O que o medo da morte tem a ver com o terrorismo? Uma tese que todo mundo deveria ler
O que o medo da morte tem a ver com o terrorismo? Uma tese que todo mundo deveria ler
Terror Management Theor – Roman Prinz
Por que pessoas comuns, muitas vezes dotadas de família, afetos e vida estável, chegam ao ponto de plantar uma bomba ou explodir a si mesmas em locais públicos? A resposta convencional costuma apontar para pobreza, fanatismo religioso ou lavagem cerebral. Prinz vai mais fundo: propõe que o comportamento terrorista nasce, entre outras coisas, de uma crise existencial no mais puro sentido da palavra, uma crise que tem raízes na consciência humana da finitude e no modo como a mente responde quando essa consciência é ameaçada.
O trabalho de Prinz não é apenas uma revisão teórica. Trata-se de uma análise cuidadosa de sete estudos empíricos conduzidos por Landau e colaboradores em 2004, conectando-os ao modelo da Escada para o Terrorismo (Staircase to Terrorism) de Fathali Moghaddam, um dos mais respeitados estudiosos da radicalização. Ao longo de suas páginas, o autor demonstra que as visões de mundo culturais, aquilo que cada grupo humano considera sagrado, justo e real, funcionam como escudos psicológicos contra a ansiedade existencial.
Quando esse escudo é ameaçado por uma cultura rival, o cérebro humano ativa mecanismos de defesa que podem, em circunstâncias específicas, escalar para hostilidade aberta, desumanização do outro e, no extremo mais radical da escada, para o ato terrorista. Este artigo percorre esse caminho com você, passo a passo, de forma que ao final você nunca mais veja as notícias sobre terrorismo da mesma maneira.
OBJETIVO DO LIVRO
O objetivo central da obra é investigar se a Terror Management Theory oferece ferramentas concretas para entender não apenas as causas psicológicas do terrorismo, mas também para desenvolver estratégias eficazes de prevenção de longo prazo, propondo que combater o terror não começa com armamento ou inteligência militar, mas com uma compreensão profunda de como a mente humana processa a existência, a morte e a ameaça cultural.
Roman Prinz
É o autor desta tese de bacharel, concluída por volta de 2010 na Universidade de Maastricht, uma das instituições holandesas mais reconhecidas internacionalmente, especialmente em psicologia e neurociência. A Universidade de Maastricht é conhecida por seu método de aprendizagem baseado em problemas (Problem-Based Learning), o que significa que estudantes como Prinz são treinados desde cedo para conectar teoria científica a questões do mundo real, exatamente o que esta tese exemplifica com maestria.
Embora informações biográficas detalhadas sobre Prinz sejam escassas na própria publicação (o trabalho foi publicado pela GRIN Verlag, uma editora alemã especializada em textos acadêmicos, e digitalizado pela Internet Archive em 2024), o que o trabalho revela sobre sua inteligência intelectual é eloquente por si só: um estudante de graduação que conseguiu conectar filosofia existencial, psicologia experimental, ciência do terrorismo e teoria da comunicação em um argumento coeso, rigoroso e extraordinariamente relevante.
O texto foi composto enquanto o mundo ainda processava os traumas do 11 de setembro e os conflitos do Oriente Médio dominavam o noticiário global, o que confere ao trabalho uma urgência e um peso que transcendem o contexto acadêmico no qual nasceu.
O que o medo da morte tem a ver com o terrorismo? Uma tese que todo mundo deveria ler
TERROR MANAGEMENT THEORY: O QUE O MEDO DA MORTE TEM A VER COM O TERRORISMO
Um artigo baseado na tese de Roman Prinz, Maastricht University, 2010
PARTE 1: INTRODUÇÃO AO TERRORISMO E AOS FUNDAMENTOS DA TMT
RESUMO DA PARTE
Prinz abre sua tese com uma questão que deveria habitar permanentemente as salas de tomada de decisão dos governos: por que alguém se torna terrorista? Não no sentido superficial da pergunta (por ódio, por fanatismo), mas na profundidade dos mecanismos psicológicos que transformam um cidadão insatisfeito em alguém disposto a tirar a própria vida e a de outros em nome de uma causa. Para organizar essa investigação, o autor recorre ao modelo da Escada para o Terrorismo, proposto pelo psicólogo iraniano-americano Fathali Moghaddam.
A metáfora é simples e devastadoramente eficaz: a jornada para o terrorismo é como subir uma escada. No térreo, estão todos os cidadãos que sentem algum grau de insatisfação, injustiça ou privação. A maioria nunca sobe. Alguns sobem um degrau, depois dois, e à medida que sobem, as portas de saída diminuem, as escolhas se estreitam, e a violência, antes impensável, torna-se a única saída visível. O que determina quem sobe e quem fica é uma combinação de fatores psicológicos, sociais e existenciais que a Terror Management Theory ilumina com precisão cirúrgica.
