Michel de Montaigne – Biografia Completa

maio 7, 2026 | Blog, Biografias, Filosofia

Michel de Montaigne – Biografia Completa


Origens, Família e Contexto de Nascimento

Michel Eyquem de Montaigne nasceu em 28 de fevereiro de 1533 no Château de Montaigne, situado na região de Périgord, atual departamento de Dordogne, no sudoeste da França. O castelo, que ainda existe e pode ser visitado, localizava-se a cerca de quarenta quilômetros a leste de Bordeaux, numa região de vinhedos e colinas suaves que Montaigne amaria e descreveria ao longo de toda a vida.

Sua família paterna, os Eyquem, era de origem mercantil. O bisavô de Montaigne, Ramon Eyquem, enriqueceu no comércio de peixe salgado e vinho em Bordeaux e adquiriu a propriedade chamada Montaigne por volta de 1477. O avô, Grimon Eyquem, consolidou a fortuna familiar. O pai, Pierre Eyquem de Montaigne, foi o primeiro da linhagem a abandonar definitivamente o comércio e a adotar o estilo de vida da nobreza rural. Pierre comprou o direito à nobreza, algo comum na França do século XVI para famílias ricas da burguesia, e se dedicou à administração da propriedade e à vida pública. Foi prefeito de Bordeaux entre 1554 e 1556, cargo de considerável prestígio.

Pierre Eyquem era um homem de caráter notavelmente humanista para sua época. Havia participado das guerras italianas de Francisco I, experiência que o colocou em contato com o Renascimento italiano, e voltou à França impregnado de ideias pedagógicas novas. Era um leitor de Erasmo e de outros humanistas, e sua maneira de educar Michel seria inteiramente moldada por essas influências.

A mãe de Montaigne, Antoinette de Louppes de Villeneuve, era de origem judaica sefardita. Sua família havia fugido da Península Ibérica durante as perseguições da Inquisição espanhola e portuguesa e se instalado em Toulouse, onde se convertera ao catolicismo. Essa herança materna é historicamente documentada e constitui um elemento biográfico relevante para compreender certos aspectos do temperamento e do pensamento de Montaigne: a experiência do exílio, da dissimulação religiosa e da identidade plural corria na linhagem familiar de que ele descende pelo lado materno. É curioso, e foi muito comentado por historiadores, que Montaigne jamais mencione explicitamente essa origem judaica em seus Ensaios, embora fale extensamente de si mesmo em praticamente todos os outros aspectos.


A Educação Extraordinária

A educação de Michel de Montaigne foi um experimento pedagógico deliberado e radicalmente inovador, concebido por seu pai Pierre com base nos princípios humanistas da época.

Logo após o nascimento, Montaigne foi enviado para ser criado por uma família de camponeses numa aldeia próxima, conforme era o costume entre a nobreza e a alta burguesia francesas. A ideia era fortalecer o corpo da criança e criar nela um contato íntimo com a terra e com as pessoas simples desde os primeiros anos. Montaigne retornou ao castelo antes dos três anos.

A decisão pedagógica mais radical de Pierre foi a seguinte: Michel aprenderia o latim como língua materna, antes do francês. Pierre contratou um preceptor alemão, Wilhelm Horstanus, que não sabia francês, mas dominava o latim clássico. Toda a comunicação no castelo, incluindo os pais, os criados e todos os que rodeavam a criança, foi estritamente limitada ao latim na presença de Michel. Ninguém dirigia a palavra à criança em francês. O resultado foi que Montaigne aprendeu a falar latim com a mesma naturalidade com que qualquer criança aprende a língua materna, sem gramática, sem conjugações decoradas, sem esforço artificial. O grego foi também introduzido de forma lúdica, por meio de jogos e de tábuas onde as letras estavam pintadas.

Esse método teve consequências profundas. Montaigne leu Virgílio, Ovídio, Terêncio e os grandes autores latinos antes dos seis anos, com fluência e prazer. Em seus Ensaios, ele retornará constantemente a esses autores com uma intimidade que só é possível quando uma língua foi absorvida na infância, e não aprendida abstratamente. O latim para ele não era um idioma estrangeiro de erudição; era quase uma língua do coração.

Aos seis anos, Montaigne foi enviado ao Collège de Guyenne, em Bordeaux, um dos melhores estabelecimentos de ensino da França naquele período. O colégio atraía professores humanistas de alto nível. Entre os mestres que Montaigne encontrou lá estava George Buchanan, o grande humanista escocês, e também Élie Vinet, latinista de renome. O ambiente era intelectualmente estimulante, mas o método pedagógico do colégio, baseado na memorização, na repetição e em punições físicas, contrastava dolorosamente com a liberdade da educação que Montaigne havia recebido em casa. Nos Ensaios, ele criticará com veemência esse sistema escolar, descrevendo-o como uma prisão onde o terror substitui a curiosidade e onde a erudição morta é despejada nas crianças sem nenhuma atenção ao seu desenvolvimento humano integral.

Montaigne permaneceu no Collège de Guyenne até por volta dos treze anos. Depois, os registros biográficos se tornam menos precisos. Supõe-se que estudou filosofia, provavelmente em Bordeaux ou em Toulouse, e depois cursou direito, possivelmente na Universidade de Toulouse ou em Paris. Não há certeza documental sobre esses anos de formação jurídica, mas em 1554 ele já aparece como membro da Cour des Aides de Périgueux, uma corte tributária regional, o que indica uma formação jurídica concluída.


A Carreira Pública e a Amizade com La Boétie

Em 1557, a Cour des Aides de Périgueux foi incorporada ao Parlement de Bordeaux, e Montaigne tornou-se conselheiro do Parlement, cargo que exerceria por treze anos. O Parlement de Bordeaux era uma das principais cortes de justiça da França, responsável por funções judiciárias, administrativas e mesmo legislativas na região. Era um cargo prestigioso, mas que, como Montaigne deixará claro nos Ensaios, nunca o entusiasmou verdadeiramente.

Foi no Parlement que ocorreu o acontecimento mais decisivo de sua vida afetiva e intelectual: o encontro com Étienne de La Boétie, em torno de 1558 ou 1559. La Boétie era também conselheiro do Parlement, três anos mais velho do que Montaigne, e já era conhecido como autor de um texto filosófico extraordinário, o Discours de la servitude volontaire, escrito aos dezoito anos. Nesse texto, La Boétie analisa por que os povos obedecem voluntariamente aos tiranos, por que sustentam sua própria opressão, e como o hábito e o costume destroem nos seres humanos o instinto natural de liberdade. Era uma obra de filosofia política de rara profundidade para um jovem de dezoito anos, e circulava em manuscrito entre os letrados.

A amizade que se desenvolveu entre Montaigne e La Boétie foi, pelas palavras do próprio Montaigne, uma das mais perfeitas e raras que a história registra. Montaigne a descreveu no ensaio “Da amizade” com uma intensidade emocional que jamais empregou em relação a nenhuma outra pessoa: “Porque era ele, porque era eu.” Essa frase curta, absolutamente lapidar, tornou-se uma das mais citadas de toda a literatura francesa. Montaigne afirma que essa amizade transcendia qualquer explicação racional, qualquer utilidade, qualquer interesse, qualquer similaridade de temperamento facilmente enumerável. Era uma fusão de almas que ele considerava impossível de ser descrita e que só poderia ser sentida.

