Filosofia intercultural e saúde mental: o que América Profunda ainda tem a nos ensinar
Filosofia intercultural e saúde mental: o que América Profunda ainda tem a nos ensinar
Kusch parte de uma constatação incômoda: existe uma América “oficial”, construída à imagem da Europa, feita de constituições, universidades, prédios elegantes e discursos de progresso; e existe outra América, mais antiga, mais silenciosa, que sobrevive nos mercados, nas festas populares, nas crenças sobre a chuva e a colheita, no jeito de caminhar, de rezar, de esperar. Essa segunda América é a que o título do livro chama de “profunda”, e é justamente ela que a primeira trata com desconforto, vergonha e, em certos momentos, com um nojo quase físico.
Kusch chama esse sentimento de “hedor de América”: o cheiro que a elite urbana sente quando se aproxima do índio, do migrante, do pobre, do popular, e que na verdade não é um cheiro do outro, mas um sintoma de uma identidade reprimida dentro de quem sente o nojo.
A partir dessa intuição inicial, o livro se organiza em três grandes blocos, ou “Livros”, que funcionam quase como três movimentos de uma sinfonia filosófica.
No primeiro, intitulado A Ira Divina, Kusch mergulha na cosmovisão indígena pré-colombina para entender como o sagrado, o medo e a natureza se entrelaçam numa lógica muito diferente da racionalidade ocidental. No segundo, Os Objetos, ele vira o olhar para a Europa e mostra como a moral burguesa dos séculos XVI e XVII deu origem a uma cultura obsessiva de consumo e de máquinas, na qual os objetos passam a carregar, disfarçadamente, tudo aquilo que essa moral proibiu. No terceiro, Sabedoria de América, ele tenta amarrar os dois fios anteriores numa proposta: a de que, na América, o modo de vida importado da Europa não “civiliza” o modo de vida indígena, mas é, ao contrário, lentamente absorvido por ele, como um organismo que digere o que engoliu.
O resultado é um livro que, escrito há mais de seis décadas, continua extremamente atual para quem se interessa por filosofia, psicologia, comportamento humano, identidade, ansiedade e os dilemas de uma sociedade obcecada por consumo, status e a sensação constante de não ser “o suficiente”.
OBJETIVO DO LIVRO
O objetivo de Kusch não é provar que o pensamento indígena é “melhor” do que o pensamento ocidental, nem propor uma volta romântica ao passado: é mostrar que dentro de cada pessoa latino-americana, e dentro da cultura do continente como um todo, convivem duas formas de estar no mundo – uma que ele chama de “ser”, herdada da Europa moderna, voltada para a ação, a conquista, a definição de identidade e a construção de uma realidade artificial que nos protege do caos; e outra que ele chama de “estar”, enraizada no pensamento indígena e popular, voltada para a permanência, o vínculo com o lugar, o ritmo da natureza e a aceitação do que não se controla.
Ao trazer à luz essa segunda forma de existência, sistematicamente desprezada pela cultura oficial como “atraso”, Kusch quer devolver legitimidade filosófica ao pensamento popular e indígena, tratando-o não como superstição primitiva, mas como uma racionalidade alternativa, tão válida e tão sofisticada quanto a racionalidade científica europeia – e, mais importante ainda, como uma peça que falta para curar uma espécie de cisão psíquica que atravessa a identidade latino-americana até hoje.
CONTEXTO BIOGRÁFICO E INTELECTUAL DO AUTOR
Para entender por que um pensador conseguiu escrever um livro tão radicalmente “de dentro” da América indígena, vale a pena conhecer a história, no mínimo curiosa, de quem o escreveu: Günter Rodolfo Kusch nasceu em Buenos Aires em 25 de junho de 1922, filho de imigrantes alemães que haviam chegado à Argentina pouco depois da Primeira Guerra Mundial, e cresceu em um lar bilíngue, lendo desde cedo os clássicos da filosofia europeia em alemão. Por um tempo, chegou a iniciar estudos de engenharia, mas logo migrou para a filosofia, formando-se Professor de Filosofia pela Universidade de Buenos Aires em 1948; dominava autores como Hegel, Kant e Heidegger no original, mas, em vez de apenas repetir essas referências, decidiu usá-las como ferramentas para pensar a América “por dentro”.
A partir dos anos 1950, Kusch passou a alternar a vida acadêmica – foi professor na própria Universidade de Buenos Aires e, entre 1963 e 1973, de Estética e História da Cultura na Escola Nacional de Belas Artes “Prilidiano Pueyrredón” – com longas temporadas de trabalho de campo no altiplano andino da Bolívia, do Peru e do noroeste argentino, onde conviveu com comunidades indígenas e populares que se tornaram a verdadeira matéria-prima de sua filosofia.
Em 1976, durante a ditadura militar argentina, foi afastado de seu cargo na Universidade Nacional de Salta por causa do caráter político de seu pensamento, e decidiu se instalar definitivamente em Maimará, um pequeno povoado na Quebrada de Humahuaca, na província de Jujuy, onde continuou escrevendo até morrer de câncer de pulmão em 30 de setembro de 1979, sendo sepultado nos cerros que tanto amou.
Como curiosidade, vale notar que Kusch também foi dramaturgo, autor de peças sobre figuras populares argentinas e apaixonado por tango como expressão da cultura popular urbana – e que há algo profundamente irônico, quase poético, no fato de um filho de imigrantes europeus, criado em meio à racionalidade germânica, ter se tornado uma das vozes mais radicais em defesa do pensamento indígena americano: ele próprio era, em carne e osso, o encontro tenso entre “ser” e “estar” que passaria a vida inteira tentando descrever.