A interação entre o medo da morte, a necessidade de uma visão de mundo coerente e a percepção de ameaça cultural cria um caldeirão que, em condições específicas, transborda em violência extrema. A consciência desse processo é, segundo Prinz, o pré-requisito indispensável para qualquer estratégia séria de prevenção.
PONTOS-CHAVE
O terrorismo é definido como violência politicamente ou religiosamente motivada, praticada por grupos ou indivíduos com o objetivo de influenciar decisões políticas e instalar o medo na população. Não existe uma definição universal do termo, mas essa funciona bem para os propósitos analíticos da obra.
A Escada para o Terrorismo de Moghaddam tem seis andares: no térreo, a percepção subjetiva de injustiça; no primeiro andar, a avaliação de oportunidades para melhorar a própria situação; no segundo, o raciocínio de que só existe uma saída; no terceiro, a adoção de uma moralidade paralela que justifica a violência; no quarto, a imersão total na célula terrorista; no quinto, a desumanização das vítimas e a execução do ataque.
A TMT argumenta que a adesão a uma visão de mundo cultural serve como amortecedor da ansiedade existencial, e que a mera existência de uma visão de mundo rival já é suficiente para ativar mecanismos de defesa que podem, em casos extremos, resultar em hostilidade aberta e violência. O simbolismo, os estereótipos e a hostilidade são as três manifestações psicológicas centrais dessa dinâmica.
REFLEXÃO CRÍTICA
O que mais impressiona nesta primeira parte da tese de Prinz não é apenas a elegância com que ele conecta duas teorias de origens distintas, a TMT de Ernest Becker e o modelo de Moghaddam, mas a radicalidade implícita na conclusão: se a consciência da morte está na raiz do comportamento terrorista, então nunca poderemos eliminar o terrorismo simplesmente eliminando terroristas. Cada líder assassinado pode ser substituído por outro cidadão insatisfeito que sente seu guarda-chuva ameaçado.
Essa é uma crítica à lógica militar predominante que muito poucos políticos têm coragem de enunciar publicamente. Do ponto de vista da filosofia e da psicologia, a TMT nos força a confrontar algo ainda mais perturbador: o mesmo mecanismo que pode levar alguém ao terrorismo é o mecanismo que faz todos nós abraçarmos mais fortemente nossas identidades culturais, religiosas e nacionais depois de uma tragédia.
O americano que exibe a bandeira dos Estados Unidos na janela depois do 11 de setembro e o jovem radicalizado que adere a uma organização extremista depois de ver sua comunidade bombardeada estão, do ponto de vista da TMT, respondendo ao mesmo gatilho com o mesmo mecanismo. A diferença está nas condições de vida, no repertório de escolhas disponíveis e no discurso que cada um encontra para interpretar sua dor. Isso não é relativismo moral. É ciência do comportamento humano. E reconhecer isso é o único ponto de partida honesto para uma conversa séria sobre prevenção.
APLICAÇÕES PRÁTICAS
Em termos práticos, as implicações desta seção são imediatas. Governos que querem prevenir a radicalização deveriam investir muito menos em drones e muito mais em programas que ofereçam, às comunidades vulneráveis, meios concretos de mobilidade social, participação política e reconhecimento cultural. Um jovem periférico brasileiro que sente que sua voz não existe para o Estado, que sua cultura é invisível e que sua vida não tem valor diante dos olhos da sociedade está, em algum nível, no térreo da escada de Moghaddam. Ele ainda não sobe. Mas se nada mudar, e se alguém chegar com um discurso que lhe ofereça identidade, pertencimento e a promessa de que sua morte seria significativa, o primeiro degrau fica perigosamente próximo. Esse é o mecanismo que alimenta não apenas o terrorismo islâmico do Oriente Médio, mas também gangues, milícias e movimentos extremistas em qualquer parte do mundo onde o Estado falhou em ofertar existência digna.
PARTE 2: OS SETE ESTUDOS EMPÍRICOS
RESUMO DA PARTE
Esta é a parte mais técnica e, ao mesmo tempo, mais fascinante da tese. Landau e colaboradores conduziram sete experimentos para testar como a saliência da mortalidade (mortality salience, MS), ou seja, o simples fato de ser lembrado da própria morte, altera o modo como as pessoas processam informações sociais, julgam outras pessoas e constroem sua percepção de realidade. Os resultados são, no mínimo, desconcertantes.