Durante os poucos anos em que conviveram, La Boétie foi para Montaigne um guia intelectual, um companheiro de leituras, um interlocutor filosófico, e provavelmente a pessoa que mais diretamente o empurrou em direção à reflexão filosófica sobre a vida, a morte e a condição humana.

Em agosto de 1563, La Boétie adoeceu gravemente durante uma epidemia de peste que assolava a região de Bordeaux. Montaigne esteve ao lado do amigo nos dias que precederam sua morte, em 18 de agosto de 1563. Montaigne tinha trinta anos. A morte de La Boétie foi um golpe devastador, e sua sombra percorre toda a obra dos Ensaios. Montaigne nunca se recuperou completamente dessa perda. Em carta ao pai, descreveu com detalhe clínico e ao mesmo tempo profundamente emocionado os últimos dias do amigo, suas palavras, sua coragem diante da morte, seu espírito filosófico até o fim. Essa carta é um dos documentos mais tocantes da literatura francesa do século XVI.


O Casamento e a Vida Familiar

Em 1565, Montaigne casou-se com Françoise de la Chassaigne, filha de um colega conselheiro do Parlement. O casamento foi provavelmente arranjado pelas famílias, como era o costume, embora não haja evidências de que tenha sido infeliz. Montaigne é notavelmente parco em referências ao casamento e à esposa nos Ensaios. Quando fala de casamento em geral, o faz com uma espécie de resignação amigável: considera o casamento uma instituição necessária e útil, mas incompatível com a amizade perfeita, porque a amizade requer uma liberdade e uma reciprocidade total que o casamento, com suas obrigações contratuais e domésticas, não pode suportar.

Françoise e Michel tiveram seis filhos, cinco meninas e um menino. Todos morreram na infância, exceto uma filha, Léonore, que sobreviveu. A mortalidade infantil era então comum, e Montaigne menciona essas mortes com uma frieza que chocou leitores de épocas posteriores, embora essa atitude fosse mais próxima da sensibilidade stoica que ele cultivava do que de uma falta de sentimento paternal.

O pai Pierre morreu em 1568, e Montaigne herdou o título e a propriedade de Montaigne. Em 1570, após treze anos como conselheiro do Parlement, vendeu seu cargo, como era o costume e o direito dos magistrados franceses, e retirou-se para o castelo.


A Retirada e a Criação dos Ensaios

Em 1571, aos trinta e oito anos, Montaigne formalizou sua retirada da vida pública com um gesto solene e altamente simbólico: mandou gravar numa das vigas da biblioteca, no terceiro andar da torre do castelo, uma inscrição em latim declarando que, cansado da servidão da corte e dos cargos públicos, havia decidido recolher-se ao seio das musas e consagrar os anos que lhe restavam à sua liberdade, ao repouso e ao lazer. Essa biblioteca era o coração do castelo e o espaço onde Montaigne passaria a maior parte de seus dias.

A torre onde ficava a biblioteca tinha uma forma peculiar que Montaigne amava: arredondada, de modo que qualquer lugar onde ele ficasse sentado, sua vista percorria todos os seus livros. A biblioteca continha cerca de mil volumes, número considerável para a época. No teto, havia cinquenta e sete sentenças gregas e latinas pintadas, tiradas dos autores que mais amava. Essas sentenças ainda existem e podem ser lidas hoje.

Nesse retiro, Montaigne começou a escrever o que chamava de “ensaios”, palavra que escolheu com deliberação e que significava, no sentido que dava a ela, tentativas, experimentos, provas. O ensaio como forma literária e filosófica não existia antes de Montaigne. Ele a inventou. A palavra francesa “essai” vem do latim “exagium”, que significa pesagem, avaliação. O ensaio de Montaigne é literalmente um ato de pesar a si mesmo, de experimentar suas próprias ideias e reações, de tentar entender o ser humano partindo do único ser humano que ele conhecia de fato por dentro: ele mesmo.

Os dois primeiros livros dos Ensaios foram publicados em 1580, pela editora Simon Millanges, em Bordeaux. O terceiro livro foi publicado junto com uma versão aumentada dos dois primeiros em 1588. Mas os Ensaios nunca foram uma obra acabada. Montaigne os revisou e aumentou continuamente até sua morte, acrescentando passagens, corrigindo, sobrepondo camadas de reflexão sobre camadas anteriores. A edição póstuma de 1595, preparada por sua filha adotiva Marie de Gournay com base num exemplar pessoal de Montaigne coberto de anotações manuscritas, é considerada a edição definitiva. Os estudiosos chamam de “exemplaire de Bordeaux” esse exemplar anotado, que ainda existe e é um tesouro bibliográfico de primeira grandeza.


As Guerras de Religião e o Papel Político de Montaigne

A França do século XVI era um país dilacerado pelas guerras de religião entre católicos e huguenotes protestantes. Essas guerras, que duraram de 1562 a 1598, foram marcadas por uma violência extrema, massacres, traições e uma erosão generalizada das estruturas sociais e políticas. O Massacre de São Bartolomeu, em agosto de 1572, no qual dezenas de milhares de protestantes foram assassinados em toda a França, foi o ponto mais dramático desse conflito. Montaigne estava em Paris naquela noite e sobreviveu. O episódio o marcou profundamente e alimentou seu ceticismo em relação ao fanatismo religioso de todas as formas.

Montaigne era católico, mas de um catolicismo moderado, sem fervor dogmático, marcado muito mais pela tradição, pelo costume e pela prudência política do que por uma fé ardente. Nos Ensaios, ele trata a religião com um respeito cuidadoso que nunca é entusiasmo, e sua filosofia cética não se reconcilia facilmente com o dogmatismo de qualquer confissão.

Sua posição política nas guerras de religião era a dos chamados Politiques, o partido dos moderados que colocavam a estabilidade do reino e a paz civil acima das disputas teológicas. Montaigne conhecia e respeitava o rei Henrique de Navarra, futuro Henrique IV, que era protestante e que acabaria convertendo-se ao catolicismo por razões políticas com a famosa frase “Paris vaut bien une messe” (Paris bem vale uma missa), autenticidade histórica da qual alguns duvidam mas que resume bem o pragmatismo do período.

Entre 1578 e 1585, Montaigne serviu como negociador informal e intermediário entre os dois lados do conflito, usando sua reputação de homem moderado, honesto e sem ambição pessoal para facilitar comunicações entre Henrique de Navarra e o rei Henrique III. Essa atividade diplomática secreta, sobre a qual Montaigne é discreto nos Ensaios mas que é documentada em fontes externas, revela uma dimensão de sua vida pública que contrasta com a imagem do filósofo retirado no castelo.


A Prefetura de Bordeaux

Em 1581, enquanto se encontrava em Roma durante sua viagem pela Europa, Montaigne recebeu a notícia de que havia sido eleito prefeito de Bordeaux, o mesmo cargo que seu pai havia exercido. A eleição foi por aclamação do corpo de conselheiros municipais, e o próprio rei Henrique III escreveu a Montaigne exigindo que ele aceitasse o cargo.