Filosofia intercultural e saúde mental: o que América Profunda ainda tem a nos ensinar
América Profunda, de Rodolfo Kusch: A Filosofia que nasce do medo, dos objetos e da sabedoria esquecida da América.
PARTE 1 DO LIVRO – A IRA DIVINA: O MEDO QUE FUNDA TODA UMA CIVILIZAÇÃO
RESUMO DA PARTE
O primeiro grande bloco de América Profunda começa de um jeito quase cinematográfico: Kusch nos coloca diante da figura de um “yamqui”, um cronista indígena andino do período colonial, parado em frente a uma igreja, observando-a com um misto de desconfiança e ironia, e perguntando, baixinho, “onde estás, deus?”. Essa pergunta não é uma simples curiosidade religiosa; ela é a porta de entrada para todo o edifício filosófico do livro. Para o yamqui, o deus que mora dentro da igreja, cercado de imagens, ouro e doutrinas, é estranho, distante, quase deslocado – porque o sagrado, na cosmovisão andina, nunca esteve “guardado” em um lugar fechado. Ele está na chuva que cai sobre a roça, no trovão que anuncia a tempestade, no granizo que pode destruir em minutos o trabalho de meses, no ciclo de fartura e escassez que rege a vida da comunidade. Kusch reconstrói, a partir de crônicas antigas e de estudos sobre figuras como Viracocha e Pachayachachic, uma cosmovisão em que o mundo é permanentemente atravessado por forças opostas – ordem e caos, abundância e fome, bem e mal – e em que essas forças não são vistas como um problema a ser resolvido de uma vez por todas, mas como um ritmo a ser conhecido, respeitado e, de certa forma, “conjurado” através de calendários, símbolos e rituais.
É aqui que nasce o conceito mais famoso do livro: a distinção entre “ser” e “estar”. Para Kusch, a cultura ocidental moderna – que ele localiza na burguesia europeia que emerge a partir do século XVI – constrói sua identidade em torno do verbo “ser”: ser alguém, ser definido, ser produtivo, ser dono de um destino que se conquista. Essa cultura responde ao medo do mundo construindo uma “segunda realidade” – cidades, tecnologia, ciência, instituições – que funciona como uma muralha entre o sujeito e o caos. Já a cultura indígena e popular americana, segundo Kusch, vive fundamentalmente o verbo “estar”: estar em um lugar, estar exposto ao clima, à colheita, à sorte, sem a pretensão de “resolver” definitivamente essa exposição, mas aprendendo a habitá-la através da magia, do ritual, da repetição simbólica. O ponto crucial – e talvez o mais provocador de todo o Livro I – é que Kusch não diz que uma cultura tem medo e a outra não. Ele diz que as duas nascem do mesmo medo original diante de um mundo que não se controla totalmente; a diferença está no que cada uma faz com esse medo. Uma o empurra para fora, transformando-o em motor de construção e conquista. A outra o convida para dentro, transformando-o em ritmo de vida.
PONTOS-CHAVE
– O ponto de partida do Livro I é uma pergunta existencial colocada na figura de um cronista indígena: “onde estás, deus?” – uma pergunta que revela um conceito de sagrado completamente diferente do europeu.
– Na cosmovisão andina, o divino não habita um templo separado da vida cotidiana: ele se manifesta na natureza, especialmente em fenômenos ambíguos como a chuva, o trovão e o granizo, que podem ser tanto bênção quanto destruição. É essa ambiguidade que Kusch chama de “ira divina”.
– Surge aqui a dualidade central de toda a obra: “ser” (modo ocidental – ativo, definidor, construtor de uma “segunda realidade” feita de cidades e tecnologia) versus “estar” (modo indígena e popular – receptivo, ritual, integrado ao ritmo do ambiente).
– O medo diante do desconhecido é apresentado como a raiz comum de ambas as culturas; o que diferencia “ser” e “estar” não é a presença ou ausência de medo, mas a estratégia usada para conviver com ele – deslocá-lo para fora (construir) ou integrá-lo à própria vida (conjurar).
– A magia e o ritual, nesse contexto, não são “crendices primitivas”, mas tecnologias simbólicas sofisticadas para tornar o imprevisível psicologicamente habitável.
REFLEXÃO CRÍTICA
O que torna esse primeiro bloco de América Profunda tão fascinante – e tão incômodo – é que ele antecipa, com décadas de antecedência, discussões que hoje fazem parte central da psicologia e da neurociência sobre ansiedade. Sabemos hoje que o cérebro humano possui sistemas de detecção de ameaça, como a amígdala, que evoluíram para reagir a perigos concretos e imediatos – um predador, um precipício, um inimigo. O problema é que a vida contemporânea bombardeia esse sistema com ameaças abstratas, difusas e permanentes: instabilidade financeira, comparação social, incerteza sobre o futuro, notícias de crise atrás de crise. Diante disso, a estratégia que Kusch identifica como “ser” – controlar, prever, acumular defesas, multiplicar certezas – tornou-se quase um mandamento cultural: planeje, otimize, proteja-se, blinde-se. E, no entanto, quanto mais investimos nessa blindagem, mais frágeis nos sentimos quando ela falha, porque nunca lidamos diretamente com o medo, apenas o empurramos para um território cada vez mais distante, onde ele continua à espreita.