Quando pensamos na morte, mesmo que brevemente e em contexto de laboratório, nosso cérebro muda de funcionamento de formas que não percebemos conscientemente. Passamos a ter impressões mais rígidas sobre as pessoas, a confiar mais em estereótipos, a preferir comportamentos consistentes e previsíveis, a gostar mais de pessoas que validam nossa visão de mundo e a julgar negativamente as vítimas de tragédias para preservar a ilusão de que o mundo é justo.
Cada um desses sete estudos é uma janela diferente para o mesmo fenômeno: quando a consciência da finitude é ativada, o cérebro humano fecha-se em busca de estrutura, ordem e coerência. E essa busca, que é perfeitamente compreensível do ponto de vista evolutivo, é exatamente o combustível psicológico que alimenta o preconceito, a desumanização e, em última instância, a violência.
PONTOS-CHAVE
- O Estudo 1 (Primazia de Impressão) mostrou que pensar na morte faz as pessoas se apegarem ainda mais à primeira impressão que formam sobre alguém, ignorando informações posteriores que a contradigam.
- O Estudo 2 (Heurística de Representatividade) demonstrou que a saliência da mortalidade amplifica o uso de estereótipos ao categorizar pessoas.
- O Estudo 3 (Consistência Comportamental) revelou que indivíduos com alta Necessidade Pessoal de Estrutura (PNS) respondem à lembrança da morte rejeitando ativamente pessoas que se comportam de forma inconsistente ou imprevisível.
- O Estudo 4 (Equilíbrio Interpessoal) mostrou preferência aumentada por relações interpessoais equilibradas e harmoniosas quando a mortalidade está saliente.
- O Estudo 5 (Degradação da Vítima) revelou que diante de uma tragédia injusta, pessoas com alta PNS buscam informações negativas sobre a vítima para preservar a crença de que o mundo é justo.
- O Estudo 6 (Mundo Justo e Acessibilidade de Pensamentos sobre Morte) demonstrou que a injustiça amplia pensamentos sobre a morte em pessoas com alta PNS.
- O Estudo 7 (Causação Benevolente) mostrou que, ao pensar na morte, as pessoas tendem a preferir narrativas onde eventos negativos levam a resultados positivos, o popular “tudo acontece por uma razão”.
REFLEXÃO CRÍTICA
O conjunto desses sete estudos é, intelectualmente, explosivo. Pense no que eles estão dizendo, juntos: quando a morte está em nossa mente, ficamos mais preconceituosos, mais rígidos, mais inclinados a ver o mundo em preto e branco, mais propensos a culpar as vítimas e mais receptivos a narrativas que prometam um sentido oculto por trás da tragédia. Agora pense em como os meios de comunicação cobrem atentados terroristas. Imagens de destruição, contagens de mortos, transmissões ao vivo de hospitais e cemitérios.
Toda essa cobertura é, do ponto de vista da TMT, uma imensa indução de saliência da mortalidade para toda a população exposta. E se os estudos estão certos, isso significa que assistir à cobertura de um atentado terrorista nos torna, temporariamente, mais preconceituosos, mais dependentes de estereótipos e mais hostis a quem percebemos como ameaça à nossa visão de mundo. Em outras palavras, o terrorismo não precisa matar a maioria das pessoas para cumprir seu objetivo psicológico.
Basta que as imagens cheguem ao cérebro de milhões. A mídia se torna, involuntariamente, um amplificador do terror existencial que é o verdadeiro produto que os terroristas querem distribuir. Isso nos obriga a repensar não apenas a política de segurança pública, mas a ética e a responsabilidade da cobertura jornalística de eventos extremos.
APLICAÇÕES PRÁTICAS
As aplicações práticas desta seção são múltiplas e imediatas. No campo da comunicação de crise, governos e emissoras deveriam desenvolver protocolos que informem sem amplificar o pânico existencial. No campo da educação, professores que trabalham com jovens em comunidades vulneráveis deveriam ser treinados para reconhecer quando um aluno está em crise de identidade cultural e oferecer narrativas alternativas de pertencimento antes que organizações extremistas o façam.
No campo da política pública, programas de integração de imigrantes deveriam incluir componentes que reconheçam explicitamente a visão de mundo cultural dos recém-chegados, em vez de exigir sua supressão como condição de aceitação. A Teoria do Gerenciamento do Terror nos diz que quando uma pessoa sente que sua visão de mundo é respeitada, sua ansiedade existencial diminui, e com ela, a vulnerabilidade à radicalização. Esse é um dado de psicologia com implicações diretas para a gestão de sociedades plurais.