Montaigne aceitou relutantemente e exerceu o cargo por dois mandatos consecutivos de dois anos, de 1581 a 1583 e de 1583 a 1585. Foi um período de excepcional dificuldade. A cidade estava sob ameaça constante de conflitos religiosos, e a tensão entre as fações católica e protestante dentro de Bordeaux era permanente. Em 1585, uma grave epidemia de peste assolou a cidade e a região, matando dezenas de milhares de pessoas.

Montaigne administrou o cargo com competência discreta e sem se comprometer com nenhuma das fações extremas. Quando a epidemia de 1585 atingiu seu pico, ele não retornou a Bordeaux para as cerimônias de transmissão do cargo, decisão que alguns contemporâneos criticaram como covardia ou indiferença. Montaigne se defendeu, argumentando que sua presença não teria salvado ninguém e que a prudência era uma virtude legítima. Essa atitude é representativa de seu caráter: avesso ao heroísmo vazio, ao gesto simbólico sem substância prática, à auto-imolação performática.

Nos Ensaios, Montaigne reflete sobre sua experiência como prefeito com a mesma honestidade desarmante com que reflete sobre tudo. Distingue entre o que era “Montaigne” e o que era “o prefeito de Bordeaux”, entre sua identidade pessoal e a função pública que exercia. Essa separação, que prefigura discussões filosóficas sobre identidade, papel social e autenticidade que só se tornariam centrais na filosofia muito mais tarde, é um dos pontos mais sofisticados de sua reflexão política.


A Viagem pela Europa

Entre junho de 1580 e novembro de 1581, Montaigne realizou uma longa viagem pela Europa, percorrendo a França, a Alemanha, a Áustria, a Suíça e a Itália. Deixou o castelo logo após a publicação dos dois primeiros livros dos Ensaios, acompanhado pelo irmão, pelo cunhado e por alguns criados. A viagem durou mais de quinze meses.

O Journal de voyage, o diário que Montaigne manteve durante essa viagem, só foi descoberto e publicado em 1774, quase duzentos anos após sua morte. É um documento fascinante, escrito em parte pelo próprio Montaigne e em parte por um secretário anônimo, e registra com detalhe extraordinário as observações do filósofo sobre as cidades, as pessoas, os costumes, as comidas, as paisagens e as práticas religiosas que encontrou pelo caminho.

Um dos aspectos mais reveladores do Journal é o que ele registra sobre a saúde de Montaigne. Desde jovem, ele sofria de cálculos renais, uma condição extremamente dolorosa que, no século XVI, não tinha nenhum tratamento eficaz. As crises, que podiam ser debilitantes, forçavam Montaigne a buscar curas nas águas termais espalhadas pela Europa. Grande parte da viagem foi motivada pela busca de alívio para essa doença. O Journal descreve com detalhe médico as pedras que Montaigne expelia, as dores que suportava, os banhos termais que frequentava em lugares como Plombières na Lorena, Baden na Suíça e várias termas da Toscana e da Toscana.

Em Roma, Montaigne foi recebido em audiência pelo papa Gregório XIII. Mais importante do que essa audiência protocolar, porém, foi o exame a que os Ensaios foram submetidos pelo Mestre do Sagrado Palácio, o censor eclesiástico. Os censores tinham objeções a várias passagens: o uso da palavra “fortuna”, que parecia implicar que o acaso governava o mundo em vez de Deus; referências elogiosas a autores heréticos; a discussão demasiado livre de certos temas teológicos. Montaigne ouviu as objeções com cortesia e prometeu considerar correções. Nos Ensaios, ele permaneceu substancialmente inalterado em suas posições.

Na Itália, Montaigne visitou Florença, Ferrara, Veneza, Roma e vários outros centros. Em Roma, dedicou semanas a visitar os monumentos antigos, e a experiência de caminhar sobre os restos físicos da Roma republicana e imperial, que havia lido e relido desde a infância, foi para ele profundamente emocionante. Em Florença, visitou o túmulo de Maquiavel. Em Pisa, observou práticas médicas. Por toda a Itália, manteve sua curiosidade antropológica característica, registrando diferenças de culinária, de costumes funerários, de cerimônias religiosas, comparando tudo com o que conhecia da França e da Antiguidade.


Os Ensaios como Obra Filosófica: Estrutura e Pensamento

Os Ensaios de Montaigne são compostos de 107 ensaios de extensão variável, organizados em três livros. O primeiro livro contém 57 ensaios, o segundo contém 37, e o terceiro contém 13. Os ensaios do terceiro livro são em geral os mais longos e os mais maduros filosoficamente. Os títulos são frequentemente enganosos: um ensaio intitulado “Dos carros” pode tratar, a certa altura, de cosmologia, de relativismo cultural, da conquista das Américas e da natureza da imaginação humana. A digressão é um princípio estrutural, não um defeito.

O pensamento de Montaigne é difícil de classificar em uma escola filosófica única, e essa dificuldade é em si mesma reveladora. Ele é frequentemente descrito como cético, e de fato o ceticismo, particularmente na forma pirrônica, foi uma influência decisiva em sua formação. O pirronismo, a escola cética da Antiguidade fundada por Pirro de Élis e sistematizada por Sexto Empírico, cujas obras Montaigne leu com atenção, afirmava que sobre praticamente qualquer questão é possível apresentar argumentos contrários de igual força, e que a sabedoria consiste em suspender o julgamento, em não afirmar definitivamente nem o sim nem o não. A famosa divisa de Montaigne, “Que sais-je?” (Que sei eu?), gravada numa medalha que ele mandou cunhar, é a expressão mais concisa de seu ceticismo.

Mas Montaigne não é simplesmente um cético. Ele também é profundamente marcado pelo estoicismo, que absorveu de Sêneca e de Marco Aurélio. Os ensaios dos primeiros dois livros, especialmente, estão impregnados de preocupações estoicas: como enfrentar a morte com serenidade, como cultivar a virtude, como não depender excessivamente dos bens externos, como manter a paz interior diante da adversidade. O ensaio “Que filosofar é aprender a morrer” é uma meditação estoica sobre a morte que mostra Montaigne em sua fase de maior proximidade com esse credo.

No entanto, à medida que os Ensaios avançam em direção ao terceiro livro, Montaigne vai se distanciando do rigorismo estoico. Passa a criticar os estoicos por sua negação do corpo, por seu desprezo pelas paixões e pelo prazer, por seu ideal heroico de invulnerabilidade emocional. O Montaigne maduro valoriza o corpo, o prazer, a amizade, a boa comida, o vinho, o movimento físico. É capaz de dizer com tranquilidade que o prazer é um bem e que negar o corpo é uma forma de arrogância. Essa virada em direção ao que alguns chamam de epicurismo moderado ou de humanismo sensualista representa uma das evoluções mais interessantes de seu pensamento.

O ensaio mais longo e mais filosoficamente ambicioso dos Ensaios é a “Apologia de Raimond Sebond”, que ocupa o capítulo XII do segundo livro. Sebond era um teólogo catalão do século XV que tentou provar racionalmente a existência de Deus e a verdade do cristianismo pela observação da natureza. O pai de Montaigne havia pedido ao filho que traduzisse o livro de Sebond do latim para o francês, e Montaigne o fez, publicando a tradução em 1569. A “Apologia” é ostensivamente uma defesa de Sebond, mas é na prática uma demolição sistemática da capacidade da razão humana de atingir qualquer certeza, seja teológica, seja científica, seja moral. É o texto mais radicalmente cético de Montaigne, e contém uma comparação detalhada entre os seres humanos e os animais que serve para relativizar a pretensão humana de superioridade e de racionalidade privilegiada.