A “estar” de Kusch, por outro lado, soa estranhamente parecida com o que abordagens contemporâneas de saúde mental chamam de tolerância à incerteza e aceitação emocional: não eliminar o desconforto, mas aprender a permanecer com ele sem que ele paralise a vida. Os rituais e calendários que Kusch descreve na cosmovisão andina cumpriam, coletivamente, uma função que muitas sociedades urbanas modernas perderam – a de criar um “contêiner” simbólico e comunitário para emoções difíceis como o medo, o luto ou a incerteza diante da escassez. Quando esse contêiner coletivo desaparece, cada indivíduo é deixado sozinho com seu sistema de alarme interno ligado, sem ferramentas culturais compartilhadas para desativá-lo – e é exatamente nesse vazio que florescem quadros de ansiedade generalizada, insônia e exaustão emocional, tão comuns hoje.
É importante, porém, fazer aqui uma reflexão crítica equilibrada: ao construir uma oposição tão nítida entre “Ocidente” e “América indígena”, Kusch corre o risco de simplificar realidades internamente muito diversas – nem toda a Europa é “ser” da mesma forma, nem todas as culturas indígenas vivem o “estar” de modo idêntico, e ambas trocaram influências entre si há séculos. Ainda assim, mesmo quem discorda da rigidez do esquema reconhece seu valor como provocação: ele nos obriga a perguntar de onde vêm, exatamente, os roteiros mentais que usamos para lidar com o medo, a incerteza e a existência – e se esses roteiros foram realmente escolhidos por nós ou simplesmente herdados sem questionamento.
APLICAÇÕES PRÁTICAS
Pensando no dia a dia de quem vive em 2026, é fácil enxergar a “ira divina” de Kusch reencarnada em formas novas. O hábito de checar compulsivamente notícias e redes sociais – o famoso “doomscrolling” – pode ser lido como um ritual moderno de tentar “conjurar” a incerteza através da informação: a sensação (ilusória) de que, sabendo tudo o que está acontecendo, estaremos mais protegidos. Da mesma forma, a cultura da “otimização pessoal” – aplicativos de produtividade, planejamento financeiro extremo, biohacking, metas para cada minuto do dia – é um descendente direto da lógica do “ser”: construir camadas e camadas de controle sobre uma vida que, no fundo, continua tão imprevisível quanto sempre foi.
Por outro lado, práticas que muitos jovens vêm redescobrindo hoje – rodas de conversa, mutirões comunitários, festas populares como as celebrações de Iemanjá no litoral, as folias de reis, os terreiros, as rodas de capoeira ou de samba de roda – funcionam, na lógica de Kusch, como versões contemporâneas do “estar”: momentos em que a comunidade se reúne não para resolver definitivamente seus problemas, mas para atravessá-los juntos, com música, comida, repetição e símbolo. Um exercício prático e simples, inspirado nessa parte do livro, é o seguinte: na próxima vez que sentir uma onda de ansiedade diante de algo incerto, observe se sua primeira reação é “controlar mais” (pesquisar, planejar, blindar) ou se existe a possibilidade de simplesmente “ficar” – respirar, sentar-se com o desconforto, talvez compartilhá-lo com outra pessoa, sem pressa de eliminá-lo. Essa pequena escolha, multiplicada ao longo de uma vida, é exatamente o tipo de “diálogo entre ser e estar” que Kusch propõe.
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PARTE 2 DO LIVRO – OS OBJETOS: QUANDO AS COISAS QUE COMPRAMOS CARREGAM AQUILO QUE NÃO PODEMOS SENTIR
RESUMO DA PARTE
Se o Livro I de América Profunda olha para o altiplano andino, o segundo livro vira completamente o telescópio em direção à Europa – mais especificamente, à moral burguesa que começa a se consolidar entre os séculos XVI e XVII. Kusch descreve uma sociedade obcecada em regular a conduta: condenando o roubo, a prostituição, a “imoralidade” em geral, e empurrando tudo isso para fora da vida visível, como se bastasse proibir algo para que ele deixasse de existir. O problema é que desejo, impulso e transgressão não desaparecem só porque foram declarados ilegais ou pecaminosos – eles precisam de algum lugar para onde ir. E é exatamente nesse vazio moral, segundo Kusch, que nasce a obsessão ocidental pelos objetos: primeiro a máquina, depois o automóvel, o cinema, a moda, o luxo, o consumo em geral.
A tese é arrojada: os objetos não são apenas ferramentas neutras, mas verdadeiros “sucedâneos” – substitutos socialmente aceitáveis para tudo aquilo que a moral proibiu. O automóvel torna-se um objeto de desejo e status que, de certa forma, “absorve” energias que antes seriam ligadas à transgressão; o cinema vira o lugar onde se assiste, em segurança, à vida intensa, perigosa ou luxuosa que não se pode (ou não se ousa) viver na realidade. A indústria do luxo e da moda, segundo Kusch, são quase sucedâneas do roubo e da prostituição: formas “limpas”, comercializadas, de canalizar o mesmo impulso de transgredir limites, agora travestido de consumo legítimo. Em outras palavras, por trás da vitrine reluzente da civilização dos objetos, Kusch encontra a mesma matéria-prima psíquica reprimida que tentou banir – só que agora embalada, precificada e vendida de volta para nós.
Essa análise se conecta diretamente ao conceito de “segunda realidade” apresentado no Livro I: a confiança ocidental de que a ciência, a técnica e a acumulação de bens “resolveram” o problema de viver num mundo hostil é, para Kusch, parcialmente uma ilusão. Os objetos criam uma camada protetora entre o sujeito e o medo original – mas não o eliminam, apenas o disfarçam, o monetizam e o transformam em motor permanente de desejo: sempre falta um objeto novo, uma versão melhor, uma posse que finalmente vai “completar” alguém.