PARTE 3: DISCUSSÃO E PREVENÇÃO DO TERRORISMO
RESUMO DA PARTE
Na terceira e última parte, Prinz conecta todos os fios da trama e propõe um argumento corajoso: a melhor estratégia para prevenir o terrorismo não é militar, mas educacional e intercultural. Partindo dos resultados dos sete estudos e do modelo de Moghaddam, ele argumenta que qualquer abordagem preventiva precisa atuar no térreo da escada, antes que a escalada comece.
Isso significa criar condições onde jovens de diferentes visões de mundo culturais possam interagir, construir relações, desenvolver o que o psicólogo social chama de Categorização Cruzada, a experiência de descobrir que alguém diferente de você também tem algo em comum com você. Quando isso acontece, o outro deixa de ser um inimigo abstrato e passa a ser uma pessoa concreta.
E pessoas concretas ativam nossos mecanismos de inibição da violência. Prinz não é ingênuo: reconhece que reformar sistemas educacionais é lento, caro e politicamente complicado. Mas argumenta que, comparado com décadas de conflitos, uma ou duas gerações de investimento em educação intercultural seria um custo irrisório. Esta não é apenas a parte mais política da tese. É, provavelmente, a mais honesta.
PONTOS-CHAVE
A eliminação física de líderes terroristas oferece soluções de curto prazo, pois cada um pode ser facilmente substituído por outro cidadão insatisfeito. A prevenção eficaz precisa acontecer no nível do térreo: reduzindo a percepção de injustiça, ampliando oportunidades reais de mobilidade social e garantindo participação política genuína.
Educação intercultural, que exponha jovens de diferentes visões de mundo culturais a experiências compartilhadas, tem o potencial de criar categorização cruzada e reduzir a hostilidade baseada em grupo. A comunicação transparente entre governos e cidadãos é fundamental para reduzir a sensação de abandono que empurra indivíduos para a escada.
Nenhum fator isolado (pobreza, religião, cultura) explica o terrorismo. O que explica é uma combinação específica de condições psicológicas, sociais e existenciais que a TMT ajuda a mapear com precisão sem precedentes.
REFLEXÃO CRÍTICA
A proposta de Prinz de uma educação intercultural como ferramenta de prevenção ao terrorismo é, ao mesmo tempo, a parte mais esperançosa e a mais desafiadora de toda a tese. Ela é esperançosa porque sugere que o problema tem solução, que o comportamento humano pode ser moldado por experiências de contato genuíno com o outro. E é desafiadora porque exige algo que os governos raramente têm: paciência estratégica, vontade de investir em resultados que só aparecerão décadas depois.
Há aqui também uma tensão filosófica importante que o autor toca sem desenvolver completamente: se cada visão de mundo cultural serve como escudo contra a ansiedade existencial, como criar uma educação intercultural que não seja percebida como uma ameaça a essa visão de mundo? Como convencer uma comunidade profundamente religiosa a expor seus filhos a valores seculares sem que isso seja vivido como uma agressão à sua identidade mais íntima?
Essas perguntas não têm respostas simples, mas o simples fato de formulá-las a partir de um arcabouço científico, em vez de político ou ideológico, já representa um avanço considerável na qualidade do debate público.
APLICAÇÕES PRÁTICAS
Em termos práticos, organizações como a UNESCO, o UNICEF e as secretarias de educação de países com alto índice de vulnerabilidade à radicalização poderiam usar os achados desta tese para desenhar programas concretos. Intercâmbios escolares entre jovens de comunidades em conflito, não apenas intercâmbios entre países ricos, mas entre periferias e centros urbanos dentro do mesmo país, têm o potencial de criar as experiências de categorização cruzada que Prinz descreve.
No Brasil, por exemplo, um programa que promovesse encontros regulares entre jovens de favelas e jovens de bairros abastados, não de forma caritativa, mas como troca genuína de saberes e visões de mundo, poderia reduzir a percepção mútua de ameaça que alimenta a violência urbana com a mesma lógica que alimenta o terrorismo internacional.
IMPACTO NA SOCIEDADE
Vivemos em uma era em que a velocidade da informação transforma qualquer atentado terrorista em um evento global de saliência de mortalidade coletiva, e onde algoritmos de redes sociais amplificam exatamente o tipo de conteúdo que provoca ansiedade existencial e fortalece identidades de grupo em detrimento da empatia intercultural.
O legado da Terror Management Theory, conforme apresentado por Roman Prinz, não poderia ser mais urgente: se não compreendermos os mecanismos psicológicos profundos que transformam o medo da morte em hostilidade, preconceito e, eventualmente, violência, continuaremos respondendo ao terrorismo com as únicas ferramentas que conhecemos, bombas, prisões e retórica de guerra, que são, paradoxalmente, as ferramentas que mais eficientemente alimentam o ciclo que queremos interromper.
