Jean-Paul Sartre – Biografia Completa
Jean-Paul Sartre – Biografia Completa
Origens, Família e Infância
Jean-Paul Charles Aymard Sartre nasceu em 21 de junho de 1905, em Paris, no 16º arrondissement, em uma família de classe média alta com raízes culturais profundas e marcadas por tensões religiosas e intelectuais. Seu pai, Jean-Baptiste Sartre, era oficial da Marinha francesa, homem de formação positivista e saúde frágil. Sua mãe, Anne-Marie Schweitzer, era prima de Albert Schweitzer, o teólogo, filósofo e médico que viria a ganhar o Prêmio Nobel da Paz em 1952. Essa conexão familiar com Schweitzer não era trivial: ela situava Sartre num ambiente intelectual onde questões de ética, transcendência e sentido da existência já circulavam antes mesmo de ele saber ler.
Jean-Baptiste morreu de febre entérica em 1906, quando Sartre tinha apenas quinze meses. Essa morte precoce do pai teve consequências psicológicas que o próprio Sartre analisaria décadas mais tarde em sua autobiografia Les Mots, de 1963, com uma lucidez clínica e ao mesmo tempo irônica raramente vista num texto de memórias. Sartre escreveu que a morte do pai foi, paradoxalmente, um presente: ele cresceu sem a figura paterna como instância de autoridade, sem o peso de um “superego” encarnado, sem o modelo masculino que ele devesse repetir ou superar. “Não há bom pai, é a regra”, ele escreveria. A ausência do pai o deixou livre, mas também sem ancoragem.
Anne-Marie voltou com o filho pequeno para a casa dos pais, em Meudon, e depois em Paris. O avô materno, Charles Schweitzer, professor de alemão, erudito, patriarca autoritário mas também profundamente afetivo, tornou-se a figura dominante da infância de Sartre. Era um homem que amava os livros com uma intensidade quase religiosa, e foi ele quem iniciou Sartre no universo da leitura. A biblioteca do avô era o território sagrado da infância de Sartre, e ele aprendeu a ler de forma extraordinariamente precoce, mergulhando em clássicos franceses, alemães e nas histórias em quadrinhos da época.
Sartre era uma criança fisicamente peculiar. Desde pequeno desenvolveu um estrabismo severo no olho direito, resultado de uma infecção ocular sofrida na infância. Esse defeito físico visível o marcou profundamente e será um tema recorrente em sua reflexão posterior sobre o “olhar do outro” — a experiência de ser visto, julgado, objetificado pelo outro. Sartre sabia desde cedo o que era ser observado como um objeto estranho. Sua aparência física nunca foi convencional: baixo, com o olho divergente, ele compensava com uma inteligência verbal devastadora e uma sociabilidade construída sobre o charme intelectual.
Em 1917, Anne-Marie casou-se novamente, com Joseph Mancy, engenheiro naval, homem prático e sem grandes afinidades intelectuais. Sartre nunca aceitou bem o padrasto. A família se mudou para La Rochelle, onde Sartre frequentou o liceu local e viveu anos que ele próprio descreveu como os mais infelizes de sua vida — marcados pelo bulling, pelo isolamento e pela distância de Paris, que para ele já era o centro do mundo intelectual.
Formação Intelectual: La Rochelle, Louis-le-Grand e a École Normale Supérieure
Sartre retornou a Paris para estudar no Lycée Henri-IV e depois no Lycée Louis-le-Grand, as duas instituições de preparação para as grandes écoles mais prestigiosas da França. Nesses ambientes de competição intelectual feroz, Sartre destacou-se tanto por seu brilhantismo quanto por uma certa arrogância juvenil. Foi no Louis-le-Grand que conheceu Paul Nizan, que se tornaria seu amigo mais íntimo da juventude, escritor marxista que morreria na Segunda Guerra Mundial. A amizade com Nizan era intensa e complementar: Nizan era politicamente mais engajado desde cedo, e essa tensão entre o intelectual puro e o intelectual militante seria uma das grandes questões que perseguiriam Sartre por toda a vida.
Em 1924, Sartre ingressou na École Normale Supérieure, a mais prestigiosa instituição de formação intelectual da França, que formara Bergson, Durkheim, Aron e tantos outros. Ali ele encontraria o ambiente que definitivamente moldaria seu pensamento. A ENS da época era um mundo de debates acesos, de leituras coletivas, de provocações filosóficas e de uma certa mistura entre rigor acadêmico e boêmia intelectual. Sartre era um estudante de presença marcante, já com ideias próprias sobre a filosofia, sobre a literatura e sobre a relação entre as duas.
Foi na ENS que Sartre encontrou, em 1929, Simone de Beauvoir, que se tornaria a relação mais importante de sua vida — intelectual, afetiva e politicamente. Beauvoir era estudante de filosofia na Sorbonne, mas frequentava os mesmos círculos. A história de seu encontro é bem documentada: Sartre a abordou para estudar juntos para a agrégation, o exame mais difícil e prestigioso do sistema acadêmico francês, e desde o início tratou-a como uma intelectual de igual para igual, o que era raro para um homem de sua geração tratar uma mulher. Beauvoir obteve o segundo lugar na agrégation daquele ano; Sartre, que havia reprovado na tentativa anterior (em 1928), obteve o primeiro. O júri, segundo relatos, considerou que Sartre apresentava o pensamento mais original, mas que Beauvoir era, naquele momento, a filósofa mais acabada dos dois.
O Pacto com Beauvoir e a Vida Não-Convencional
O relacionamento entre Sartre e Beauvoir é um dos mais comentados e controversos da história intelectual do século XX. Eles estabeleceram um pacto explícito: uma relação “essencial” entre eles, baseada em transparência total e comprometimento intelectual mútuo, mas aberta para relações “contingentes” com outras pessoas. Não viveriam juntos, não se casariam, não teriam filhos. Cada um seria livre para ter outros amantes, mas se contariam tudo.
Na prática, esse pacto foi muito mais complexo e doloroso do que qualquer descrição teórica. Sartre teve relações com inúmeras mulheres ao longo da vida — algumas das quais se tornaram figuras importantes em suas obras ou em sua vida pessoal, como Olga Kosakiewicz (que inspirou personagens em suas obras teatrais e ficcionais), Wanda Kosakiewicz (irmã de Olga), Michelle Vian, Arlette Elkaïm (que ele adotou legalmente em 1965 como filha) e outras. Beauvoir também teve relações com homens e mulheres, notavelmente com Nelson Algren, escritor americano, e com Claude Lanzmann. Mas a assimetria do pacto foi denunciada por muitos: Sartre tendia a omitir detalhes às mulheres com quem se relacionava, enquanto exigia de Beauvoir uma transparência que ela praticava mais rigorosamente. A correspondência entre os dois, publicada após a morte de ambos, revelou dimensões mais sombrias dessa configuração — manipulações, ciúmes velados, e um poder nem sempre equilibrado.
Do ponto de vista intelectual, porém, a parceria entre Sartre e Beauvoir foi extraordinariamente frutífera. Eles liam os textos um do outro antes de publicar, debatiam durante anos os conceitos que cada um desenvolveria em seus livros, influenciavam-se mutuamente de formas que nem sempre foram devidamente reconhecidas. Sartre reconheceu que Beauvoir foi a única pessoa que o desafiou intelectualmente de verdade ao longo da vida.
Berlim, Husserl e a Fenomenologia
Em 1933, Sartre foi estudar em Berlim, no Institut Français, com uma bolsa que lhe permitiu mergulhar na fenomenologia alemã, especialmente no pensamento de Edmund Husserl. Esse período alemão foi decisivo. Sartre chegou a Berlim como um jovem filósofo talentoso mas ainda sem um projeto filosófico coerente. Saiu de lá com a convicção de que a fenomenologia era o método que ele precisava para construir uma nova ontologia.