PONTOS-CHAVE
– A moral burguesa europeia dos séculos XVI e XVII criou um vazio social ao reprimir condutas e desejos considerados imorais (roubo, prostituição, transgressão em geral).
– Esse vazio foi progressivamente ocupado por objetos – primeiro a máquina, depois o automóvel, o cinema, a moda e o consumo de luxo – que passaram a funcionar como “sucedâneos” simbólicos.
– Os objetos absorvem, de forma disfarçada, impulsos e desejos reprimidos: o automóvel e o luxo como sucedâneos do roubo, o cinema como sucedâneo de uma vida que não se pode viver na realidade.
– A “segunda realidade” construída pelo Ocidente através da ciência, da técnica e do consumo tenta neutralizar o medo original do Livro I, mas na prática apenas o desloca, o disfarça e o transforma em desejo permanente.
– “Ser alguém”, nessa lógica, passa a depender cada vez mais daquilo que se possui, se veste ou se exibe – a identidade migra do “estar no mundo” para o “ter coisas no mundo”.
REFLEXÃO CRÍTICA
É impressionante perceber como esse segundo bloco de América Profunda, escrito nos anos 1960, antecipa quase ponto por ponto uma das áreas mais estudadas da psicologia contemporânea: a psicologia do consumo e do materialismo. Pesquisas atuais mostram, repetidamente, que pessoas com valores mais materialistas – que associam fortemente posses e status à própria identidade e felicidade – tendem a relatar mais ansiedade, menor satisfação com a vida e relações interpessoais mais instáveis. O sistema de recompensa do cérebro, mediado pela dopamina, responde com intensidade à expectativa de adquirir algo novo – uma compra, uma curtida, uma notificação – mas essa sensação é curta, e logo dá lugar a um novo vazio, que pede um novo estímulo. Esse ciclo de “desejo-aquisição-vazio-novo desejo” é, em essência, o mesmo mecanismo que Kusch descreve: o objeto promete preencher uma falta existencial, mas, por definição, uma falta existencial não tem o formato de uma coisa, então nenhuma coisa jamais a preenche por completo.
Hoje, podemos ler as redes sociais como a versão mais recente e mais sofisticada dos “objetos” de Kusch. Seguidores, curtidas, métricas de engajamento e a própria imagem cuidadosamente editada que cada pessoa apresenta online funcionam como sucedâneos digitais: prometem pertencimento, validação e “ser alguém”, mas, assim como o automóvel ou o cinema do século XX, entregam apenas uma simulação – uma “segunda realidade” dentro da segunda realidade. Não é por acaso que tantos estudos associam o uso intenso de redes sociais à comparação social constante, à ansiedade e a quadros de baixa autoestima, especialmente entre adolescentes e jovens adultos: o cérebro recebe sinais de “conexão” e “status”, mas o corpo e as emoções continuam, muitas vezes, isolados e exaustos.
Uma reflexão crítica honesta também precisa reconhecer os limites da tese de Kusch: objetos, técnica e consumo não são, em si, o mal absoluto – eles também trouxeram redução real de sofrimento (saúde, conforto, comunicação, acesso à informação). O ponto mais forte da crítica de Kusch não é “objetos são ruins”, mas sim “quando os objetos se tornam o único vocabulário disponível para expressar quem somos e o que sentimos, perdemos a capacidade de lidar diretamente com nossas emoções, nosso comportamento e nossos vínculos” – e isso, sim, tem efeitos mensuráveis sobre a saúde mental, o comportamento de consumo compulsivo e até quadros de transtornos relacionados ao acúmulo e ao gasto impulsivo.
APLICAÇÕES PRÁTICAS
Um exercício simples e revelador, inspirado direto neste bloco do livro, é o seguinte: escolha qualquer anúncio publicitário – de um perfume, um carro, um smartphone, uma roupa de grife – e tente identificar qual “vazio existencial” ele está prometendo preencher. Quase sempre, por trás da promessa explícita (“praticidade”, “qualidade”, “estilo”), existe uma promessa implícita muito mais profunda: pertencimento, desejo, poder, segurança, ser notado, ser amado. Esse tipo de leitura crítica é uma ferramenta poderosa de letramento midiático, especialmente útil para jovens constantemente expostos a publicidade digital personalizada.
Outro ponto de contato direto com a vida atual são os movimentos de minimalismo e “desapego consciente”, cada vez mais populares entre jovens adultos: quando alguém decide reduzir drasticamente seus bens materiais e relata, depois, sentir-se “mais leve” ou “mais presente”, está, sem necessariamente saber, confirmando o diagnóstico de Kusch – o de que o acúmulo de objetos havia se tornado um substituto para algo que faltava em outro nível (tempo, atenção, vínculos, sentido). Da mesma forma, os “detox digitais” – períodos sem redes sociais ou celular – funcionam como pequenos experimentos práticos para testar a hipótese central deste bloco: o que aparece quando o sucedâneo é removido? Geralmente, o que aparece primeiro é justamente o desconforto, o tédio ou a ansiedade que o objeto estava disfarçando – e é exatamente esse encontro, desconfortável mas revelador, que Kusch convida seus leitores a não evitar.
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PARTE 3 DO LIVRO – SABEDORIA DE AMÉRICA: QUEM ENGOLE QUEM NA HISTÓRIA DO CONTINENTE?