A MENSAGEM PARA A GERAÇÃO ATUAL
Você, que cresceu no mundo das redes sociais, da polarização acelerada e das narrativas de “nós contra eles” empurradas por algoritmos, tem uma relação com o medo da morte que gerações anteriores não tinham da mesma forma. Não porque você seja mais fraco ou mais ansioso por natureza. Mas porque as condições ao seu redor foram projetadas, muitas vezes intencionalmente, para manter sua saliência de mortalidade ativa.
Cada manchete catastrófica, cada vídeo de tragédia compartilhado sem filtro, cada discurso político que te faz sentir que o mundo está à beira do colapso é, do ponto de vista da TMT, uma injeção de ansiedade existencial no seu sistema nervoso. E quando a ansiedade existencial é alta, o cérebro fecha-se. Busca estrutura. Desconfia do diferente. Abraça com mais força a própria tribo.
O que a ciência presenteada nesta tese pede à sua geração é um ato de coragem intelectual: reconhecer que muito do que você sente como convicção profunda, seja política, religiosa ou cultural, tem pelo menos uma parte de sua força vinda não da razão, mas do medo. Isso não invalida suas crenças. Mas deveria convidá-lo a interrogá-las com mais gentileza, a perguntar: estou abraçando essa ideia porque ela é verdadeira, ou porque ela me protege de um terror que não sei nomear?
A geração atual enfrenta um desafio sem precedentes históricos: construir sociedades plurais em um ambiente informacional que recompensa a divisão e pune a nuance. A Terror Management Theory diz que o primeiro passo é entender o inimigo interno antes de combater o externo. Esse inimigo não é a morte em si, que é inevitável e, em certo sentido, a condição que confere sentido à vida. O inimigo é a ansiedade não processada que a consciência da morte gera, e que, sem interlocução, sem filosofia, sem arte, sem comunidade, sem ciência, se transforma em hostilidade, em preconceito, em ódio.
A mensagem mais profunda que este livro entrega à sua geração é esta: a paz não começa na fronteira entre países, nem nos acordos entre governos. Ela começa no espaço interior de cada pessoa que decide, conscientemente, não deixar o medo da própria finitude se transformar em arma contra o outro.
CONCLUSÃO
Ao longo desta obra, Roman Prinz nos conduz por um terreno onde filosofia, psicologia, neurociência e ciência política se encontram para oferecer uma das análises mais perturbadoras e, paradoxalmente, mais esperançosas sobre a violência humana. A Terror Management Theory não é uma teoria sobre terroristas.
É uma teoria sobre todos nós, sobre a condição humana de saber que somos mortais e de precisar, urgentemente, que essa vida signifique algo. O terrorismo é o fracasso coletivo de sociedades que não souberam oferecer a seus membros mais vulneráveis nem significado, nem pertencimento, nem visibilidade, e que deixaram esse vazio ser preenchido por discursos de morte disfarçados de salvação.
Compreender isso não é um exercício acadêmico abstrato. É o ato político mais radical possível: reconhecer que o comportamento humano, por mais monstruoso que pareça, tem causas identificáveis, e que causas identificáveis podem ser endereçadas por políticas inteligentes, por educação genuína, por comunicação honesta e por sociedades corajosas o suficiente para oferecer a cada cidadão não apenas sobrevivência, mas existência.
Este é o desafio que Roman Prinz nos deixa com sua tese, e é um desafio que esta geração, mais do que qualquer outra, tem a responsabilidade e as ferramentas intelectuais para enfrentar.
FRASES MEMORÁVEIS
- “O terrorista e o patriota respondem ao mesmo medo com o mesmo mecanismo. O que os separa é o repertório de escolhas que a sociedade lhes ofereceu.”
- “Matar um terrorista é como apagar uma faísca depois que o feno já pegou fogo. A prevenção começa antes da faísca existir.”
- “Toda visão de mundo é, em alguma medida, um escudo contra a morte. A questão não é se o escudo existe. É o que fazemos quando o escudo do outro ameaça o nosso.”
- “A consciência da morte não nos torna violentos. Nos torna humanos. O que nos torna violentos é não termos aprendido a viver com essa consciência.”
- “Sociedades que ignoram a ansiedade existencial de seus cidadãos não acabam com o terrorismo. Apenas terceirizam a gestão desse terror para quem está disposto a transformá-lo em arma.”

Térreo — Percepção de injustiça e privação relativa
O ponto de partida do modelo é a avaliação subjetiva que todos os seres humanos fazem de suas condições de vida. O conceito central aqui é a privação relativa (relative deprivation), introduzido por Walter Runciman na década de 1960 e considerado até hoje um dos pilares teóricos mais sólidos para explicar a violência política.