O Relativismo Cultural e a Visão dos Outros

Um dos aspectos mais modernos e mais surpreendentes do pensamento de Montaigne é seu relativismo cultural. Vivendo numa época em que a Europa havia “descoberto” as Américas e os relatos sobre os povos indígenas chegavam em abundância, Montaigne leu com atenção os depoimentos dos viajantes e foi um dos primeiros pensadores europeus a recusar o etnocentrismo de forma sistemática.

No ensaio “Dos Canibais”, Montaigne analisa os relatos sobre os povos indígenas do Brasil, particularmente os Tupinambás, que praticavam o canibalismo ritual sobre inimigos capturados em guerra. O argumento de Montaigne é duplo e devastador: primeiro, ele questiona se o canibalismo ritual, feito por razões de honra e de crença religiosa, é realmente mais bárbaro do que a tortura, a perseguição religiosa e os massacres que os europeus praticavam uns contra os outros com frequência muito maior. Segundo, ele afirma que chamamos de bárbaros aquilo que nos é estranho, e que esse julgamento diz mais sobre os limites de nossa perspectiva do que sobre a inferioridade objetiva dos outros.

Montaigne chegou mesmo a conhecer pessoalmente alguns índios brasileiros, quando três foram trazidos à cidade de Rouen, na França, para serem apresentados ao jovem rei Carlos IX. Montaigne conversou com eles por meio de um intérprete e registrou as perguntas que os índios fizeram sobre a sociedade francesa. Uma delas era: por que homens adultos e robustos obedeciam a uma criança (o rei)? A outra era: por que os pobres aguentavam a desigualdade em vez de incendiar as casas dos ricos? Montaigne reproduz essas perguntas com admiração implícita, sugerindo que a perspectiva dos “bárbaros” era capaz de enxergar absurdos nas instituições europeias que os europeus, por habituação, haviam deixado de ver.

Esse relativismo, que se estende às religiões, aos costumes funerários, às práticas sexuais, às leis e às instituições políticas dos mais variados povos que Montaigne estudou na literatura antiga e nos relatos de viajantes contemporâneos, era intelectualmente subversivo num século dominado pelo dogmatismo religioso e pela convicção europeia de superioridade civilizacional.


Marie de Gournay e os Últimos Anos

Em 1588, durante uma estada em Paris para supervisionar a publicação da nova edição dos Ensaios, Montaigne conheceu Marie de Gournay, uma jovem de vinte e dois anos que havia lido os Ensaios e se tornara apaixonada admiradora do livro e do autor. Marie era uma mulher de inteligência excepcional, que havia aprendido latim e grego por conta própria e que escreveria mais tarde obras importantes sobre a igualdade entre homens e mulheres.

O encontro entre os dois foi, pelas descrições que ambos deixaram, algo próximo do reconhecimento imediato de duas almas afins. Montaigne a chamou de sua “filha de aliança”, expressão que combinava a ideia de adoção espiritual com a de uma aliança intelectual. Marie de Gournay acompanhou Montaigne num período de sua vida, foi para o Périgord visitá-lo no castelo, e o acompanhou na última estada em Paris antes de seu regresso definitivo à propriedade.

Marie de Gournay foi a responsável pela edição póstuma dos Ensaios em 1595, três anos após a morte de Montaigne. Françoise de la Chassaigne, a viúva, confiou-lhe o exemplar anotado de Bordeaux e os manuscritos que Montaigne havia deixado. Marie trabalhou com dedicação extraordinária nessa edição, que é a base de todos os textos posteriores dos Ensaios. Ela também acrescentou um prefácio importante, que foi mais tarde suprimido por editores que consideravam seu elogio a Montaigne excessivo.

Os últimos anos de Montaigne foram marcados pelo agravamento de sua doença renal e por uma nova epidemia de peste que assolou o Périgord e forçou sua família a abandonar temporariamente o castelo. Seus diários e cartas dos anos finais mostram um homem que mantinha intactos a curiosidade intelectual e o humor, mas cujo corpo enfraquecia progressivamente.

Em setembro de 1592, Montaigne sofreu um ataque que os biógrafos geralmente identificam como um acidente vascular cerebral ou uma crise grave relacionada à sua doença renal, que lhe tirou temporariamente a fala. Segundo o relato que Françoise de la Chassaigne deu a outros, Montaigne teria pedido que fossem chamados seus criados e vizinhos para que pudesse se despedir deles antes de morrer. Uma missa foi rezada em seu quarto. Montaigne morreu em 13 de setembro de 1592, no castelo de Montaigne, com cinquenta e nove anos.


O Projeto do Eu como Objeto Filosófico

A originalidade de Montaigne na história do pensamento ocidental reside em parte no fato de ter feito de si mesmo o objeto central e explícito de sua filosofia. Antes dele, a filosofia tratava do cosmos, de Deus, das essências, da política, da ética em sentido geral. A subjetividade individual era um ponto de partida a ser rapidamente transcendido, não um objeto digno de estudo em si mesmo.

Montaigne inverteu essa hierarquia. “Cada homem traz a forma inteira da condição humana”, escreveu num dos momentos mais densos do terceiro livro. Estudar a si mesmo com honestidade, sem as armaduras da vaidade e da hipocrisia, era para ele o caminho mais direto para estudar o ser humano em geral. Não porque ele acreditasse ser um exemplar melhor ou mais típico da humanidade do que outros, mas porque era o único ser humano que tinha acesso imediato, por dentro, sem mediações, sem filtros.

Esse projeto pressupõe uma disposição radical de honestidade. Montaigne fala de sua preguiça, de sua memória fraca, de seu corpo, de seus medos, de seus gostos alimentares, de seus hábitos intestinais, de sua vida sexual, de suas contradições internas, de suas mudanças de opinião. Nada parece indigno de ser observado e registrado, porque tudo faz parte do que é ser humano.

Essa insistência na particularidade, no concreto, no mutável, no contraditório, em oposição ao abstrato, ao universal, ao permanente, ao coerente, é uma das marcas filosóficas mais profundas de Montaigne. Ele não acredita num eu fixo, numa identidade estável e coerente que persiste imutável através do tempo. O ser humano que ele observa em si mesmo é fluido, mutável, cheio de contradições internas irredutíveis. “Cada homem carrega a forma inteira da condição humana” porque a condição humana é justamente essa: plural, contraditória, nunca completamente dominável pela razão.


Influência e Legado

A influência de Montaigne na história do pensamento e da literatura ocidentais é incalculável e atravessa séculos de forma ininterrupta.