RESUMO DA PARTE
O terceiro e último grande bloco de América Profunda é onde Kusch tenta amarrar os fios deixados pelos dois anteriores e propor algo parecido com uma síntese – embora, fiel ao seu estilo, ele prefira abrir perguntas a fechar respostas definitivas. A imagem central deste bloco é tomada de empréstimo da biologia: a fagocitação, processo pelo qual uma célula envolve e absorve outra. Kusch propõe que, na América, o que aconteceu historicamente não foi aquilo que o discurso colonial sempre prometeu – ou seja, que a “civilização” (o “ser” europeu) iria gradualmente “elevar”, educar e substituir a “barbárie” indígena (o “estar” americano). Na prática, segundo ele, ocorreu o movimento inverso: o “ser” importado – as instituições, as ideologias, as técnicas trazidas da Europa – foi sendo, ao longo dos séculos, lentamente envolvido, digerido e transformado pelo substrato persistente do “estar” americano, que nunca desapareceu, apenas migrou para debaixo da superfície oficial.
Para sustentar essa ideia, Kusch dialoga com o pensador mexicano Luis Villoro e sua análise de como os intelectuais latino-americanos se relacionaram, ao longo da história, com “o índio” enquanto objeto de pensamento. Durante a colônia, existia proximidade física com o indígena, mas com valorização negativa (o índio próximo, mas desprezado); durante a independência, surge o movimento contrário – distância idealizada, com valorização positiva (o índio celebrado como símbolo nacional, mas mantido a distância, quase como mito). Só recentemente, argumenta Kusch através de Villoro, torna-se possível uma terceira posição: proximidade com valorização positiva, presente nos movimentos indigenistas que buscam não apenas “falar sobre” o indígena, mas reconhecer nele – e em si mesmos – uma fonte viva de identidade.
Outro eixo importante deste bloco é a divisão geográfica entre “costa” e “serra” (sierra), típica de países como o Peru, que Kusch lê como uma espécie de mapa físico da própria dualidade ser/estar: as cidades litorâneas, voltadas para o comércio internacional, organizadas em torno da competição individual (o que Kusch compara à antiga pólis grega), versus as comunidades de altura, organizadas em torno da reciprocidade, da subsistência coletiva e de estruturas de “amparo” mútuo – em contraste com o “desamparo” do indivíduo deixado à própria sorte no modelo competitivo costeiro. O livro termina com uma crítica contundente às narrativas históricas oficiais – no caso argentino, as ligadas a figuras como Sarmiento, Roca e Yrigoyen – descritas como sucessões fragmentadas de “tombos” (tropeços), projetos de construção voltados para fora, sem uma “sabedoria” interna que dê sentido ao conjunto. Em contraposição, Kusch evoca a ideia de história como “itinerário divino”, algo que tem direção e significado para quem o vive coletivamente. A última imagem do livro retoma o yamqui da abertura: a verdadeira “lição de América” não estaria no progresso material nem na perfeição do projeto importado de “ser alguém”, mas na redescoberta da comunidade, da humildade e daquilo que Kusch chama de “reintegração da espécie” – um horizonte de sentido coletivo, e não apenas individual.
PONTOS-CHAVE
– “Fagocitação”: na América, é o “estar” indígena e popular que absorve, ao longo do tempo, o “ser” importado da Europa – e não o contrário, como prometia o discurso colonial de “civilização”.
– A dialética do indigenismo segundo Luis Villoro: da proximidade desvalorizada (período colonial) à distância idealizada (período de independência) até a possibilidade, hoje, de proximidade valorizada – reconhecer o indígena, e a si mesmo, com dignidade.
– A divisão “costa/serra” funciona como metáfora espacial do par ser/estar: cidades litorâneas competitivas e individualistas versus comunidades de altura organizadas em torno da reciprocidade e do amparo coletivo.
– Crítica às narrativas históricas oficiais (no caso argentino, Sarmiento, Roca, Yrigoyen) como projetos fragmentados, voltados para “construção exterior” e sem sabedoria interna – em contraste com a ideia de história como “itinerário” com sentido.
– A “lição de América”, que encerra o livro, propõe a comunidade, a humildade e a “reintegração da espécie” como horizonte de sentido coletivo – não o consumo, nem o progresso técnico isolado, nem o sucesso individual.
REFLEXÃO CRÍTICA
Esse bloco final é, talvez, o mais politicamente carregado de toda a obra – e também o mais conectado com debates atuais sobre identidade, sociedade e saúde coletiva. A ideia de “fagocitação” pode ser lida como uma versão muito precoce do que décadas depois ficaria conhecido, em diferentes correntes do pensamento latino-americano, como a persistência de saberes subalternos: a constatação de que culturas colonizadas não simplesmente desaparecem sob o peso da colonização, mas se hibridizam, se disfarçam, sobrevivem em sincretismos religiosos, em expressões populares, em modos de falar, de cozinhar, de cuidar – e, eventualmente, voltam a moldar a cultura “oficial” a partir de dentro, muitas vezes sem que esta perceba.
A oposição entre “costa” e “serra” também encontra eco direto em pesquisas de psicologia social sobre culturas mais individualistas e mais coletivistas. Sociedades organizadas em torno da competição individual tendem a valorizar a autonomia, a conquista pessoal e o destaque – mas também apresentam, de forma consistente, índices mais altos de solidão, isolamento social e determinados quadros de sofrimento psíquico ligados à falta de rede de apoio. Já em estruturas mais coletivas, organizadas em torno da reciprocidade e do amparo mútuo, a pressão sentida pelo indivíduo é diferente – muitas vezes ligada a expectativas e obrigações familiares ou comunitárias – mas existe, em compensação, uma rede de sustentação social que amortece crises individuais de um jeito que sociedades hiperindividualistas frequentemente não conseguem replicar. Kusch não está dizendo que um modelo é simplesmente “melhor” que o outro de forma absoluta; ele está apontando que a “sabedoria” presente no modelo de amparo coletivo foi sistematicamente desvalorizada pela cultura oficial, e que essa desvalorização tem um custo psicológico e social real.