A privação relativa não é uma condição absoluta — é a sensação de não ter recebido o que se merecia, derivada da comparação com o que outras pessoas têm. Em sociedades com mobilidade vertical, são milhões os indivíduos insatisfeitos que habitam esse térreo.
O ponto crucial é que Moghaddam enfatiza a privação percebida, não a pobreza objetiva. Um jovem de classe média que sente que sua identidade cultural é desprezada pela sociedade pode estar tão vulnerável quanto alguém em situação de miséria extrema.
Pesquisas empíricas confirmam que indivíduos radicalizados apresentam maior probabilidade de perceber falta de representação político-partidária e desemprego em comparação com a população geral, o que os expõe a fontes centrais de ressentimento em linha com a teoria da privação relativa.
Exemplo contemporâneo: O fenômeno dos incels (involuntary celibates) no Ocidente — jovens que não são objetivamente pobres, mas que experimentam uma intensa privação relativa de status social e afeto, comparando-se ao que consideram os “privilégios” de outros grupos. Vários ataques terroristas nos EUA, Canadá e Europa entre 2018 e 2024 foram motivados por essa narrativa.
Fontes: Moghaddam (2005), American Psychologist, 60(2); Runciman (1966); van den Bos, K. (2020), Unfairness and radicalization, Annual Review of Psychology, 71, 563–588.
1º Andar — Busca por mobilidade e alternativas legítimas
Aqueles que sobem ao primeiro andar são indivíduos que buscam uma solução para o que percebem como tratamento injusto. Dois fatores psicológicos são cruciais para determinar se o processo de radicalização continuará: o primeiro é a percepção do indivíduo de ser capaz de melhorar seu status social usando seus próprios talentos.
O segundo fator, igualmente decisivo, é a chamada justiça procedimental (procedural justice): a pessoa acredita que as regras do jogo são justas? Que tem voz real nas instituições? Quem encontra essas vias abertas — emprego, participação política, mobilidade social — abandona a escada aqui e toma rotas não violentas.
Moghaddam enfatiza a inadequação e a ameaça à identidade do indivíduo neste estágio. A percepção de bloqueio nas oportunidades de mobilidade pessoal é o que impulsiona a continuação do movimento escada acima.
Exemplo contemporâneo: Os combatentes estrangeiros europeus que foram para a Síria e o Iraque se juntar ao Estado Islâmico entre 2013 e 2019 eram frequentemente filhos de imigrantes de segunda geração — cidadãos europeus que percebiam que, por mais que se esforçassem, não seriam plenamente aceitos. A mobilidade legítima parecia bloqueada não por falta de capacidade, mas por discriminação estrutural percebida. Estima-se que mais de 5.000 europeus ocidentais viajaram ao Iraque e à Síria após o início dos combates em 2011.
Fontes: Moghaddam (2005); Tyler, T.R. (1990), Why People Obey the Law, Yale University Press; Lygre et al. (2011), Scandinavian Journal of Psychology, 52(6).
2º Andar — Deslocamento da agressão para um inimigo
Neste andar, a frustração acumulada transforma-se em raiva direcionada. O indivíduo não consegue mais apenas se sentir injustiçado — ele precisa de um culpado. Aqui entra o mecanismo psicológico do deslocamento da agressão (displaced aggression): quando a fonte real da frustração é intangível ou poderosa demais para ser atacada, a raiva é redirecionada para um alvo substituto — um governo, um grupo étnico, uma religião, um “sistema”.
O segundo andar é caracterizado pela “agressão deslocada”, que ocorre quando é impossível responder agressivamente à fonte original da frustração. Alguns regimes islâmicos, que desabariam sem o apoio americano, promovem uma visão antiamericana do mundo para exteriorizar tensões domésticas — a Arábia Saudita é um exemplo paradoxal, aliada próxima dos EUA e ao mesmo tempo promotora de uma interpretação do Corão que fomenta uma mentalidade de “nós contra eles”.
Exemplo contemporâneo: Na extrema-direita europeia e norte-americana, o discurso da “Grande Substituição” funciona exatamente como este mecanismo: frustações econômicas e de identidade são deslocadas para imigrantes e minorias étnicas, transformados no inimigo que “rouba empregos” e “destrói a cultura”. O manifesto de Brenton Tarrant, responsável pelo massacre de Christchurch em 2019 (51 mortos), é um caso-estudo deste deslocamento.
Na sequência dos ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 e das ações militares israelenses em Gaza, a Europa registrou uma alarmante elevação nas prisões por terrorismo — com quase dois terços dos detidos entre outubro de 2023 e junho de 2024 sendo adolescentes, muitos radicalizados online.