Husserl havia desenvolvido a fenomenologia como uma filosofia da consciência baseada na ideia de intencionalidade: toda consciência é sempre consciência de algo, ela é sempre dirigida para um objeto. A consciência não é uma coisa, não tem conteúdos internos como uma caixa tem objetos; ela é puro movimento em direção ao mundo. Para Sartre, isso era revolucionário porque dissolvia a velha dicotomia entre sujeito e mundo, entre interior e exterior. A consciência não está “dentro” de nós — ela é a abertura para o mundo.
Sartre foi também profundamente afetado por Heidegger, cujo Ser e Tempo, publicado em 1927, estava revolucionando a filosofia europeia. A análise heideggeriana do Dasein, do ser-no-mundo, da temporalidade e da angústia como reveladora da condição existencial forneceu a Sartre elementos que ele reelaboraria profundamente em seu próprio sistema, embora sempre mantendo diferenças fundamentais com Heidegger — sobretudo no que diz respeito à primazia da consciência e à questão da liberdade.
Sartre, ao contrário de Heidegger, não estava disposto a dissolver o sujeito no anonimato do “a gente” (das Man). Para ele, a subjetividade, a consciência individual, a responsabilidade pessoal eram irredutíveis. Essa diferença tem raízes também políticas: Heidegger aproximou-se do nazismo em 1933, justamente quando Sartre estava em Berlim observando a ascensão de Hitler. Sartre compreendeu, desde o início, que uma filosofia que dissolve o sujeito individual numa totalidade anônima — seja ela o Ser, a Nação ou a Classe — era filosoficamente e politicamente perigosa.
O Professor de Le Havre e os Primeiros Escritos
Após retornar da Alemanha, Sartre trabalhou como professor de filosofia no Lycée du Havre entre 1931 e 1936, com interrupções. Era um professor extraordinário, segundo todos os relatos de ex-alunos: destruía os manuais, falava de cinema, de jazz, de literatura americana, de Hegel e de Husserl com a mesma intensidade. Recusava-se a tratar a filosofia como uma disciplina acadêmica morta.
Nesse período ele escreveu seus primeiros trabalhos filosóficos importantes: A Transcendência do Ego (1936), onde argumenta contra a ideia husserliana de um ego transcendental, defendendo que o “eu” não é uma estrutura da consciência mas um objeto que a consciência constitui no mundo; Esboço de uma Teoria das Emoções (1939); e A Imaginação (1936) e O Imaginário (1940), onde desenvolve uma fenomenologia da imaginação que distingue radicalmente o ato de imaginar (que põe seu objeto como ausente ou inexistente) da percepção (que põe seu objeto como presente).
Mas foi A Náusea, publicada em 1938, que revelou Sartre para o grande público. Originalmente intitulado Melancholia, o romance foi reescrito diversas vezes antes de ser aceito pela Gallimard após a intervenção de Jean Paulhan. A Náusea é o diário fictício de Antoine Roquentin, um historiador solitário em Bouville (uma Havre fictícia), que começa a experimentar uma sensação perturbadora diante da existência bruta das coisas — a contingência absurda, esmagadora, do ser. A famosa cena da raiz de castanheira no jardim público, onde Roquentin contempla a raiz e é tomado pela náusea diante do fato puro de que ela existe, que nada explica ou justifica sua existência, que o ser é gratuito, excessivo, imerecido — essa cena é uma das mais densas filosoficamente na história do romance moderno. A Náusea é simultaneamente um romance e uma meditação fenomenológico-ontológica sobre a contingência da existência.
A Guerra, o Cativeiro e O Ser e o Nada
Em setembro de 1939, Sartre foi mobilizado e serviu como meteorologista no exército francês — uma função técnica que lhe deixava tempo para ler e escrever. Em junho de 1940, durante a debacle militar francesa, foi capturado pelos alemães e levado como prisioneiro de guerra para um stalag na Alemanha (Stalag XII D, em Trier). Permaneceu preso por cerca de nove meses.
O período no cativeiro foi, paradoxalmente, um dos mais intensos intelectualmente de sua vida. Sartre escreveu peças teatrais que eram encenadas pelos próprios prisioneiros, leu vorazmente, debateu com padres católicos e companheiros de cativeiro sobre questões de liberdade, fé e condição humana. Foi ali que começou a conceber de forma mais sistemática o projeto que se tornaria O Ser e o Nada. Em março de 1941, obteve a liberdade mediante um certificado médico falso que atestava uma visão muito deficiente — o que tecnicamente não era mentira, dado seu estrabismo.
De volta a Paris ocupada, Sartre ensinou filosofia no Lycée Condorcet. Sua atitude durante a Ocupação seria depois criticada: diferentemente de Camus ou de membros mais ativos da Resistência, Sartre não foi um resistente ativo nos anos de 1941 e 1942, embora participasse de grupos de discussão intelectual. Ele mesmo admitiria depois que sua resistência foi primariamente intelectual e literária, não política ou armada.
Em 1943 publicou O Ser e o Nada, sua obra filosófica magna, com mais de 700 páginas densas. O subtítulo é Ensaio de Ontologia Fenomenológica. É uma das obras mais ambiciosas da filosofia do século XX: uma tentativa de construir uma ontologia completa a partir dos fundamentos da fenomenologia husserliana e da analítica existencial heideggeriana, mas radicalmente reelaborada.
A estrutura central da obra é a distinção entre dois modos de ser: o ser-em-si (en-soi), que é o ser das coisas, compacto, idêntico a si mesmo, sem distância interior, sem negação, sem possibilidade; e o ser-para-si (pour-soi), que é o ser da consciência, que existe como pura negatividade, como distância de si mesmo, como nada que se introduz no ser. A consciência, para Sartre, não é uma coisa — ela é o nada que habita o ser. Ela existe como fuga constante de si mesma, como projeto, como temporalidade.
A liberdade, em O Ser e o Nada, é radical e aterrorizante: o ser-para-si é liberdade. Não tem natureza, não tem essência dada, não tem desculpas. O famoso conceito de má-fé (mauvaise foi) descreve a tentativa — sempre fracassada — do ser-para-si de se enganar sobre sua própria liberdade, de se comportar como se fosse uma coisa, de agir como se as escolhas fossem determinadas por forças externas (pela natureza, por Deus, pela sociedade, pelo temperamento). A má-fé não é uma mentira para o outro — é uma estrutura da consciência que mente para si mesma.
O Ser e o Nada trata também da relação com o outro, em páginas que se tornaram canônicas. A experiência do olhar (regard) é a experiência originária da relação intersubjetiva: quando o outro me olha, ele me transforma em objeto, cristaliza minha liberdade, me dá uma “natureza” que nunca posso inteiramente recuperar ou negar. A relação com o outro é fundamentalmente conflituosa: o outro ameaça minha liberdade ao objetificá-la, e eu ameaço a liberdade do outro. Daí a famosa frase de Huis Clos — “o inferno são os outros” — que resume, de forma dramática, essa análise ontológica.
O Teatro e a Literatura como Filosofia
Sartre nunca separou filosofia de literatura. Para ele, a literatura era um modo de apresentar situações existenciais concretas que a filosofia abstrata não podia abordar diretamente. O teatro, em particular, era o espaço onde situações-limite revelavam a estrutura da liberdade humana sob pressão.