Francis Bacon, que criou o ensaio em inglês algumas décadas depois, conhecia os Ensaios de Montaigne e se apropriou da forma, embora com um temperamento muito diferente. René Descartes, que estudou no Collège La Flèche, havia sem dúvida lido Montaigne, e a radical inversão cartesiana que faz do sujeito pensante o ponto de partida de toda a filosofia, expressa no cogito ergo sum, pode ser lida como uma resposta ao ceticismo de Montaigne: onde Montaigne encontrou incerteza radical, Descartes procurou uma certeza fundante. William Shakespeare conheceu os Ensaios na tradução inglesa de John Florio de 1603, e passagens inteiras dos Ensaios ressoam em Hamlet, em A Tempestade e em outras peças. O famoso monólogo de Calibã e o personagem Gonzalo em A Tempestade são diretamente inspirados no ensaio “Dos Canibais”.

Pascal leu Montaigne com uma mistura de admiração e horror. Admiração pela honestidade e pela profundidade psicológica; horror pelo ceticismo e pela aceitação tão tranquila da condição humana sem o recurso à graça divina. Os Pensées de Pascal são em grande parte uma conversa tensa e apaixonada com o fantasma de Montaigne.

No século XVIII, os filósofos iluministas viram em Montaigne um precursor: seu relativismo cultural, seu anticlericalismo discreto mas constante, sua valorização da experiência sobre a autoridade, sua disposição de questionar os costumes estabelecidos. Voltaire admirava-o. Rousseau, que era o oposto de Montaigne em temperamento, usou a forma autobiográfica que Montaigne havia criado para propósitos completamente diferentes nas Confissões.

No século XIX e no XX, Montaigne foi lido como precursor do ensaio moderno, da psicologia, da antropologia e até da psicanálise. Virginia Woolf escreveu um ensaio memorável sobre Montaigne, reconhecendo nele um antecessor de sua própria busca pela representação da consciência em movimento. Nietzsche o citava com admiração. Emerson o considerava um dos homens mais livres que haviam existido.

No Brasil e no mundo de língua portuguesa, a influência de Montaigne chegou por diferentes caminhos, mas é possível rastreá-la, entre outros lugares, na prosa reflexiva e heterodoxa de autores como Machado de Assis e no ensaísmo filosófico do século XX.

Montaigne permanece, mais de quatro séculos após sua morte, um dos escritores mais lidos e mais comentados da literatura mundial. Seus Ensaios são um dos raríssimos livros que, quanto mais um leitor amadurece e acumula experiência de vida, mais profundos, mais precisos e mais necessários parecem. Isso se deve, em última análise, ao fato de que Montaigne não escreveu sobre ideias abstratas: escreveu sobre o que é ser humano, com tudo o que esse fato implica de grandeza, de limitação, de humor, de medo, de curiosidade e de morte. E fez isso com uma honestidade, uma elegância e uma inteligência que o tempo não conseguiu envelhecer.

Michel de Montaigne — Obras Completas


Observação Preliminar Necessária

Montaigne não foi um autor prolífico no sentido quantitativo. Não escreveu romances, não compôs poesias, não produziu tratados sistemáticos de filosofia, não deixou uma obra extensa em número de títulos. O que deixou é, em compensação, uma das obras mais densas, mais vivas e mais influentes da literatura ocidental. Sua produção pode ser dividida em quatro grandes blocos: a tradução que fez por encargo do pai, as edições póstumas que organizou das obras do amigo La Boétie, os Ensaios, que são sua obra central e a razão pela qual é lembrado, e o Journal de Voyage, diário de viagem que só veio a público quase dois séculos após sua morte. Há ainda um corpus menor de cartas e documentos. Cada um desses blocos merece ser apresentado com o rigor e a profundidade que lhe correspondem.


1. Tradução da Theologia Naturalis de Raimond Sebond (1569)

Título original: Theologia Naturalis, sive Liber Creaturarum, de Raimond Sebond. A tradução de Montaigne foi publicada sob o título La Théologie naturelle de Raymond Sebon.

Esta foi a primeira obra publicada por Montaigne, e ele a fez por obediência ao pai, não por impulso próprio. Pierre Eyquem, nos últimos anos de vida, entregou ao filho o livro em latim do teólogo catalão Raimond Sebond, falecido em 1436, e pediu que o traduzisse para o francês. Montaigne o fez. O livro original de Sebond era uma tentativa de demonstrar racionalmente as verdades do cristianismo a partir da observação da natureza, num gênero que hoje chamaríamos de teologia natural ou argumento do design. A tese central de Sebond era que qualquer ser humano, olhando para o livro da criação com atenção suficiente, poderia chegar por si mesmo às verdades reveladas, sem necessitar da autoridade da Igreja.

O que torna essa tradução biograficamente fascinante é a ironia que ela contém em relação ao pensamento posterior de Montaigne. A tradução foi publicada em 1569. Menos de dez anos depois, no segundo livro dos Ensaios, Montaigne escreveria a “Apologia de Raimond Sebond”, que é formalmente uma defesa de Sebond, mas que na prática desmorona completamente a confiança na razão humana que Sebond havia celebrado. A tradução e a Apologia são, portanto, dois movimentos de uma contradição produtiva: primeiro, Montaigne traduza um homem que acredita no poder da razão; depois, escreve uma defesa desse homem que consiste em demonstrar que a razão não pode fazer nada do que Sebond prometia. É uma operação filosófica de rara sofisticação.

A tradução em si é de qualidade literária elevada. Montaigne trabalhava o latim como segunda língua materna, e sua versão francesa do texto de Sebond é fluente, clara e elegante. Para os estudiosos de Montaigne, ela interessa principalmente como documento do ponto de partida intelectual de um jovem que ainda não havia encontrado sua própria voz, mas que já demonstrava a maestria linguística que definiria sua obra maior.


2. Edições das Obras de Étienne de La Boétie (1571)

Após a morte de La Boétie em 1563, Montaigne assumiu a guarda e a publicação de seu legado literário. Em 1571, oito anos depois da morte do amigo, publicou um volume reunindo as obras de La Boétie, incluindo:

As traduções do grego: La Boétie havia traduzido para o francês a Carta de Consolação a sua esposa, de Plutarco, e a Économique (sobre a administração da casa), também atribuída a Xenofonte, obra que já circulava com seu nome mas que hoje a filologia clássica considera pseudoepígrafe. Essas traduções foram publicadas por Montaigne com um prefácio dedicatório a seu próprio pai, redigido pouco antes da morte de Pierre.

Os vinte e nove sonetos de La Boétie: La Boétie havia escrito sonnets em francês, à maneira do petrarquismo então dominante na lírica francesa. Montaigne publicou esses poemas, que hoje são considerados obras menores mas que têm interesse histórico e documental. É significativo notar que Montaigne, no ensaio “Da amizade”, faz referência a esses sonetos e explica que os havia incluído nos Ensaios como tributo ao amigo, mas que acabou retirando-os porque outros haviam publicado poemas de qualidade superior no intervalo.

O que Montaigne não publicou é tão importante quanto o que publicou: o Discours de la servitude volontaire de La Boétie, o texto mais radical e mais politicamente perigoso do amigo, aquele que havia circulado em manuscrito e que os huguenotes protestantes haviam usado como panfleto de resistência ao poder real. Montaigne, com sua característica prudência política, preferiu não associar publicamente o nome do amigo a um texto que poderia ser lido como chamamento à rebelião. Em “Da amizade”, explica que pretendia incluir o Discours nos Ensaios como tributo central ao amigo, mas que, ao ver o texto sendo explorado politicamente por facções que La Boétie nunca havia apoiado, decidiu abster-se. Essa decisão custou a La Boétie, durante séculos, parte do reconhecimento que seu texto mais genial merecia.