Fontes: Moghaddam (2005); Miller, N. et al. (2003), Displacement of Aggression; Lygre et al. (2011).
3º Andar — Engajamento moral e recrutamento
Este é o andar onde grupos extremistas entram em cena ativamente. O indivíduo já tem raiva, já tem um inimigo — agora precisa de uma estrutura moral que transforme esse ódio em missão sagrada. Moghaddam chama esse processo de moral engagement: a violência passa a ser enquadrada não como crime, mas como dever, resistência ou martírio.
O “engajamento moral” caracteriza o terceiro andar, onde as ações conduzidas por organizações terroristas são percebidas como legítimas e necessárias. Organizações terroristas podem atrair indivíduos para seu universo social, promovendo afiliação, isolamento, sigilo e medo. Mesmo quando terroristas levam uma vida regular, desenvolvem uma vida paralela em completo segredo.
Aqui a identidade social é reforjada: o recruta começa a se ver como parte de uma elite moral, um guerreiro da justiça. Recrutas em potencial recebem a oferta de uma nova identidade social como membros de um grupo seleto que pretende fazer justiça ao mundo.
Exemplo contemporâneo: A máquina de propaganda do ISIS entre 2014 e 2019 operava exatamente neste andar. Vídeos em alta definição, revistas digitais sofisticadas (Dabiq, Rumiyah) e recrutadores ativos no Twitter e Telegram não apenas demonizavam o Ocidente — ofereciam pertencimento, heroísmo e significado espiritual. O ISIS já utilizou aplicações de IA generativa para criação de conteúdo e divulgação de ataques — em 2024, apoiadores lançaram um programa de notícias gerado por IA chamado News Harvest para disseminar vídeos de propaganda.
Fontes: Moghaddam (2005, 2006); Bandura, A. (2004), “The role of selective moral disengagement in terrorism and counterterrorism”, in Moghaddam & Marsella (Eds.), Understanding Terrorism, APA Press; Frazer (2023), Studies in Conflict & Terrorism.
4º Andar — Socialização na célula e ponto de não retorno
Neste andar, o pensamento “nós versus eles” é intensamente promovido. O recruta é isolado de amigos e familiares, um sigilo estrito é imposto e a legitimidade da organização é enfatizada. As pessoas que chegam a este andar raramente se retiram e saem vivas.
Este é o andar da imersão total. O indivíduo é gradualmente cortado de sua rede de suporte original e passa a depender quase exclusivamente do grupo para validação, identidade e significado. Redes de amizade dentro da célula tornam-se a única realidade social relevante.
A literatura científica chama este processo de re-socialização em pequenos grupos — conceito desenvolvido pelo sociólogo Marc Sageman a partir da análise de centenas de jihadistas: a radicalização não é primariamente ideológica, mas social. As pessoas se radicalizam com os amigos.
Exemplo contemporâneo: As investigações sobre os atentados de Madrid (2004) e Londres (2005) revelaram que os perpetradores eram grupos de amigos próximos que se radicalizaram juntos, não solitários captados por uma organização distante. O mesmo padrão foi observado nas células da Bélgica responsáveis pelos ataques de Bruxelas (2016). Pesquisas sobre autopropaganda e radicalização mostram que o processo envolveu a exploração intensiva da internet por pessoas previamente interessadas em conteúdo radicalizado, levando à auto-radicalização e aos subsequentes atos de terror — o que exige ajustes ao modelo original de Moghaddam.
Fontes: Moghaddam (2005); Sageman, M. (2004), Understanding Terror Networks, University of Pennsylvania Press; Lygre et al. (2011).
5º Andar — O ato terrorista e o desengajamento moral
O topo da escada. Para que o ato seja executado, é preciso superar o mais poderoso freio psicológico humano: a inibição de matar outros seres humanos. O mecanismo que permite isso é o desengajamento moral (moral disengagement), conceito central da teoria de Albert Bandura, parceiro intelectual de Moghaddam nesta formulação.
Para ser o mais eficaz possível, qualquer inibição sobre matar pessoas inocentes deve ser superada. Isso é feito por dois meios: a categorização, que enfatiza a diferenciação entre grupo interno e externo, e o distanciamento, que exagera as diferenças entre o grupo interno e o inimigo percebido.
Perceber o outro como humano ativa reações empáticas por meio de um senso de humanidade comum. É difícil maltratar pessoas humanizadas sem autocondena. Portanto, a autocensura por conduta prejudicial pode ser desengajada ou embotada ao se despir as pessoas de qualidades humanas. Se privar os inimigos de sua humanidade não enfraquecer a autocensura, ela pode ser eliminada atribuindo-lhes qualidades demoníacas ou bestiais — tornam-se “criaturas satânicas”, “degenerados”, “vermes”.