As Moscas (Les Mouches, 1943) foi encenada em Paris durante a Ocupação alemã. A peça reescreve o mito de Orestes e Electra mas com uma mensagem filosófica e política clara: Orestes recusa-se a carregar a culpa que o regime de Egisto impõe à cidade de Argos como instrumento de controle. Ao matar Egisto e Clitemnestra, Orestes não se arrepende — ele age livremente e assume a responsabilidade de sua ação sem invocar a punição dos deuses nem a ordem estabelecida. Os censores alemães, curiosamente, deixaram a peça passar sem compreender plenamente sua mensagem de resistência.
Huis Clos (Entre Quatro Paredes, 1944) é talvez a peça mais perfeita de Sartre dramaturgicamente. Três personagens — Garcin, Inès e Estelle — descobrem que estão mortos e condenados a permanecer juntos num quarto sem janelas, sem espelhos, sem sono. O tormento não vem de nenhum torturador externo: vem do olhar uns dos outros. Cada um precisa do olhar do outro para se definir, mas o olhar do outro sempre distorce, sempre nega. A eternidade como fixação do outro — a impossibilidade de mudar, de agir, de se redefinir — essa é a essência do inferno sartreano.
A trilogia romanesca Os Caminhos da Liberdade (Les Chemins de la Liberté, 1945-1949) — composta por A Idade da Razão, A Reprise e A Morte na Alma — é sua obra ficcional mais ambiciosa. Acompanha um grupo de personagens durante os anos de 1938 e 1940, e explora as escolhas que cada um faz (ou recusa fazer) diante da guerra, da ocupação, do engajamento político e das relações pessoais. O quarto volume da tetralogia planejada, A Última Oportunidade, nunca foi terminado.
O Existencialismo é um Humanismo e a Celebridade Pós-Guerra
Em outubro de 1945, Sartre fez uma conferência no Clube Maintenant, em Paris, intitulada L’Existentialisme est un Humanisme (O Existencialismo é um Humanismo). A sala estava superlotada, pessoas desmaiaram do calor e da pressão. O texto foi publicado no ano seguinte e tornou-se o documento mais lido e discutido do existencialismo — paradoxalmente, uma das obras com que o próprio Sartre ficou mais insatisfeito, considerando-a uma simplificação popular de ideias que exigiam maior rigor.
A conferência estabeleceu as três teses centrais que definem o existencialismo sartreano para o grande público:
Primeiro, a existência precede a essência. Ao contrário de uma cadeira, que tem uma essência (o projeto do artesão) antes de existir, o ser humano existe primeiro e define sua essência depois, através de suas escolhas. Não há natureza humana dada por Deus ou pela razão. Cada ser humano é o que faz de si mesmo.
Segundo, o homem está condenado a ser livre. Não escolhemos nascer, não escolhemos nossa situação inicial, mas somos absolutamente responsáveis pelo que fazemos com essa situação. Não há desculpa, não há determinismo, não há circunstâncias que nos absolvam.
Terceiro, ao escolher, escolhemos para toda a humanidade. Cada escolha individual é uma afirmação implícita do que consideramos que todos os homens deveriam ser. A responsabilidade, portanto, é universal.
Sartre tornou-se, quase da noite para o dia, a figura intelectual mais famosa da Europa. Saint-Germain-des-Prés, o bairro intelectual de Paris, tornou-se sinônimo de existencialismo. O Café de Flore e o Café Les Deux Magots, onde Sartre e Beauvoir trabalhavam e se reuniam, tornaram-se locais de peregrinação. A revista Les Temps Modernes, que Sartre fundou em 1945 com Beauvoir, Merleau-Ponty, Raymond Aron e outros, tornou-se o fórum central do debate intelectual francês.
A celebridade de Sartre era diferente de qualquer coisa que a cultura intelectual europeia havia visto. Ele era reconhecido nas ruas, era assediado por jornalistas, suas declarações políticas movimentavam debates públicos. Sartre era, ao mesmo tempo, um filósofo técnico de primeira grandeza, um romancista, um dramaturgo e um intelectual público de enorme influência política. Essa combinação era rara, e ele a explorou conscientemente.
O Marxismo, o PCF e a Questão do Engajamento
A relação de Sartre com o marxismo e com o Partido Comunista Francês (PCF) é uma das mais complexas e controversas de sua trajetória. Sartre nunca foi membro do PCF. Sua filosofia da liberdade individual era profundamente incompatível com o determinismo histórico marxista e com a disciplina de partido. Mas ele foi, durante décadas, um “companheiro de viagem” que defendia posições próximas ao campo comunista e que recusava, consistentemente, criticar publicamente a União Soviética — até o ponto em que essa recusa se tornou moralmente insustentável.
Em 1952, quando o general Ridgway foi nomeado comandante da NATO e houve protestos comunistas em Paris que resultaram em prisões, Sartre escreveu uma série de artigos apaixonados intitulada Os Comunistas e a Paz, onde defendia que a classe trabalhadora francesa só tinha no PCF uma representação efetiva e que criticar o PCF era objetivamente servir à burguesia. A análise era sofisticada, mas o efeito prático era uma legitimação problemática de um partido que já havia mostrado seu alinhamento com o stalinismo.
Raymond Aron, seu colega de ENS e amigo de juventude, foi o crítico mais rigoroso e consistente de Sartre nesse período. Em O Ópio dos Intelectuais (1955), Aron atacou a tendência dos intelectuais de esquerda franceses — com Sartre como figura principal — de aplicar padrões duplos ao julgar o comunismo soviético e o capitalismo ocidental, de romantizar a violência revolucionária e de sacrificar a verdade em nome de uma solidariedade política imaginária. A polêmica entre Sartre e Aron foi uma das mais importantes da vida intelectual francesa e tem ressonâncias que chegam até hoje.
Em 1956, com a invasão soviética da Hungria e o relatório de Kruschev sobre os crimes de Stalin, Sartre finalmente rompeu publicamente com o PCF e com a política soviética, embora de forma torturada e com inúmeras qualificações. Seu texto O Fantasma de Stalin (1956) é uma análise profunda das causas estruturais do stalinismo, que Sartre localiza não apenas na perversão pessoal de Stalin mas nas condições objetivas da construção do socialismo em um país isolado, subdesenvolvido e cercado de inimigos. A análise é intelectualmente honesta e filosoficamente coerente, mas chegava tarde demais para muitas vítimas.
A Crítica da Razão Dialética: O Segundo Grande Sistema
Em 1960, Sartre publicou a Crítica da Razão Dialética, seu segundo grande sistema filosófico e uma obra de ambição igualável apenas a O Ser e o Nada, mas de dificuldade e extensão ainda maiores. Precedida pela Questão do Método (publicada separadamente em 1957), a Crítica representa a tentativa de Sartre de integrar o existencialismo com o marxismo — não como uma síntese eclética, mas como uma fundamentação da dialética marxista na ontologia da práxis individual.
O problema central que Sartre se coloca é: como é possível que a história exista, se a história é feita por indivíduos livres? Como a ação individual se transforma em estrutura social, em instituição, em classe, em coletividade? A resposta de Sartre passa pelos conceitos de práxis (a ação transformadora do ser humano sobre o mundo), serialidade (a coexistência atomizada e alienada dos indivíduos no coletivo inerte — o exemplo famoso é a fila de ônibus), e grupo-em-fusão (o momento em que indivíduos atomizados se transformam em um coletivo ativo, como na tomada da Bastilha).
A Crítica introduz também o conceito de pratico-inerte, que é um dos mais originais e importantes da obra: trata-se do domínio da matéria trabalhada, do produto da práxis humana que se tornou exterior, objetivado, e que agora reage sobre os seres humanos como uma força alienigena. O capital marxiano, as instituições, os hábitos sedimentados — tudo isso é pratico-inerte: produto da liberdade humana que voltou para oprimi-la.