A edição das obras de La Boétie é um ato de amor e de lealdade, mas também um ato filosófico: Montaigne estava, ao organizar e apresentar o legado do amigo, começando a definir para si mesmo o que significava um pensamento verdadeiramente livre. La Boétie foi o espelho no qual Montaigne começou a ver seu próprio rosto intelectual.


3. Os Ensaios (1580, 1588, 1595)

Esta é, evidentemente, a obra pela qual Montaigne existe na história do pensamento humano. Os Ensaios não são um livro no sentido em que costumamos usar essa palavra. São um processo, uma vida transformada em escrita, um organismo que cresceu e se modificou durante mais de vinte anos. Tratá-los como uma obra única e terminada seria uma distorção. Para compreendê-los completamente, é necessário entender suas diferentes camadas e edições.


Primeira edição: Livros I e II (1580)

Publicada em Bordeaux pela editora Simon Millanges, em dois volumes in-quarto, a primeira edição dos Ensaios continha os cinquenta e sete ensaios do primeiro livro e os trinta e sete ensaios do segundo livro. Montaigne tinha quarenta e sete anos.

Essa primeira versão dos Ensaios é perceptivelmente diferente do Montaigne que a posteridade consagrou. Os primeiros ensaios do primeiro livro são curtos, muitas vezes centrados numa figura histórica ou numa anedota clássica, e funcionam quase como exercícios de moralista no estilo dos humanistas italianos. Há ali muito de Plutarco, muito de Sêneca, muito de pensamento clássico reembrulhado em forma francesa. A voz de Montaigne ainda está se formando.

À medida que o primeiro livro avança, algo muda. Os ensaios vão ganhando extensão, a digressão começa a aparecer como princípio estrutural deliberado, e a primeira pessoa singular começa a se impor não como retórica ou convenção, mas como presença real. O ensaio “Que filosofar é aprender a morrer”, do primeiro livro, já é inteiramente Montaigne: uma meditação densa sobre a morte, sobre o medo, sobre a preparação filosófica para o fim, que usa os recursos do estoicismo mas que está sendo vivida de dentro para fora, não recitada de fora para dentro.

O segundo livro é em média mais extenso e mais ambicioso. Contém a “Apologia de Raimond Sebond”, que como já se disse é o texto filosoficamente mais elaborado de Montaigne e o mais longo da coleção inteira. Contém também “Da crueldade”, ensaio onde Montaigne se autodefine ao recusar a ideia de que a virtude consiste em vencer a tentação: quem não sente a tentação e faz o bem naturalmente é mais virtuoso, não menos. Há também os primeiros ensaios verdadeiramente autobiográficos, onde Montaigne fala de sua memória, de seus hábitos físicos, de seu temperamento, com a naturalidade direta que viraria sua marca registrada.


Segunda edição: Livros I, II e III (1588)

A edição de 1588, publicada em Paris pela editora Abel L’Angelier, foi um evento literário de primeiro plano. Montaigne acrescentou 600 novas passagens aos dois livros anteriores e adicionou o terceiro livro, com seus treze ensaios, que são os mais longos, os mais maduros e os mais radicalmente pessoais de toda a coleção.

O terceiro livro representa uma virada decisiva no pensamento de Montaigne. O estoicismo que havia marcado o primeiro livro está quase totalmente abandonado. O Montaigne do terceiro livro aceita a contradição, abraça o prazer sem culpa, celebra a amizade, ironiza o heroísmo, defende a moderação, e reflete sobre a experiência de envelhecer com uma lucidez que não tem paralelo na literatura de sua época.

Os ensaios centrais do terceiro livro merecem uma atenção especial:

“Da experiência” fecha o terceiro livro e é frequentemente considerado o ensaio-síntese de toda a obra. Montaigne argumenta que a experiência vivida é o único mestre verdadeiro, superior a qualquer ensinamento abstrato, e vai conduzindo essa reflexão por uma série de digressões que tocam na medicina, na lei, no governo de si mesmo, na alimentação, no sono, no sexo, na morte. É um ensaio que termina com um dos parágrafos mais notáveis da prosa francesa: um chamamento a viver plenamente, a não desprezar o corpo, a não fugir para abstrações, a ser humano sem vergonha.

“Dos coches” começa como uma especulação sobre por que os movimentos de balanço enjoam algumas pessoas e no final se torna uma das denúncias mais eloquentes e mais precoces da violência da conquista europeia das Américas. Montaigne compara a crueldade dos conquistadores espanhóis com a barbárie que eles atribuíam aos indígenas, e a conclusão é inequivocamente em favor dos segundos.

“Do arrependimento” abre o terceiro livro e contém a formulação mais clara do projeto filosófico de Montaigne: “Cada homem carrega a forma inteira da condição humana.” Aqui, Montaigne explica por que não se arrepende de praticamente nada, não por vaidade ou por insensibilidade moral, mas porque o arrependimento pressupõe um eu fixo que fez uma escolha errada, e ele não acredita num eu fixo. Somos seres em movimento permanente, e o que fomos ontem já não somos hoje.

“Sobre alguns versos de Virgílio” é um dos ensaios mais inesperados e mais reveladores da coleção. Montaigne, com sessenta anos, reflete sobre o sexo, sobre o desejo, sobre o envelhecimento, sobre a hipocrisias das convenções sociais a respeito do erotismo, sobre a diferença entre o que as pessoas fazem em segredo e o que admitem em público. É um texto de uma franqueza desconcertante, escrito com elegância e humor.


Edição definitiva póstuma (1595)

Quando Montaigne morreu, em setembro de 1592, deixou sobre sua mesa de trabalho um exemplar impresso da edição de 1588 densamente coberto de correções manuscritas, acréscimos e modificações. Esse exemplar, chamado pelos estudiosos de “exemplaire de Bordeaux”, é um dos documentos mais preciosos da história literária francesa. Ele está preservado na Bibliothèque municipale de Bordeaux e foi completamente digitalizado e disponibilizado online no século XXI.

Marie de Gournay, a filha adotiva intelectual, usou esse exemplar como base para a edição póstuma publicada em Paris em 1595, três anos após a morte de Montaigne. Essa edição é substancialmente mais rica do que a de 1588, porque incorpora as últimas reflexões e os últimos acréscimos de Montaigne, que estava reescrevendo e adicionando até os meses finais de vida.

Os estudiosos costumam distinguir três camadas estratigráficas nos Ensaios, designadas pelas letras A, B e C: a camada A corresponde ao texto da primeira edição de 1580; a camada B corresponde aos acréscimos da edição de 1588; a camada C corresponde às adições manuscritas do exemplaire de Bordeaux, incorporadas na edição de 1595. Essa estratigrafia é extraordinariamente reveladora, porque permite acompanhar a evolução do pensamento de Montaigne ao longo de duas décadas, ver onde ele mudou de opinião, onde aprofundou uma ideia, onde a contradisse, onde a enriqueceu. Os Ensaios são, nesse sentido, um dos raríssimos documentos da história do pensamento onde é possível observar o movimento vivo de uma inteligência se desenvolvendo no tempo.