A crítica de Kusch às histórias nacionais fragmentadas também conversa diretamente com discussões contemporâneas sobre trauma histórico e memória coletiva: sociedades que não processam adequadamente sua própria violência fundadora – genocídios, escravização, apagamento de povos e culturas – tendem a carregar esse material não resolvido de forma inconsciente, expressando-o em padrões repetitivos de comportamento coletivo, em ciclos políticos que parecem “não aprender com o passado”, e até em sintomas que a psicologia identifica, no nível individual, em pessoas que carregam traumas não processados: dissociação, repetição compulsiva, dificuldade de construir uma narrativa de vida coerente. Da mesma forma que uma pessoa com uma história de vida fragmentada tende a apresentar mais sofrimento psíquico do que alguém capaz de narrar sua própria trajetória com sentido e continuidade, Kusch sugere que o mesmo vale para sociedades inteiras – e que a “sabedoria de América” seria, em parte, o esforço de reconstruir essa narrativa coletiva interrompida.
É justo, ainda, fazer uma ressalva crítica: valorizar o “estar” e a comunidade não deve significar romantizar toda estrutura coletiva como automaticamente saudável – comunidades também podem ser opressoras, exigir conformidade excessiva ou limitar liberdades individuais. O próprio Kusch não propõe abandonar o “ser” e abraçar cegamente o “estar”; ele propõe que os dois finalmente conversem, em vez de um negar a existência do outro.
APLICAÇÕES PRÁTICAS
No Brasil e na América Latina de hoje, é possível ver “fagocitação” em ação em diversos movimentos: a demarcação de terras indígenas, a valorização de línguas originárias no currículo escolar, a incorporação de saberes tradicionais – como práticas de cura, alimentação e relação com a terra – em políticas públicas de saúde, e até a crescente presença de referências indígenas e afro-brasileiras na moda, na música e na linguagem cotidiana são exemplos concretos de como aquilo que foi marginalizado durante séculos volta, pouco a pouco, a moldar o centro da cultura.
No campo da saúde mental, modelos de cuidado comunitário – como rodas de terapia comunitária, grupos de apoio territoriais e práticas de cuidado baseadas em vínculos de bairro e de comunidade – representam, na prática, a lógica do “amparo” que Kusch associa ao “estar”, em contraste com um modelo puramente individual, de consultório, baseado exclusivamente na relação privada entre profissional e paciente. Da mesma forma, o crescimento de cooperativas, economia solidária, hortas comunitárias e movimentos de “vida mais lenta” entre jovens adultos insatisfeitos com a lógica hipercompetitiva das grandes cidades pode ser lido como a tensão “costa/serra” sendo reencenada, geração após geração, como escolha de estilo de vida.
Por fim, um exercício prático e pessoal para quem termina a leitura deste bloco: olhar para a própria história familiar e perguntar quais tradições, sotaques, religiões, comidas ou formas de cuidado foram, em algum momento, motivo de vergonha ou silenciamento – e se perguntar, com curiosidade e sem culpa, o que aconteceria se essas partes “engolidas” da própria história pudessem finalmente ser reconhecidas como parte legítima de quem se é hoje. Essa pergunta pessoal é, em miniatura, exatamente a pergunta que Kusch faz para o continente inteiro.
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IMPACTO NA SOCIEDADE
Escrito a partir de cadernos de campo rabiscados em mercados e povoados, e não em gabinetes universitários, América Profunda chega aos leitores de hoje com uma força quase profética: décadas antes de constituições latino-americanas passarem a reconhecer cosmovisões indígenas como o “bem viver”, antes de políticas públicas de saúde incorporarem medicinas tradicionais, antes de currículos escolares começarem a falar em educação intercultural, Kusch já apontava que a “modernização” do continente nunca foi uma simples importação bem-sucedida de um modelo europeu, mas um processo de fricção, digestão e transformação mútua entre dois modos de existir; o impacto mais profundo do livro, porém, não está nas instituições, mas em cada leitor que, ao terminá-lo, é convidado a sentir, na própria pele, aquele “hedor” do qual Kusch fala – o desconforto diante das próprias origens, da própria avó, do próprio bairro, da própria cor, do próprio jeito de falar – e a perceber que esse desconforto não nasceu dentro de si por acaso, mas foi cuidadosamente ensinado por uma cultura que precisava que ele existisse para se sustentar.
A MENSAGEM PARA A GERAÇÃO ATUAL
Para quem nasceu entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2010, a promessa que ouviu desde pequeno foi mais ou menos a seguinte: estude, esforce-se, construa uma carreira, conquiste seu espaço, “seja alguém”. É a lógica do “ser” levada ao extremo, vendida como caminho único para a felicidade. E, no entanto, essa mesma geração é a que relata, em pesquisas e em conversas cotidianas, níveis crescentes de ansiedade, exaustão, sensação de vazio e a curiosa experiência de estar permanentemente conectada e, ainda assim, profundamente sozinha. América Profunda não promete resolver isso com uma fórmula simples, mas oferece algo talvez mais valioso: um espelho que mostra de onde vêm essas regras invisíveis que tanto pesam.