O segundo volume da Crítica, publicado postumamente em 1985, trata da possibilidade (e da dificuldade) de construir uma inteligibilidade da história — uma “razão dialética” que possa compreender a totalização histórica sem recair nem no determinismo marxista vulgar nem no irracionalismo.
A Crítica da Razão Dialética é uma obra menos lida do que merece ser, em parte por sua dificuldade técnica e em parte porque a época de sua publicação era já o começo do fim da hegemonia do existencialismo na filosofia francesa — o estruturalismo, com Lévi-Strauss, Lacan, Foucault e Althusser, estava redefinindo os termos do debate intelectual.
O Conflito com o Estruturalismo
A relação de Sartre com o estruturalismo foi de conflito aberto. Lévi-Strauss, em O Pensamento Selvagem (1962), criticou diretamente Sartre, argumentando que a dialética sartreana era ainda prisioneira de um etnocentrismo europeu que colocava a história e a consciência individuais como categorias universais, quando na verdade eram categorias particulares de uma civilização específica.
Foucault, cujo As Palavras e as Coisas de 1966 declarava o “fim do homem” como categoria central do pensamento, via em Sartre o último grande representante de uma filosofia do sujeito que o estruturalismo estava desconstruindo. A famosa frase de Foucault — de que o homem “se apagaria, como uma face de areia na orla do mar” — era dirigida contra exatamente o tipo de humanismo que Sartre representava.
Sartre respondeu a essas críticas de forma consistente: o estruturalismo dissolvia o sujeito, a liberdade, a responsabilidade, e tornava impossível pensar a transformação histórica. Uma análise que mostra como os sistemas simbólicos constrangem os sujeitos sem dizer nada sobre como os sujeitos podem transformar esses sistemas é, para Sartre, politicamente conformista. Sem sujeito, sem liberdade, sem práxis, não há possibilidade de revolução — apenas de resignação elegante diante das estruturas.
Essa polêmica continua viva na filosofia contemporânea.
A Recusa do Nobel
Em outubro de 1964, o comitê do Prêmio Nobel anunciou que Jean-Paul Sartre havia sido escolhido para receber o Prêmio Nobel de Literatura. Sartre recusou — o primeiro e, até hoje, único autor a recusar voluntariamente o Nobel de Literatura.
Sua recusa foi acompanhada de uma declaração pública detalhada. Sartre argumentou que um escritor não deve se deixar transformar em uma instituição, que aceitar um prêmio de tal magnitude implicaria uma objetificação de sua obra e de sua pessoa que contradiz a natureza do comprometimento intelectual. Mencionou também razões políticas: não queria ser associado a uma instituição ocidental durante um período de luta de libertação colonial.
A recusa foi recebida com admiração, escândalo e incredulidade. O prêmio em dinheiro, que Sartre pediu para repassar a causas políticas (e que não recebeu, pois a regra exige aceitação), teria sido de enorme ajuda para ele — Sartre vivia modestamente, dava muito dinheiro para causas políticas e para pessoas em dificuldades. A generosidade financeira de Sartre era conhecida e às vezes imprudente: ele nunca foi capaz de dizer não a pedidos de ajuda financeira e frequentemente ficava sem dinheiro.
O Engajamento Anticolonialista: Argélia, Fanon e o Terceiro Mundo
Se há um período de engajamento político em que Sartre foi inquestionavelmente coerente com seus princípios, foi em relação ao colonialismo e ao anti-imperialismo. Sua posição na Guerra da Argélia (1954-1962) foi de apoio explícito à FLN (Frente de Libertação Nacional) argelina, posição que o pôs em risco físico real — sua casa em Paris foi alvo de atentados com bomba pelo OAS (organização terrorista dos colonos franceses) em 1961 e 1962.
O prefácio que Sartre escreveu para Os Condenados da Terra (Les Damnés de la Terre, 1961) de Frantz Fanon é um dos textos políticos mais incendiários que já escreveu. Sartre defende ali a violência anticolonial não apenas como um direito dos oprimidos mas como uma necessidade psicológica e política: o colonizado que mata o colono reconquista sua humanidade, desfaz a objetificação que o colonialismo impõe. A tese é problemática e foi criticada por ser uma romantização da violência, mas compreende-se no contexto: Sartre estava escrevendo num momento em que a “violência” denunciada na esfera pública era quase sempre a da resistência anticolonial, nunca a da repressão colonial.
Sartre também assinou, em 1960, o Manifesto dos 121 (Declaração sobre o Direito à Insubmissão na Guerra da Argélia), que defendia o direito dos soldados franceses de se recusar a combater na Argélia. O governo De Gaulle considerou processá-lo mas recuou, e a famosa resposta atribuída a De Gaulle — “Não se prende Voltaire” — é o reconhecimento implícito de que Sartre havia se tornado uma figura intocável na vida pública francesa.
O Maoísmo, Maio de 68 e a Última Fase Política
O período de maio de 1968, com as revoltas estudantis que sacudiram a França, foi recebido por Sartre com entusiasmo genuíno. Ele discursou em anfiteatros lotados da Sorbonne, apoiou os estudantes publicamente, debateu com líderes do movimento como Daniel Cohn-Bendit. Naquele momento, Sartre tinha 63 anos e era um dos poucos intelectuais de sua geração que apoiou sem reservas a revolta.
Nos anos seguintes, Sartre aproximou-se de grupos maoístas franceses, especialmente da Gauche Prolétarienne (GP), uma organização que combinava marxismo-leninismo maoísta com voluntarismo radical. Aceitou ser o diretor formal do jornal La Cause du Peuple quando o governo tentou suprimi-lo, indo pessoalmente às ruas distribuí-lo para tornar mais difícil sua prisão — de novo, a lógica “não se prende Voltaire” protegia-o.
Essa fase maoísta de Sartre é vista por muitos de seus comentadores como o momento em que o engajamento se tornou menos rigoroso filosoficamente e mais emocional e solidário — uma recusa de abandonar os jovens militantes, mais do que uma convicção profunda na teoria maoísta.
Les Mots: A Autobiografia da Infância
Em 1963, publicou Les Mots (As Palavras), a autobiografia de sua infância — a única autobiografia que completou. É uma obra-prima literária que serve simultaneamente como memória, análise psicológica e exercício de des-ilusão radical. Sartre desmonta, com ironia cirúrgica, os mitos que construiu sobre si mesmo na infância: a criança prodígio, o herói intelectual, o salvador que encontraria na escrita sua missão no mundo.
A tese central de Les Mots é a de uma conversão negativa: Sartre reconhece que passou sua infância e juventude acreditando que a literatura era uma redenção, que o ato de escrever tinha uma importância metafísica, que ele havia sido “eleito” para uma missão. E conclui que essa crença era uma má-fé sofisticada — uma forma de fugir da contingência absurda da existência através de uma ilusão de necessidade e missão. A escrita não salva ninguém. Não há missão. Tudo continua a ser contingente, gratuito, sem fundamento.
É um texto de uma honestidade devastadora, e é também a obra que mais diretamente explica como e por que Sartre depois se voltou para o engajamento político: se a literatura não salva, só a ação política pode ter algum sentido — não um sentido absoluto, mas um sentido prático, humano, solidário.