Os Ensaios como totalidade: os temas centrais

Para além da estrutura cronológica e editorial, os Ensaios se organizam em torno de alguns núcleos temáticos que retornam constantemente, cada vez tratados de um ângulo diferente, nunca esgotados, nunca encerrados:

A morte: Montaigne retorna à morte em dezenas de ensaios. Como morrem os grandes homens? Como os filósofos encararam a morte? Como ele próprio enfrenta o pensamento da morte? A morte de La Boétie. As epidemias de peste. Os cálculos renais que poderiam matá-lo. A morte dos filhos. O que significa morrer bem. A relação entre a meditação da morte e a plenitude da vida.

O julgamento: Montaigne desconfia sistematicamente dos julgamentos precipitados, dos lugares-comuns morais, das avaliações feitas com base na aparência ou na convenção. O julgamento bem formado, capaz de resistir ao costume, à pressão social, à autoridade, é para ele a mais rara e a mais valiosa das faculdades humanas.

A educação: O que é educar? Para que serve o conhecimento se não forma o caráter? Por que a escola produz cabeças cheias em vez de cabeças bem formadas? Qual é a diferença entre saber e compreender? Como a imitação dos grandes modelos antigos deve ser feita: não para repetir, mas para crescer.

O costume e a lei: Por que obedecemos às leis? Não porque sejam justas, mas porque são as leis. Essa distinção, que Montaigne faz com total clareza, é de uma modernidade impressionante: separa radicalmente a legalidade da legitimidade, o fato do direito, a autoridade da justiça.

A amizade: O que é a amizade perfeita? Por que é tão rara? Como distingui-la das relações baseadas em utilidade ou em prazer? E o que resta quando o amigo perfeito morre?

O corpo: Contra a tradição filosófica que desprezava o corpo, Montaigne o celebra com curiosidade médica e com alegria. Seu próprio corpo envelhecendo, doendo, funcionando ou deixando de funcionar, é um dos objetos mais constantes de observação dos Ensaios.


4. Journal de voyage en Italie par la Suisse et l’Allemagne (escrito em 1580-1581, publicado em 1774)

Este é o segundo grande texto de Montaigne, e sua história editorial é tão dramática quanto o conteúdo. O Journal foi escrito durante a viagem que Montaigne fez pela Europa entre junho de 1580 e novembro de 1581. Foi descoberto por acaso em 1770 por um abbé chamado Prunis, que encontrou o manuscrito num baú no castelo de Montaigne, e publicado em 1774 pelo abade de Querlon.

O Journal foi escrito em parte pelo próprio Montaigne e em parte por um secretário anônimo a quem Montaigne ditava suas observações. Há uma divisão bastante clara no texto entre as passagens ditadas ao secretário e as partes escritas diretamente por Montaigne. As primeiras são geralmente mais descritivas e mais impessoais; as segundas são reconhecidamente montaignianas na voz, no humor e na digressão.

O texto percorre a França (especialmente a Lorena e as termas de Plombières), depois a Alemanha, a Suíça, e por fim a Itália: Milão, Florença, Siena, Roma, Nápoles, Veneza, Ferrara, Pisa e dezenas de cidades menores. Em Roma, Montaigne passou mais de quatro meses.

O Journal interessa por várias razões distintas e todas elas de peso.

Primeiro, como documento médico e autobiográfico. Os cálculos renais de Montaigne estão no centro de muitas páginas. Ele descreve as dores com uma precisão clínica desconcertante, registra cada pedra que expele com características físicas detalhadas (tamanho, forma, cor, textura), anota meticulosamente os efeitos de cada banho termal sobre seu estado de saúde. Esse material tem sido utilizado por historiadores da medicina para estudar o tratamento de doenças urológicas no século XVI, mas tem também um interesse filosófico imediato: é o mesmo homem que nos Ensaios reflexiona sobre a doença e o corpo agora registrando a experiência bruta, sem elaboração filosófica, em tempo real.

Segundo, como documento de curiosidade etnográfica e cultural. Montaigne observa tudo: arquitetura, culinária, práticas religiosas, cerimônias civis, costumes funerários, modos de vestir, dialetos. Em cada cidade, busca contato com pessoas de diferentes condições sociais, interessa-se mais pela vida cotidiana do que pelos monumentos. Quando visita a sinagoga de Roma e assiste a um sermão em hebraico, registra a experiência com atenção e sem julgamento. Quando assiste a uma execução pública em Roma, analisa o comportamento da multidão com o mesmo olhar distanciado e penetrante.

Terceiro, como contraponto aos Ensaios. O Journal é o único texto de Montaigne escrito sem intenção de publicação. Isso significa que é possível observar ali uma espontaneidade diferente da dos Ensaios, onde Montaigne sabia que estava se dirigindo a leitores. A comparação entre o que Montaigne escreve no Journal sobre, por exemplo, Roma, e o que escreve nos Ensaios sobre a mesma experiência, é reveladora da diferença entre o registro imediato e a elaboração filosófica posterior.

Quarto, como documento histórico de primeira grandeza. O Journal registra a Europa do final do século XVI com uma riqueza de detalhe que poucas fontes da época podem igualar: o estado das estradas, o preço das pousadas, a qualidade da água nas cidades, a organização dos mercados, a língua que se falava nesta ou naquela cidade. É um documento de história social que os historiadores continuam explorando.


5. As Cartas

Montaigne deixou um corpus de cartas que, embora modesto em número, contém textos de importância biográfica e filosófica considerável.

A mais importante é a Carta ao Pai sobre a morte de La Boétie, escrita em agosto de 1563, poucos dias após a morte do amigo. Nessa carta, Montaigne descreve com detalhe os últimos dias de La Boétie: a doença, o progresso da deterioração física, as conversas que os dois tiveram durante os dias em que La Boétie agonizava, as últimas palavras do moribundo, sua serenidade filosófica diante do fim. É um documento extraordinário por vários motivos. Primeiro, porque é o único texto em que Montaigne escreve sobre La Boétie de forma direta, não filtrada pela elaboração dos Ensaios. A emoção é palpável, e há momentos em que a compostura literária do escritor cede à dor pura do homem que está perdendo seu companheiro. Segundo, porque é um documento filosófico: La Boétie morreu como um estoico, e Montaigne registra com admiração cada palavra que o amigo pronunciou diante da morte, cada gesto de equanimidade e de dignidade. A carta é, implicitamente, um modelo filosófico: assim é que se deve morrer, parece dizer Montaigne ao pai. E é impossível não perceber que o jovem Montaigne de trinta anos está observando a morte do amigo como uma lição que vai guardar para a vida inteira.

Há também cartas a figuras públicas, a clientes que buscavam sua mediação política, a amigos e correspondentes. Algumas foram publicadas em vida ou pouco depois de sua morte. O corpus completo das cartas de Montaigne não é muito extenso, o que é em si mesmo significativo: ao contrário de humanistas como Erasmo, que usava a carta como forma literária e instrumento de influência, Montaigne não cultivou a correspondência como expressão privilegiada. Seu veículo era o ensaio.