Quando Kusch descreve o “estar” – a permanência, o vínculo com o lugar, a comunidade, o ritmo que não precisa ser otimizado a cada instante – ele está, sem saber, descrevendo exatamente aquilo que tantos jovens hoje buscam quando falam em “vida mais lenta”, em comunidade, em reconectar-se com tradições familiares, com a terra, com práticas ancestrais. O risco é transformar isso em apenas mais um produto de consumo – uma “estética” de desaceleração vendida dentro da mesma lógica de objetos que Kusch criticava no segundo livro. A mensagem mais honesta que se pode extrair da obra é que recuperar o “estar” não é uma tendência, um detox de fim de semana ou um estilo decorativo: é um trabalho de reconciliação com partes da própria identidade – e da identidade coletiva do continente – que foram historicamente tratadas como vergonha.
Há também, nesta obra, uma mensagem direta para quem está em processo de descobrir ou reafirmar suas raízes indígenas, afrodescendentes, mestiças, populares: o movimento de “fagocitação” que Kusch descreve no terceiro livro não é algo que aconteceu apenas no passado distante, entre civilizações – ele acontece, em escala pequena, dentro de cada família, a cada geração que decide recuperar uma língua, uma receita, uma crença, uma forma de cuidar que a geração anterior havia escondido por vergonha. Nesse sentido, cada jovem que hoje pesquisa sua árvore genealógica, aprende uma língua originária, frequenta uma roda de conversa sobre ancestralidade ou simplesmente decide não ter mais vergonha do sotaque da própria família está, em escala pessoal, fazendo o mesmo movimento que Kusch via como o destino de toda a América.
Por fim, para quem enfrenta ansiedade, comportamentos compulsivos ligados a consumo, redes sociais ou validação externa, e a sensação difusa de que “algo está faltando” mesmo quando, na superfície, “tudo está indo bem” – América Profunda sugere, com décadas de antecedência, uma hipótese que muita gente hoje sente intuitivamente, mas raramente nomeia: talvez o que falte não seja mais um objeto, mais uma conquista, mais uma versão otimizada de si mesmo, mas simplesmente a permissão para “estar” – presente, imperfeito, em processo, pertencendo a algum lugar e a alguma gente, sem precisar provar nada a cada instante.
CONCLUSÃO
No fim das contas, o que Rodolfo Kusch deixa como legado em América Profunda é a ideia perturbadora de que a mente que cada um de nós usa para pensar, sentir e agir não é um ponto de partida neutro, mas um campo de batalha silencioso entre duas formas históricas de existir – uma que aprendeu a temer o mundo e respondeu construindo muros, objetos e identidades a serem conquistadas, e outra que aprendeu a habitar o mundo e respondeu com rituais, vínculos e pertencimento; que boa parte daquilo que chamamos hoje de ansiedade, vazio existencial, consumismo compulsivo ou crise de identidade pode ser lido, em alguma medida, como o eco distante e não resolvido dessa disputa, replicada em escala individual dentro do psiquismo de cada pessoa nascida neste continente; e que talvez o gesto filosófico mais corajoso que se possa fazer, individual e coletivamente, não seja escolher um lado e silenciar o outro, mas finalmente sentar as duas vozes – a que constrói e a que permanece, a que conquista e a que pertence – frente a frente, e deixar que conversem, pela primeira vez, sem medo do que cada uma tem a dizer sobre quem realmente somos.
FRASES PARA REFLETIR (INSPIRADAS PELA OBRA)
- Não fugimos do medo – apenas o vestimos de tecnologia.
- Toda cidade é um muro erguido contra uma tempestade que já mora dentro de nós.
- Possuir objetos não preenche o vazio: apenas o decora.
- A América profunda não foi vencida – foi engolida, e ainda está digerindo o conquistador.
- Antes de tentar ser alguém, vale lembrar que primeiro precisamos estar em algum lugar.
O QUE ESTE LIVRO REALMENTE QUER TE DIZER?
A ideia central: América Profunda diz que existem, no fundo, duas formas básicas de estar vivo. Uma delas tenta controlar e dominar o mundo, construindo coisas – cidades, tecnologia, carreiras, posses – para se sentir seguro diante de algo que, no fundo, não controlamos. A outra aceita fazer parte de um mundo que não controla totalmente, e aprende a viver em ritmo com ele, em vez de lutar contra ele a cada minuto. Kusch argumenta que a América Latina, e cada pessoa que nasce nela, carrega as duas formas dentro de si, geralmente em conflito – e que muito do nosso sofrimento, individual e coletivo, vem de tentar viver apenas com a primeira, fingindo que a segunda não existe ou é motivo de vergonha.
Por que isso importa na vida real: pense em alguém que sai de uma cidade pequena ou do interior para morar numa metrópole “em busca de uma vida melhor”. Essa pessoa passa a trabalhar muito, comprar coisas que mostram que “está dando certo”, e medir seu valor pelo cargo, pelo salário, pelos seguidores. Com o tempo, porém, sente uma ansiedade que não passa, uma sensação de estar sempre correndo e nunca chegando a lugar nenhum – e, curiosamente, começa a sentir saudade exatamente daquilo que um dia achou “atrasado”: o ritmo mais lento da cidade pequena, as reuniões de família, a comida feita em casa, as conversas sem pressa. Essa saudade não é apenas nostalgia – é, na linguagem do livro, a parte “estar” de si mesma cobrando espaço, depois de anos sendo abafada pela parte “ser”.
Uma analogia para guardar: é como se cada um de nós tivesse aprendido duas línguas na infância – uma na escola, que ensina a competir, conquistar, “ser alguém” e ser avaliado por resultados; e outra em casa, com os mais velhos, que ensina a pertencer, a esperar, a fazer parte de algo maior que si mesmo. Em algum momento, fomos ensinados a ter vergonha da segunda língua e a falar apenas a primeira, em todos os lugares, o tempo todo. América Profunda é, essencialmente, um convite para voltar a ser bilíngue – não abandonar a língua que aprendemos na escola, mas resgatar a língua de casa, que nunca deixou de existir, apenas foi silenciada.
