUE ESTE ARTIGO REALMENTE QUER TE DIZER?
A ideia central do livro: a ideia central de “Não Apresse o Rio” pode ser enunciada numa única frase que aparece quase no final do texto e que o intitula: “Não apresse o rio. Ele corre sozinho.” Mas o que isso significa concretamente para a vida de uma pessoa de 20 ou 30 anos no século XXI é algo que vale a pena desenvolver com honestidade.
O que Barry Stevens está descrevendo, ao longo de centenas de páginas de observação de si mesma, é a distância abissal que existe entre o que você está de fato experienciando agora e o que você acha que está experienciando, entre o que seu organismo quer e o que sua cabeça acha que você deveria querer, entre a vida que está acontecendo e a vida que você está pensando sobre a vida que está acontecendo. Essa distância tem um nome na Gestalt: zona intermediária. E é nessa zona que a maioria de nós vive a maior parte do tempo. Não estamos aqui, presentes, notando o que está acontecendo. Estamos lá, na cabeça, pensando, planejando, julgando, comparando, ensaiando respostas para conversas que ainda não ocorreram, repassando conversas que já foram. O livro não é uma crítica a isso. É um convite para que você note quando isso acontece, porque o simples ato de notar já é o início da saída.
Esse processo de tomada de consciência que Barry descreve, fundamentado na Gestalt de Perls mas também profundamente marcado pelo contato com as culturas indígenas americanas e com o Zen, não é uma técnica. Não é um exercício que você faz durante quinze minutos por dia e depois volta para o automatismo. É uma orientação para toda a vida, uma qualidade de atenção que, quando desenvolvida, muda a textura de tudo: como você escuta uma pessoa, como você come, como você caminha, como você toma uma decisão, como você se relaciona com seu próprio corpo, suas próprias emoções, sua própria existência. É a ideia de que o organismo humano, quando não é bloqueado pelo pensamento excessivo, pelas introjeções culturais e pelo medo de cometer erros, possui uma sabedoria própria que é mais confiável do que qualquer sistema conceitual ou regra moral externamente imposta.
Por que isso importa na vida real?: imagine uma pessoa de 25 anos que fica horas no celular sem conseguir parar, mas que se sente vazia e sem energia depois. Ela sabe que isso acontece. Ela sabe que não faz bem. Ela toma a decisão de parar. E não para. Por quê? Porque a decisão foi tomada pela cabeça, pelo intelecto, pelo eu-conceitual que sabe o que seria bom fazer. Mas o que realmente a leva a pegar o celular toda vez que tem um segundo de pausa não é decisão: é um reflexo automático, um padrão que o organismo aprendeu a executar sem consultar nenhum tribunal interno.
Barry Stevens diria, baseada em Fritz Perls: para mudar isso, você não precisa de mais uma decisão. Você precisa começar a notar. Notar o momento exato em que a mão vai em direção ao celular. Notar o que estava sentindo um segundo antes de pegar o celular. Notar o que acontece no corpo quando fica na tela. Notar sem julgar, sem transformar o notar num novo dever moral. Simplesmente notar. Esse notar, aplicado com consistência, é o que cria uma pausa onde antes havia automatismo, e é dessa pausa que a mudança genuína emerge, não da força de vontade.
Uma analogia memorável: você já tentou dormir forçando? Quanto mais você tenta, mais o sono foge. Quanto mais você “decide” dormir, mais alerta fica. O sono só vem quando você parar de tentar e deixa o organismo fazer o que sabe fazer. O título do livro diz exatamente isso: se você for a uma cachoeira e tentasse empurrar a água para ela correr mais rápido, não conseguiria nada, só se cansaria e se molharia. A água tem seu próprio ritmo, sua própria direção, sua própria velocidade. Forçar não ajuda. Observar, acompanhar, entrar no fluxo: isso funciona. A vida é o rio. Você é a pessoa que aprendeu que pode confiar nele.
GLOSSÁRIO PARA INICIANTES
Gestalt-terapia:
É uma abordagem psicoterapêutica criada por Fritz Perls, Laura Perls e Paul Goodman nos anos 1950, que enfatiza a tomada de consciência do que está acontecendo aqui e agora, em vez de analisar o passado ou interpretar comportamentos. O nome “Gestalt” vem do alemão e significa algo como “forma” ou “configuração”, referindo-se à ideia de que o ser humano é uma totalidade integrada (corpo, emoções, pensamentos) e não uma coleção de partes separadas.
Exemplo: em vez de perguntar “por que você fica ansioso antes de provas?”, um terapeuta gestaltista perguntaria “o que você está sentindo no corpo agora mesmo, enquanto fala sobre isso?”.
Tomada de Consciência (Awareness):
É a capacidade de notar o que está acontecendo dentro e fora de si mesmo no momento presente, sem filtrar imediatamente pelo julgamento, pela análise ou pela comparação com o que “deveria” estar acontecendo. No livro, Barry descreve isso como o ABC da Gestalt.
Exemplo: enquanto você lê este texto, sua postura é uma coisa, seu ritmo respiratório é outra, o nível de conforto no seu corpo é outra. Tomada de consciência seria notar tudo isso sem decidir imediatamente se é bom ou ruim.