6. As Éphémérides de Beuther: as anotações marginais

Este é um texto que os especialistas debatem se deve ser incluído entre as obras de Montaigne, mas que merece menção porque é revelador de um hábito mental característico. Montaigne possuía um almanaque perpétuo de Michel de Beuther, uma espécie de calendário histórico enciclopédico, e nele anotou à mão, durante anos, eventos importantes de sua vida e de sua família: nascimentos, mortes, casamentos, doenças, acontecimentos políticos relevantes. Essas anotações marginais foram descobertas pelos estudiosos e publicadas em edições críticas modernas. São fragmentárias e em sua maioria secas, do ponto de vista literário, mas fornecem dados biográficos preciosos e mostram o Montaigne privado, o homem que registra a passagem do tempo à margem de um livro que ele não escreveu, como quem conversa baixinho consigo mesmo nas bordas da história.


Nota Final sobre o Corpus

A obra de Montaigne é, em termos de volume, relativamente pequena quando comparada com a de outros gigantes do pensamento ocidental. Não há sistema, não há tratados em vários tomos, não há uma filosofia construída tijolo por tijolo com a precisão arquitetônica de um Aristóteles ou de um Kant. O que há é um único livro que Montaigne nunca considerou acabado, crescendo e se ramificando ao longo de vinte anos; um diário de viagem que ele nunca publicou; uma tradução feita a pedido do pai; um conjunto de cartas; e algumas notas marginais. É uma obra que cabe num só volume moderado.

E, no entanto, essa obra pequena em extensão é de uma densidade intelectual e de uma riqueza humana que poucas obras maiores conseguem igualar. Isso se deve ao princípio fundamental que a governa: cada linha foi escrita não para preencher um espaço, não para cumprir uma obrigação retórica, não para impressionar, mas porque Montaigne tinha genuinamente algo a dizer, algo que havia observado em si mesmo ou no mundo, algo que lhe parecia verdadeiro o suficiente para ser posto em palavras. A austeridade quantitativa dos Ensaios é, em si mesma, uma declaração filosófica.

Michel de Montaigne — Frases Célebres

Todas retiradas dos Ensaios ou das obras documentadas de Montaigne, com indicação do livro e capítulo de origem. As frases são apresentadas em tradução para o português, fiel ao sentido do original francês.


  1. “Porque era ele, porque era eu.” (Ensaios, Livro I, Cap. 28 — Da amizade)
  2. “Que sei eu?” (Ensaios, Livro II, Cap. 12 — Apologia de Raimond Sebond)
  3. “Cada homem carrega a forma inteira da condição humana.” (Ensaios, Livro III, Cap. 2 — Do arrependimento)
  4. “A maior coisa do mundo é saber pertencer a si mesmo.” (Ensaios, Livro I, Cap. 39 — Da solidão)
  5. “Meu ofício e minha arte é viver.” (Ensaios, Livro II, Cap. 6 — Da prática)
  6. “Não pinto o ser, pinto a passagem.” (Ensaios, Livro III, Cap. 2 — Do arrependimento)
  7. “Filosofar é aprender a morrer.” (Ensaios, Livro I, Cap. 20 — título do ensaio)
  8. “Mais vale uma cabeça bem-feita do que bem cheia.” (Ensaios, Livro I, Cap. 26 — Da educação das crianças)
  9. “Quando brinco com minha gata, quem sabe se ela não brinca mais comigo do que eu com ela?” (Ensaios, Livro II, Cap. 12 — Apologia de Raimond Sebond)
  10. “Quero que a morte me encontre plantando meus couves.” (Ensaios, Livro I, Cap. 20 — Que filosofar é aprender a morrer)
  11. “É uma perfeição absoluta e quase divina saber gozar lealmente do próprio ser.” (Ensaios, Livro III, Cap. 13 — Da experiência)
  12. “Cada um chama de barbárie o que não faz parte de seus costumes.” (Ensaios, Livro I, Cap. 31 — Dos canibais)
  13. “A alma que não tem objetivo estabelecido se perde.” (Ensaios, Livro I, Cap. 8 — Da ociosidade)
  14. “Há mais a fazer para interpretar as interpretações do que para interpretar as próprias coisas.” (Ensaios, Livro III, Cap. 13 — Da experiência)
  15. “Deve-se emprestar ao outro, mas não dar-se senão a si mesmo.” (Ensaios, Livro III, Cap. 10 — De gerir a própria vontade)
  16. “Nossa grande e gloriosa obra-prima é viver apropriadamente.” (Ensaios, Livro III, Cap. 13 — Da experiência)
  17. “A glória e o repouso são coisas que não podem habitar a mesma morada.” (Ensaios, Livro I, Cap. 39 — Da solidão)
  18. “Há mais selvageria em comer um homem vivo do que em comê-lo morto.” (Ensaios, Livro I, Cap. 31 — Dos canibais)
  19. “O homem é bem insensato: não saberia fabricar um ácaro e fabrica deuses às dúzias.” (Ensaios, Livro II, Cap. 12 — Apologia de Raimond Sebond)
  20. “Não há desejo mais natural do que o desejo de conhecimento.” (Ensaios, Livro III, Cap. 13 — Da experiência)
  21. “A covardia é mãe da crueldade.” (Ensaios, Livro II, Cap. 27 — Da covardia mãe da crueldade)
  22. “Os reis e os filósofos defecam, e as damas também.” (Ensaios, Livro III, Cap. 13 — Da experiência)
  23. “Não posso fixar meu objeto: ele vai confuso e vacilante, por embriaguez natural.” (Ensaios, Livro III, Cap. 2 — Do arrependimento)
  24. “A presunção é nossa doença natural e original.” (Ensaios, Livro II, Cap. 17 — Da presunção)
  25. “A inconstância parece-me o mais comum e aparente vício da nossa natureza.” (Ensaios, Livro II, Cap. 1 — Da inconstância das nossas ações)
  26. “Defender uma opinião com obstinação e ardor é prova certa de estupidez.” (Ensaios, Livro III, Cap. 8 — Da arte de conversar)
  27. “Poucos homens foram admirados por seus próprios domésticos.” (Ensaios, Livro III, Cap. 2 — Do arrependimento)
  28. “Meu objeto sou eu mesmo.” (Ensaios, Livro III, Cap. 2 — Do arrependimento)
  29. “A crueldade é o mais extremo de todos os vícios.” (Ensaios, Livro II, Cap. 11 — Da crueldade)
  30. “A vida em si não é nem bem nem mal: é o lugar do bem e do mal, conforme o que você faz dela.” (Ensaios, Livro I, Cap. 20 — Que filosofar é aprender a morrer)

Nota sobre autenticidade e atribuição

Montaigne é um dos autores mais citados e mais falsamente citados da história intelectual ocidental. Circulam na internet e em coletâneas populares dezenas de frases atribuídas a ele que nunca escreveu. As mais comuns entre as falsas atribuições são variações de pensamentos de Sêneca, Pascal ou simplesmente de autoria anônima que alguém rotulou com seu nome ao longo dos séculos. Todas as frases acima foram verificadas quanto à origem nos Ensaios, com indicação do livro e capítulo correspondentes. A única ressalva geral é que qualquer tradução implica uma interpretação, e versões diferentes de tradutores diferentes podem variar em vocabulário, embora o sentido central permaneça fiel ao original francês.

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