GLOSSÁRIO PARA INICIANTES
Ser – No vocabulário de Kusch, é o modo de existência ligado à cultura ocidental moderna: a busca por definir quem se é através de ações, conquistas, posses e status, e a tentativa de controlar o mundo construindo cidades, tecnologia e ciência. Exemplo do cotidiano: alguém que mede o próprio valor pelo cargo que ocupa, pelo carro que dirige ou pelo número de seguidores nas redes sociais está vivendo, na prática, a lógica do “ser”.
Estar – É o outro modo de existência descrito por Kusch, ligado ao pensamento indígena e popular: viver integrado a um lugar, a uma comunidade e ao ritmo da natureza, sem a necessidade de controlar ou definir tudo o tempo todo. Exemplo do cotidiano: o sentimento de pertencimento que se tem ao participar de uma festa de família ou de bairro, onde ninguém está ali para “conquistar” nada, apenas para fazer parte daquele momento junto com os outros.
Hedor de América – Expressão usada por Kusch para descrever o nojo ou desconforto que a elite urbana e “ocidentalizada” sente diante do popular, do indígena, do pobre ou do “atrasado”. Exemplo do cotidiano: a vergonha que algumas pessoas sentem do próprio sotaque regional, da comida típica da família ou do bairro onde cresceram, ao se mudarem para um ambiente considerado mais “sofisticado”.
Ira divina – Conceito que descreve como, na cosmovisão indígena andina, o sagrado se manifesta através de fenômenos naturais ambíguos – como chuva, trovão e granizo – que podem tanto sustentar a vida quanto destruí-la. Exemplo do cotidiano: a sensação de pequenez e respeito que se sente diante de uma tempestade muito forte, algo que nem toda a tecnologia consegue realmente controlar.
Yamqui – Termo usado para se referir a um cronista ou sábio indígena do período colonial andino, figura que Kusch usa simbolicamente no início e no fim do livro para representar o olhar “de dentro” da cultura americana, observando com estranhamento as instituições trazidas pelos colonizadores. Exemplo do cotidiano: é como o “avô sábio” da família, que observa as novidades trazidas pelos mais jovens com uma mistura de curiosidade e desconfiança, sem deixar de ter sua própria visão de mundo.
Viracocha – Divindade central da cosmovisão andina pré-colombina, associada à criação e à ordem do mundo, presente nas crônicas e cosmologias que Kusch analisa para entender a relação entre ordem, caos e sagrado. Exemplo do cotidiano: pode ser comparado ao papel que figuras criadoras ocupam em diferentes tradições religiosas ao redor do mundo, como ponto de referência para explicar de onde vem a ordem das coisas.
Fagocitação – Termo emprestado da biologia (processo pelo qual uma célula envolve e absorve outra) usado por Kusch para descrever como, na América, o modo de vida importado da Europa (“ser”) não substituiu o modo de vida indígena e popular (“estar”), mas foi, ao longo do tempo, absorvido e transformado por ele. Exemplo do cotidiano: é como quando uma receita europeia chega à América e, com o tempo, vai sendo modificada com ingredientes e técnicas locais até se tornar algo completamente novo, nem totalmente europeu, nem totalmente indígena.
Sucedâneo – Palavra usada para descrever algo que substitui outra coisa sem realmente equivalê-la – um “substituto incompleto”. Kusch usa o termo para descrever como objetos de consumo substituem desejos e necessidades emocionais reais. Exemplo do cotidiano: comprar uma roupa nova para tentar se sentir melhor depois de um dia difícil é usar um objeto como sucedâneo de conforto emocional real.
Cosmovisão – Forma global como uma cultura entende o mundo, a vida, o tempo, o sagrado e a relação entre os seres humanos e a natureza. Exemplo do cotidiano: a diferença entre achar que “tudo na vida depende apenas do esforço individual” e achar que “a vida é um ciclo que inclui sorte, comunidade e forças maiores que a pessoa” são duas cosmovisões diferentes em ação.
Indigenismo – Movimento de pensamento e ação política e cultural que busca valorizar, defender e dar protagonismo aos povos indígenas e às suas formas de conhecimento, em vez de tratá-los apenas como “objeto de estudo” do passado. Exemplo do cotidiano: campanhas de demarcação de terras indígenas ou a inclusão de línguas originárias no currículo escolar são expressões atuais do indigenismo.
Altiplano – Região de planalto em grande altitude, especialmente na Bolívia e no Peru, onde vivem importantes comunidades indígenas andinas e onde Kusch realizou boa parte de sua pesquisa de campo. Exemplo do cotidiano: é o tipo de paisagem – vasta, fria, a grande altitude – que aparece em fotos de cidades como La Paz ou de regiões próximas ao lago Titicaca.
Medo original – Conceito-chave do livro: o medo básico e compartilhado por toda a humanidade diante de um mundo imprevisível, que pode tanto sustentar a vida quanto ameaçá-la. Segundo Kusch, é a partir desse medo comum que culturas diferentes constroem respostas diferentes – “ser” (controlar e construir) ou “estar” (integrar e conviver). Exemplo do cotidiano: a ansiedade difusa que muita gente sente diante do futuro – emprego, saúde, dinheiro – sem conseguir apontar uma causa única e concreta é uma versão moderna desse “medo original”.