A Cegueira, os Últimos Anos e a Morte
A partir de meados da década de 1970, a saúde de Sartre deteriorou-se gravemente. Sempre bebera muito, tomara anfetaminas para escrever durante anos, fumara excessivamente. Em 1973, ficou praticamente cego, podendo perceber apenas sombras e formas imprecisas. Para um homem que havia definido sua identidade inteira em torno da leitura e da escrita, a cegueira era uma catástrofe existencial de primeira magnitude.
Sartre adaptou-se com dificuldade mas também com uma determinação impressionante. Passou a ditar suas ideias, a trabalhar através de longas conversas gravadas. Sua relação com o jovem filósofo Benny Lévy (antes conhecido como Pierre Victor, dirigente da GP) tornou-se central nos últimos anos. As longas conversas entre eles foram publicadas em 1980 como O Poder e a Liberdade, e causaram escândalo nos meios sartreanos: Sartre parecia rever posições fundamentais de seu pensamento, aproximando-se de conceitos de ética e de transcendência que soavam quase hegelianos ou mesmo religiosos — algo radicalmente diferente do ateísmo militante de toda sua obra anterior. Beauvoir e outros próximos de Sartre reagiram com horror, acusando Lévy de ter manipulado um homem debilitado. A questão permanece controversa.
Em 15 de abril de 1980, Jean-Paul Sartre morreu em Paris, de edema pulmonar, aos 74 anos. Seu funeral, no cemitério de Montparnasse, foi um evento histórico: entre 50.000 e 80.000 pessoas acompanharam o cortejo pelas ruas de Paris — uma das maiores manifestações espontâneas de luto pela morte de um intelectual que a história registra. Simone de Beauvoir estava ao lado do caixão.
Seis anos depois, em 1986, Beauvoir também morreria e seria enterrada ao lado de Sartre no mesmo túmulo no Montparnasse — como haviam vivido, separados e inseparáveis ao mesmo tempo.
Síntese do Pensamento e Legado
O pensamento de Sartre pode ser compreendido como uma tentativa radical e coerente de pensar a liberdade humana sem ilusões. Sem Deus, sem natureza humana dada, sem determinismo histórico, sem estruturas que absorvam ou absolvam o sujeito — o ser humano está sozinho com sua liberdade, responsável sem desculpas, condenado a se inventar em cada escolha.
Essa posição tem uma dignidade filosófica indiscutível, mas também seus limites: a crítica mais penetrante que sofreu é a de que sua ontologia da liberdade radical é, no fundo, uma ontologia da situação burguesa europeia masculina — onde a “liberdade” é uma possibilidade real porque as condições materiais e sociais permitem escolher. Para um trabalhador colonial oprimido, para uma mulher no século XX, a ideia de que “somos absolutamente livres” e que “a situação não determina nada” soa menos como filosofia libertadora e mais como ideologia de classe.
Sartre reconheceu parcialmente essa crítica e tentou respondê-la na Crítica da Razão Dialética, introduzindo a noção de campo prático, de serialidade e de escassez como condições que constrangem a práxis. Mas a tensão entre a liberdade ontológica radical de O Ser e o Nada e o condicionamento histórico e material da Crítica nunca foi inteiramente resolvida — e talvez seja irresolúvel.
Seu legado é múltiplo. Como filósofo, reformulou os termos em que pensamos a subjetividade, a liberdade, a responsabilidade, a intersubjetividade e a história. Como escritor, produziu obras literárias de primeira grandeza que permanecem lidas e encenadas. Como intelectual público, definiu o modelo do “intelectual engajado” — o pensador que usa sua autoridade intelectual para intervir nos debates políticos mais urgentes de seu tempo — modelo que influenciou gerações de intelectuais em todo o mundo.
Seus erros políticos foram reais e graves, e exigem ser nomeados sem eufemismos: subestimou os crimes do stalinismo durante demasiado tempo, romantizou a violência revolucionária em determinados contextos, subordinou o julgamento moral à solidariedade política em momentos em que o oposto era necessário. Mas esses erros não apagam a grandeza intelectual nem a coragem da posição anticolonialista, nem a honestidade radical de um pensamento que nunca parou de se questionar a si mesmo.
Sartre é, junto com Heidegger e Wittgenstein, um dos três filósofos que mais profundamente marcaram o século XX. E é, de longe, o mais literariamente dotado dos três — o único cujas ideias filosóficas encontraram expressão igualmente poderosa no romance, no teatro e no ensaio.
Jean-Paul Sartre – Obras Completas
FILOSOFIA
A Transcendência do Ego (La Transcendance de l’Ego, 1936)
O primeiro golpe filosófico de Sartre. Ele entra em disputa direta com Husserl e argumenta que o “eu” não é uma estrutura interna da consciência — não é o dono da casa, mas um inquilino que a consciência cria no mundo como se cria qualquer outro objeto. A consciência não tem dono. Ela simplesmente é, nua, sem centro, sem substância. Um texto curto que tem as proporções de uma bomba conceitual.
A Imaginação (L’Imagination, 1936)
Uma história crítica das teorias da imagem desde Descartes até Husserl. Sartre percorre as tentativas filosóficas de explicar o que acontece quando imaginamos algo e mostra, uma por uma, como todas elas cometem o mesmo erro fundamental: confundir a imagem com uma coisa que existe “dentro” da mente. O livro prepara o terreno para a grande obra que viria quatro anos depois.
Esboço de uma Teoria das Emoções (Esquisse d’une théorie des émotions, 1939)
Uma das obras mais negligenciadas e mais iluminadoras de Sartre. Contra a psicologia que trata a emoção como um fenômeno que nos acontece, Sartre defende que a emoção é uma escolha — uma maneira de transformar o mundo magicamente quando as vias normais de ação estão bloqueadas. O homem que chora de raiva está recusando a dificuldade do problema. A tristeza é uma estratégia. Um texto pequeno com consequências enormes para entender a responsabilidade humana.
O Imaginário (L’Imaginaire, 1940)
A obra mais madura sobre a imaginação, e uma das mais belas de Sartre como escritor filosófico. O ato de imaginar, mostra ele, é radicalmente diferente da percepção: imaginar algo é pô-lo como ausente, como inexistente, como além do alcance do real. A consciência imaginante é a consciência que diz não ao mundo tal como ele é. É daqui que Sartre deriva, pela primeira vez de forma sistemática, a liberdade: só um ser capaz de imaginar — de negar o dado — pode ser livre.
O Ser e o Nada (L’Être et le Néant, 1943)
A grande catedral filosófica. Mais de setecentas páginas que tentam fundar uma ontologia completa a partir da experiência vivida da consciência. O ser-em-si e o ser-para-si, a má-fé, o olhar do outro, o corpo, o tempo, a liberdade radical — tudo está aqui, construído com uma densidade que exige e recompensa releituras. Muitos leram apenas os capítulos famosos. Quem lê inteiro encontra uma das arquiteturas filosóficas mais impressionantes da modernidade.
O Existencialismo é um Humanismo (L’Existentialisme est un humanisme, 1946)
A conferência que transformou Sartre num fenômeno de massa e que ele nunca deixou de lamentar ter publicado. Esclareceu o existencialismo para milhões de leitores com uma clareza que simplificava demais. O próprio Sartre a considerava um erro de exposição. Mas é impossível ignorá-la: ela formulou, com a precisão de um slogan e a profundidade de um manifesto, as teses que definiram uma geração.
Questão do Método (Questions de méthode, 1957)
Publicada inicialmente como artigo numa revista polonesa, essa obra é, na opinião de muitos, o texto mais equilibrado e maduro que Sartre escreveu. É uma defesa do marxismo como “filosofia insuperável de nossa época” e, ao mesmo tempo, uma crítica ao marxismo preguiçoso que substitui a análise concreta dos seres humanos reais por categorias abstratas. O existencialismo, propõe Sartre, é o método que o marxismo precisa para não morrer de abstração.