Lugar Quente (Hot Seat):
É a cadeira vazia que, nas sessões de Gestalt de Fritz Perls, ficava diante do terapeuta, onde o participante sentava para trabalhar. Simbolizava o momento em que alguém se tornava voluntariamente o foco da atenção do grupo e do processo terapêutico. A expressão “hot seat” (lugar quente) refletia a intensidade e a exposição que esse momento envolvia.
Exemplo: é um pouco como quando, numa reunião de trabalho, alguém é convidado a apresentar seu projeto e fica no centro de toda a atenção; a diferença é que no hot seat gestaltista o foco é a experiência interna da pessoa, não o produto que ela apresenta.
Zona Intermediária:
É o espaço mental onde vivemos quando não estamos em contato com o mundo externo real (o que realmente está acontecendo) nem com o mundo interno real (o que realmente estamos sentindo), mas sim perdidos em fantasias, planificações, ensaios, interpretações e narrativas que nossa mente constrói. Fritz Perls a chamava de o lugar onde a maioria de nós passa a maior parte do tempo.
Exemplo: você está numa conversa com alguém mas sua cabeça já está ensaiando o que dirá daqui a três minutos, ou julgando o que a pessoa disse há trinta segundos. Você não está presente. Está na zona intermediária.
Processo Organísmico ou Eu Organísmico:
É a parte de nós que funciona antes e além do pensamento consciente, que sabe coisas que o intelecto ainda não formulou, que envia sinais através do corpo, das emoções e das imagens espontâneas. Barry frequentemente descreve momentos em que seu “eu organísmico” sabe algo antes que ela “saiba” no sentido racional, como quando começa a cantar uma música triste sem perceber que estava triste, ou quando seu corpo quer se levantar da cadeira antes que ela decida se levantar.
Exemplo: a intuição de que algo está errado numa situação antes de você conseguir articular logicamente por que é o eu organísmico falando.
Introjeção:
É o processo pelo qual absorvemos valores, regras, opiniões e julgamentos do ambiente externo (família, escola, cultura, religião, mídia) e os engolimos sem mastigar, sem questionar se realmente nos servem. Barry descreve como passou décadas internalizando o que “devia” sentir, o que era “apropriado” expressar, o que era “certo” querer, até que não conseguia mais distinguir o que era dela e o que era de outros.
Exemplo: você sente vontade de descansar mas uma voz interna imediata diz “você não pode ser preguiçoso”. Essa voz provavelmente não é sua. É de alguém que introjetou antes de você.
Organização Horizontal vs. Organização Vertical:
Barry usa esses termos emprestados do ativista indígena Wilfred Pelletier para distinguir dois modelos de organização social. Na vertical, há hierarquia, ordens de cima para baixo, lideranças fixas e funcionamento de máquina. Na horizontal, a liderança emerge organicamente do contexto, cada pessoa contribui com o que sabe naquele momento, e a comunicação é o que une o grupo. Barry defende que a maioria das culturas industriais funciona verticalmente e que isso tem custos altíssimos para as pessoas.
Exemplo: uma reunião de trabalho onde só o chefe fala e os outros apenas obedecem é vertical. Uma conversa entre amigos onde todos contribuem espontaneamente é horizontal.
Maya:
Termo emprestado da filosofia hindu, que o livro usa para se referir à “ilusão”, especialmente a confusão que fazemos entre a realidade e as histórias que contamos sobre a realidade. Barry menciona que Fritz Perls disse ter visto claramente “maya” num certo momento, a distinção entre o que é real e o que é construção mental.
Exemplo: você está bravo com alguém e sua cabeça começa a construir toda uma narrativa sobre as intenções dessa pessoa, sobre o que ela “sempre faz”, sobre o que isso significa para o futuro. Essa narrativa é maya. O que é real é apenas o fato de você estar sentindo algo agora.
Ensaio (em Gestalt: Rehearsal):
Fritz Perls dizia que “pensar é ensaiar”, significando que a maior parte do nosso pensamento cotidiano é uma espécie de preparação ansiosa para situações que talvez nunca ocorram da forma que imaginamos. Ensaiamos respostas, preparamos argumentos, planejamos cenários, e todo esse ensaio nos impede de estar presentes no momento real quando ele ocorre.
Exemplo: você passa horas pensando no que dirá numa conversa difícil com um amigo. Quando a conversa acontece, ela vai numa direção completamente diferente, e todo o ensaio foi inútil além de ter te impedido de estar aqui agora.
Fenômeno vs. Projeção:
Fenômeno é o que pode ser observado diretamente: o comportamento, a expressão, o tom de voz, o que está presente aqui e agora. Projeção é a interpretação que fazemos do fenômeno, frequentemente baseada em nossas próprias experiências passadas, medos ou expectativas, atribuída ao outro. Fritz Perls dizia a Barry: “Fiquem com o fenômeno”. É um dos conselhos mais subversivos do livro porque sugere que a maior parte do que “sabemos” sobre os outros e sobre a realidade é projeção, não fenômeno. Exemplo: você vê uma pessoa quieta numa reunião e pensa “ela não gosta de mim”. O fenômeno é: ela está quieta. A projeção é: ela não gosta de mim.