Crítica da Razão Dialética, Volume I (Critique de la raison dialectique, tome I, 1960)
A segunda grande montanha filosófica. Se O Ser e o Nada perguntava como é possível a liberdade individual, a Crítica pergunta como é possível a história coletiva. Da práxis individual ao grupo, do grupo à instituição, da instituição à serialidade alienada — Sartre constrói uma teoria da totalização histórica que é ao mesmo tempo uma investigação sobre por que as revoluções tragem seus filhos. Uma obra que exige paciência e recompensa com uma inteligência rara sobre o funcionamento do mundo social.
Crítica da Razão Dialética, Volume II (Critique de la raison dialectique, tome II, 1985 — póstumo)
O manuscrito inacabado que Sartre não conseguiu concluir antes de perder a visão. Trata da inteligibilidade da história como totalização — a pergunta de se é possível compreender a história como um todo sem recair no determinismo. Publicado postumamente, é um texto fragmentário e por isso mesmo fascinante: vê-se o pensamento de Sartre em movimento, sem a lapidação final.
O Poder e a Liberdade (L’Espoir maintenant, 1980)
As últimas conversas filosóficas de Sartre, realizadas com Benny Lévy nos meses antes de sua morte e publicadas no Le Nouvel Observateur. Um Sartre que revê, questiona, hesita — e que surpreende ao se aproximar de conceitos de fraternidade, de obrigação ética e de uma dimensão quase religiosa da existência que sua obra anterior negava. O texto mais polêmico de seu legado tardio.
ROMANCE
A Náusea (La Nausée, 1938)
O romance em que a filosofia vira carne, vira suor, vira raiz de árvore num jardim público de uma cidade cinzenta. Roquentin não entende o que está acontecendo consigo — até que entende demais. A existência das coisas começa a pesar sobre ele com uma brutalidade que nenhuma palavra consegue nomear adequadamente, e é exatamente esse fracasso da linguagem diante do ser que o romance encena. Um dos romances filosóficos mais rigorosos já escritos, e também um dos mais literariamente belos.
O Muro (Le Mur, 1939)
Cinco contos que mapeiam a fronteira entre a vida e a morte, entre a liberdade e o aprisionamento, entre a lucidez e a ilusão. O conto que dá nome ao livro, ambientado na Guerra Civil Espanhola, é talvez o texto de ficção mais perfeito que Sartre escreveu: um homem condenado à morte passa a noite esperando e descobre que a morte transforma tudo, inclusive a verdade. Os outros contos são igualmente duros — sobre impotência sexual, sobre loucura, sobre vergonha — escritos com uma secura que corta.
A Idade da Razão (L’Âge de raison, 1945 — primeiro volume de Os Caminhos da Liberdade)
Mathieu Delarue, professor de filosofia em Paris, passa dois dias tentando conseguir dinheiro para o aborto de sua namorada enquanto recusa, uma escolha por vez, todos os comprometimentos que o mundo lhe oferece — o casamento, o partido comunista, o amor, a responsabilidade. Sartre nunca foi tão implacável em retratar um intelectual que confunde liberdade com recusa, e que paga por isso com o vazio.
A Reprise (Le Sursis, 1945 — segundo volume de Os Caminhos da Liberdade)
Uma experiência formal ousada: o mesmo período de setembro de 1938 — a crise de Munique, os dias em que o mundo esperou saber se a guerra viria — narrado simultaneamente através de dezenas de personagens em países diferentes. A técnica do corte cinematográfico transforma o romance num mosaico do terror coletivo diante da iminência da guerra. A história como simultaneidade de subjetividades que nunca se tocam.
A Morte na Alma (La Mort dans l’âme, 1949 — terceiro volume de Os Caminhos da Liberdade)
Junho de 1940, a derrota francesa. Mathieu finalmente age — não para salvar nada, mas porque a inação se tornou impossível. Ele atira de um campanário durante quinze minutos, sabendo que vai morrer, apenas para ter tido um momento em que escolheu algo sem cálculo. A segunda parte do romance acompanha Brunet, o comunista, num campo de prisioneiros alemão. A liberdade não redime ninguém, mas a sua ausência condena de forma mais visível.
TEATRO
As Moscas (Les Mouches, 1943)
Argos, a cidade da culpa. Egisto e Clitemnestra governam através do remorso coletivo que impõem ao povo pelo assassinato de Agamêmnon. Orestes chega, mata os tiranos e recusa o arrependimento que Jupiter exige. Encenada em Paris ocupada, passou pelos censores alemães — que não compreenderam que a liberdade que Orestes reivindica contra os deuses é a mesma que os franceses deveriam reivindicar contra os ocupantes. Uma peça de filosofia política vestida de tragédia grega.
Entre Quatro Paredes (Huis Clos, 1944)
Três mortos, um quarto sem janelas, sem espelhos, sem sono. A eternidade como impossibilidade de mudar o que se é. Garcin, Inès e Estelle não se torturam por acidente — eles são a tortura perfeita uns dos outros, porque cada um precisa do olhar do outro para existir e o olhar do outro sempre desfigura. A peça mais tecnicamente perfeita de Sartre e aquela em que a filosofia e o drama se fundem de forma mais completa. “O inferno são os outros” — a frase mais famosa e mais mal-compreendida que já escreveu.
Mortos sem Sepultura (Morts sans sépulture, 1946)
Resistentes capturados, tortura iminente. Sartre confronta diretamente a questão que a Ocupação havia tornado urgente: como se comporta um ser humano diante do sofrimento físico extremo? Pode-se manter a dignidade quando o corpo é destruído? Pode-se escolher quando a dor elimina a distância entre o sujeito e sua carne? Uma das peças mais duras e honestas sobre a violência política.
A Prostituta Respeitosa (La Putain respectueuse, 1946)
Uma prostituta branca no Sul dos Estados Unidos é pressionada pela comunidade a testemunhar falsamente contra um negro inocente acusado de estupro. A peça é uma análise do racismo americano, mas também de algo mais profundo: o mecanismo pelo qual os oprimidos interiorizam os valores dos opressores e acabam colaborando com sua própria subjugação. Escrita num momento em que Sartre havia acabado de visitar os Estados Unidos, traz a urgência do jornalismo e a estrutura da tragédia.
As Mãos Sujas (Les Mains sales, 1948)
A peça mais politicamente debatida de Sartre. Hugo, jovem intelectual burguês que entrou para o partido comunista por ideologia, é encarregado de assassinar Hoederer, um dirigente pragmático que negocia com o inimigo. Hugo o mata — mas por ciúme, não por convicção política. A questão que a peça levanta é irresolúvel: pode-se separar o ato dos motivos? A violência política é legítima quando praticada por razões impuras? Os comunistas acusaram Sartre de anticomunismo; os anticomunistas usaram a peça como propaganda. Nenhum dos dois entendeu o que ela pergunta.
O Diabo e o Bom Deus (Le Diable et le Bon Dieu, 1951)
A peça mais longa e filosófica de Sartre. Goetz, um general mercenário da Alemanha do século XVI, decide provar que pode ser absolutamente mau — e consegue. Depois decide provar que pode ser absolutamente bom — e o resultado é igualmente desastroso, porque o bem absoluto imposto ao mundo real produz sofrimento. A conclusão é que Deus não existe, que não há instância transcendente que valide o bem ou o mal, e que os seres humanos devem agir sem essa garantia. Uma meditação sobre a impossibilidade da santidade e sobre a necessidade do engajamento imperfeito.
Kean (1953)
Adaptação da peça do dramaturgo Alexandre Dumas sobre o ator inglês Edmund Kean. Na versão de Sartre, a questão central é a da autenticidade do ator — e por extensão, de todo ser humano que vive “representando” papéis sociais. Kean não sabe mais quem é quando não está em cena. O palco é sua única realidade. A peça é uma exploração da má-fé e da identidade através de um personagem histórico que Sartre transforma em arquétipo.
Nekrassov (1955)
A única comédia de Sartre, e uma das mais divertidas peças políticas da literatura francesa. Um golpista parisiense que está prestes a ser preso convence um jornal de direita de que é um importante desertor soviético — e o jornal, ansioso por propaganda anticomunista, acredita em tudo. Uma sátira feroz à imprensa de direita francesa e ao anticomunismo histérico da Guerra Fria, escrita com um humor que Sartre raramente deixava aparecer em seus textos.
Os Sequestrados de Altona (Les Séquestrés d’Altona, 1959)
A peça mais politicamente complexa da fase madura. Franz von Gerlach, ex-oficial nazista que cometeu crimes de guerra, trancou-se num quarto há quinze anos, recusando-se a aceitar que a Alemanha sobreviveu à derrota e se recuperou. Ele se defende diante de “caranguejos” imaginários que representam o tribunal da posteridade. Sartre usa o nazismo como espelho para a guerra da Argélia — a questão da tortura, da cumplicidade, da responsabilidade coletiva diante dos crimes cometidos em nome da nação. A peça mais ambiciosa e menos encenada.
ENSAIO LITERÁRIO E CRÍTICA
Situações I (Situations I, 1947)
O primeiro volume de uma série de coletâneas de ensaios que se estenderia por toda a vida de Sartre. Este primeiro volume reúne ensaios literários sobre Mauriac, Dos Passos, Faulkner, Giraudoux e outros. O ensaio sobre Mauriac é particularmente demolidor: Sartre acusa o romancista católico de jogar a Deus, de ter uma visão onisciente de seus personagens que destrói a liberdade deles e, portanto, sua realidade romanesca. Um dos manifestos mais claros de Sartre sobre o que deve ser o romance moderno.
Situações II (Situations II, 1948)
Contém o ensaio Qu’est-ce que la littérature? (O Que é a Literatura?), que é um dos textos mais importantes já escritos sobre o papel do escritor na sociedade. Sartre distingue entre as artes que “falam” (literatura, que usa palavras que têm sentido) e as que não falam (música, pintura). O escritor, porque usa a linguagem que é o instrumento do mundo social, não pode se recusar ao engajamento — toda literatura é tomada de posição, inclusive a que pretende ser neutra.
Situações III (Situations III, 1949)
Ensaios políticos sobre o período do pós-guerra: a questão do engajamento do intelectual, a posição dos escritores diante da Guerra Fria, a crítica à literatura “burguesa” que se pretende acima das lutas do tempo. Sartre começa aqui a forjar o conceito de “intelectual engajado” que definirá seu papel público pelas décadas seguintes.
Situações IV, V, VI, VII, VIII, IX, X (1964, 1964, 1964, 1965, 1972, 1972, 1976)
Os volumes subsequentes de Situações reúnem décadas de ensaios, prefácios, entrevistas e intervenções políticas. São um arquivo vivo do pensamento de Sartre em movimento: prefácios para Fanon, para Genet, para Nizan; análises da política argelina, cubana, vietnamita; textos sobre Tintoretto, Mallarmé, Flaubert; reflexões sobre o papel do intelectual, sobre o marxismo, sobre a violência. Lidos em sequência, são um retrato intelectual único de quarenta anos de comprometimento com o mundo.
O Que é a Literatura? (Qu’est-ce que la littérature?, 1948)
Publicado separadamente do volume de Situações que o continha, por sua importância e circulação independente. A defesa mais sistemática e apaixonada que Sartre fez do engajamento literário. A prosa engaja, porque usa palavras que significam; a poesia, a música e a pintura não engajam da mesma forma. O escritor de prosa que escreve “bem” sobre uma sociedade injusta sem denunciá-la é cúmplice dessa injustiça pela forma mesma de sua escrita. Um texto que ainda hoje provoca debate sobre a autonomia da arte.
O Idiota da Família (L’Idiot de la famille, 3 volumes, 1971-1972; volume 4 inacabado e póstumo, 1988)
A obra mais monumental e menos lida de Sartre — três volumes e mais de três mil páginas sobre Gustave Flaubert, escritor que Sartre havia declarado detestar desde jovem. Uma psicanálise existencial, uma análise sociológica, uma investigação histórica e uma teoria do romance reunidas numa única obra sobre como um ser humano específico, numa família específica, numa classe específica, numa época específica, tornou-se o escritor que foi. O projeto que Sartre nunca conseguiu terminar e que é, talvez, o mais ambicioso da literatura crítica do século XX.
Baudelaire (1947)
Um exercício de psicanálise existencial aplicado ao poeta maldito. Sartre não é gentil com Baudelaire: lê sua vida e sua obra como a trajetória de alguém que escolheu a má-fé, que preferiu ser “visto” pelo outro (e ser condenado) a assumir a responsabilidade de sua própria liberdade. A análise é brilhante e polémica — reduz demais a complexidade de Baudelaire à tese filosófica que quer demonstrar, mas ilumina aspectos da relação entre o artista e a sociedade que outras leituras não alcançam.
Saint Genet: Ator e Mártir (Saint Genet: comédien et martyr, 1952)
O mais longo, o mais generoso e o mais audacioso dos estudos de Sartre sobre um escritor. Jean Genet — ex-ladrão, homossexual, ex-prostituto, escritor extraordinário — tornou-se para Sartre a prova viva de que um ser humano pode inverter completamente a condenação social, transformar o estigma em estética, transformar o crime em literatura. Sartre usa Genet para demonstrar a tese da psicanálise existencial: que se pode compreender uma obra totalmente a partir da situação e da escolha originária de seu autor. O livro é tão longo que Genet declarou que Sartre havia “paralisado” sua escrita por dez anos.
AUTOBIOGRAFIA
As Palavras (Les Mots, 1963)
A única autobiografia que Sartre completou e, por medida de qualquer critério, uma das maiores autobiografias do século XX. Cobre apenas a infância até os doze anos, e nesses anos encontra o material para uma investigação completa sobre como se fabrica um escritor — e sobre as mentiras que esse processo exige. Sartre desmonta sua própria mitologia com um prazer que beira o sádico. A prosa é a mais trabalhada, a mais seca e a mais irônica que jamais escreveu. Ganhou o Nobel por esse livro — e o recusou.
CINEMA E ADAPTAÇÕES
O Engrenagem (Les Jeux sont faits, 1947)
Um roteiro original escrito diretamente para o cinema — não uma adaptação de obra anterior. Dois mortos descobrem que se amavam em vida mas nunca se encontraram. Têm uma segunda chance: voltam à vida por vinte e quatro horas para se amar. Mas as “cartas já estão lançadas” — as estruturas sociais que os separaram em vida estão ainda lá. Uma meditação sartreana sobre o determinismo social disfarçada de história de amor sobrenatural.
A Engrenagem (L’Engrenage, 1948)
Publicado como texto literário independente, este roteiro trata de um líder político progressista num país imaginário que, para conquistar o poder e fazer o bem, vai cedendo, compromisso por compromisso, até se tornar o que pretendia combater. Uma reflexão sobre as “mãos sujas” da política — o mesmo tema da peça homônima, abordado agora de forma mais trágica e menos dialógica.
Freud, o Roteiro (Le Scénario Freud, 1984 — póstumo)
John Huston convidou Sartre para escrever o roteiro do filme sobre Freud. Sartre entregou um texto de mais de 400 páginas — que Huston amou e nunca poderia ter filmado integralmente. A versão reduzida que chegou ao cinema (Freud: The Secret Passion, 1962) é apenas uma fração do que Sartre escreveu. O roteiro completo, publicado postumamente, é fascinante porque o Freud de Sartre é, inevitavelmente, um sartreano: um homem que descobre a estrutura do inconsciente mas mantém uma responsabilidade irredutivelmente pessoal sobre sua própria vida.
TEXTOS POLÍTICOS E JORNALÍSTICOS
Reflexões sobre a Questão Judaica (Réflexions sur la question juive, 1946)
Um ensaio escrito logo após a Libertação, sobre o antissemitismo. A tese central é provocatória: não é a história ou a tradição judaica que “cria” o judeu — é o olhar do antissemita. O antissemita precisa do judeu como objeto de sua ódio, porque o ódio ao judeu resolve um problema de identidade: dá ao antissemita uma pseudo-essência, uma “raça” sólida contra a contingência aterrorizante da existência. O texto foi criticado por judeus que objetaram que Sartre não via o conteúdo positivo da identidade judaica — apenas sua construção pelo ódio externo. A crítica é parcialmente justa e foi reconhecida pelo próprio Sartre mais tarde.
Os Comunistas e a Paz (Les Communistes et la Paix, 1952-1954)
Série de artigos publicados nos Temps Modernes, escritos em fúria depois da repressão dos protestos contra Ridgway. Sartre defende que o PCF é a única expressão política real da classe trabalhadora francesa e que criticá-lo é servir objetivamente à burguesia. O documento mais controverso de seu engajamento político — e o que mais frequentemente é usado para acusá-lo de cumplicidade com o stalinismo.
O Fantasma de Stalin (Le Fantôme de Staline, 1956)
Escrito depois do relatório de Kruschev e da invasão da Hungria, é o texto em que Sartre finalmente acerta contas com o estalinismo. Mas o faz de forma estrutural: não condena apenas Stalin o indivíduo, mas as condições históricas, econômicas e políticas que tornaram possível e talvez inevitável a degeneração burocrática da revolução soviética. É ao mesmo tempo uma análise penetrante e um exemplo de como a inteligência pode ser usada para atenuar uma condenação moral que a situação exigia de forma mais direta.
Colonialismo é um Sistema (Le Colonialisme est un système, 1956)
Ensaio que é um dos documentos mais lúcidos da crítica anticolonialista francesa. Sartre argumenta que as atrocidades cometidas na Argélia não são acidentes ou excessos — são a consequência lógica e necessária de um sistema que só pode se manter através da violência. Não há colonialismo “com rosto humano”. A violência não é o desvio do sistema — é o sistema.
Prefácio a Os Condenados da Terra (Préface aux Damnés de la Terre, 1961)
O texto político mais inflamado de Sartre. Um chamado explícito à violência anticolonial que escandalizou a Europa liberal. Sartre argumenta que a violência do colonizado contra o colono não é apenas defensiva — é constitutiva: ela reconstrói a humanidade do oprimido que o colonialismo havia destruído. Meio século depois, o texto continua perturbador — precisamente porque não permite conforto a nenhum dos lados.
Entre Quatro Olhos (On a raison de se révolter, 1974)
Diálogos entre Sartre, Philippe Gavi e Pierre Victor sobre política, revolução, marxismo e as perspectivas do socialismo depois de maio de 68. Sartre em conversa, sem o rigor arquitetônico de seus grandes textos, mas com a mesma intensidade intelectual. Um documento valioso de seu pensamento tardio em estado de formação.
CORRESPONDÊNCIAS E DIÁRIOS
Os Cadernos da Estranha Guerra (Les Carnets de la drôle de guerre, 1983 — póstumo)
Os diários que Sartre escreveu durante os meses de setembro de 1939 a março de 1940, quando estava mobilizado na Alsácia como meteorologista militar. Uma janela extraordinária para o pensamento de Sartre em processo — reflexões sobre a guerra, sobre a liberdade, sobre a morte, sobre Heidegger e Husserl, sobre Beauvoir, sobre si mesmo. Escritos sem intenção de publicação, têm uma honestidade e uma frescura que os textos “oficiais” nem sempre têm.
Cartas ao Castor e a Alguns Outros (Lettres au Castor et à quelques autres, 1983 — póstumo)
“O Castor” era o apelido de Simone de Beauvoir (Beaver, em inglês, porque Beauvoir soa como beaver). As cartas cobrem de 1926 a 1963 e são um documento ao mesmo tempo íntimo e perturbador: revelam a cumplicidade extraordinária dos dois, mas também as tensões, as omissões, as manipulações veladas. Sartre escrevia para Beauvoir com uma franqueza que reservava para poucos — e mesmo assim guardava segredos.
Testemunha Silenciosa (Witness to My Life — correspondência em inglês, 1992 — póstumo)
Cartas do período de 1926 a 1939, selecionadas e publicadas primeiramente em tradução inglesa. Complementam a coleção francesa com material da juventude de Sartre e de seus relacionamentos anteriores.
Esta lista não é exaustiva no que diz respeito a artigos dispersos, intervenções em revistas, depoimentos e textos ocasionais — que somados representam milhares de páginas adicionais. Mas cobre todas as obras que Sartre considerou suficientemente maduras para publicação, além dos textos póstumos de primeira importância. A extensão e a diversidade dessa produção não têm paralelo no século XX: nenhum outro pensador de igual rigor filosófico foi ao mesmo tempo romancista, dramaturgo, biógrafo, autobiógrafo, roteirista, crítico literário e jornalista político dessa envergadura.
Jean-Paul Sartre — Frases Célebres
- “O homem está condenado a ser livre.” (O Existencialismo é um Humanismo)
- “A existência precede a essência.” (O Existencialismo é um Humanismo)
- “O inferno são os outros.” (Entre Quatro Paredes)
- “Não fazemos aquilo que queremos e, no entanto, somos responsáveis por aquilo que somos.” (O Ser e o Nada)
- “O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.” (Saint Genet, Comediante e Mártir)
- “Cada homem deve inventar o seu caminho.” (O Existencialismo é um Humanismo)
- “A liberdade é aquilo que você faz com o que foi feito de você.” (Saint Genet, Comediante e Mártir)
- “Estamos sós, sem desculpas. É isso que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser livre.” (O Existencialismo é um Humanismo)
- “Nunca fomos tão livres como durante a ocupação alemã.” m(Situações III)
- “A palavra é ação.” (Que é a Literatura?)
- “O homem nada mais é do que aquilo que faz de si mesmo.” (O Existencialismo é um Humanismo)
- “Toda consciência é consciência de alguma coisa.” (O Ser e o Nada)
- “O desejo exprime-se por uma carícia, assim como o pensamento pela linguagem.” (O Ser e o Nada)
- “A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota.” (Cadernos para uma Moral)
- “Sonhar, em teoria, é viver um pouco; mas viver sonhando é não existir.” (A Náusea)
- “Tudo foi descoberto, exceto como viver.” (A Náusea)
- “As palavras são pistolas carregadas.” (Que é a Literatura?)
- “A má-fé é uma mentira para si mesmo.” (O Ser e o Nada)
- “O homem é uma paixão inútil.” (O Ser e o Nada)
- “Ser livre não é poder fazer o que se quer, mas querer o que se pode.” (Cadernos para uma Moral)