Exemplo contemporâneo: Uma análise dos discursos que legitimaram os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 identificou numerosas tentativas de evadir a responsabilidade moral por meio de mecanismos como justificação moral, linguagem sanitizante, comparação vantajosa, difusão de responsabilidade, minimização dos atos criminosos, atribuição de culpa às vítimas e desumanização. O mesmo processo, em sentido inverso, foi documentado em grupos de extrema-direita que prepararam ataques contra mesquitas e sinagogas.
Fontes: Moghaddam (2005); Bandura, A. (2002), “Selective Moral Disengagement in the Exercise of Moral Agency”, Journal of Moral Education, 31(2); Bandura, A. (2016), Moral Disengagement: How People Do Harm and Live with Themselves, Worth Publishers; Blanco et al. (2022), Journal of Interpersonal Violence.
Síntese e implicações para políticas públicas
O argumento mais poderoso de Moghaddam não é o modelo em si — é sua conclusão sobre onde intervir. A política atual de focar nos indivíduos já no topo da escada apenas abre espaço para que novas pessoas avancem. A única forma de combater o terrorismo de verdade é reformar as condições do térreo.
Combater o terrorismo apenas com repressão e inteligência (focando nos andares superiores) é, na metáfora do próprio Moghaddam, como limpar o chão enquanto a torneira continua aberta.
O modelo de Moghaddam tem a vantagem de identificar pontos claros de intervenção em cada estágio, tornando-o altamente útil para o desenvolvimento de programas de desradicalização baseados em educação.
Principais referências científicas:
Moghaddam, F.M. (2005). “The Staircase to Terrorism.” American Psychologist, 60(2), 161–169. • Lygre, R.B. et al. (2011). “Terrorism as a process.” Scandinavian Journal of Psychology, 52(6). • Bandura, A. (2004). “Selective moral disengagement in terrorism.” In Moghaddam & Marsella (Eds.), Understanding Terrorism, APA. • van den Bos, K. (2020). “Unfairness and radicalization.” Annual Review of Psychology, 71. • Sageman, M. (2004). Understanding Terror Networks. University of Pennsylvania Press. • McCauley & Moskalenko (2008). “Mechanisms of Political Radicalization.” Terrorism and Political Violence, 20(3).
O QUE ESTE ARTIGO REALMENTE QUER TE DIZER?
A IDEIA CENTRAL DO LIVRO
O livro parte de uma constatação que poucos de nós estamos dispostos a encarar de frente: o ser humano sabe que vai morrer, e esse conhecimento, que é único no reino animal, cria uma ansiedade de fundo que jamais desaparece completamente. Para lidar com essa ansiedade existencial, a mente desenvolve mecanismos de defesa. Um dos mais poderosos é aderir a uma visão de mundo cultural (no original em inglês, Cultural World View), um conjunto de crenças, valores e narrativas compartilhadas que dão sentido à vida, prometem alguma forma de imortalidade simbólica e garantem que a existência tem propósito.
Pode ser uma religião, uma ideologia política, uma identidade nacional ou um conjunto de valores civilizatórios. Essa visão de mundo funciona como um escudo psicológico contra o pavor da morte. O problema começa quando outra cultura, com outra visão de mundo incompatível, simplesmente existe. A mera presença de uma visão de mundo rival já é suficiente para enfraquecer o escudo, e quando o escudo enfraquece, a ansiedade aumenta, e o comportamento humano se torna mais defensivo, mais hostil, mais rígido.
Quando isso é posto à luz da ciência do terrorismo, o que surge é perturbador e, ao mesmo tempo, profundamente esclarecedor. Indivíduos que se sentem privados, humilhados ou invisíveis dentro de suas sociedades e que percebem a cultura ocidental como uma ameaça existencial à sua visão de mundo não estão simplesmente com raiva. Estão experienciando uma crise dupla: uma crise de identidade e uma crise existencial.
A organização terrorista entra nesse momento como quem oferece um novo escudo, uma nova visão de mundo coerente, uma nova promessa de imortalidade simbólica (a de morrer como mártir, de deixar um legado, de servir a uma causa maior que a própria vida). Entender isso não é justificar o terrorismo. É entender sua psicologia para poder, finalmente, combatê-lo de forma eficaz.
POR QUE ISSO IMPORTA NA VIDA REAL?
Pense no seguinte exemplo do cotidiano: após um atentado terrorista amplamente noticiado, como os de Paris em 2015 ou os do Sri Lanka em 2019, pesquisas de opinião ao redor do mundo registraram um aumento imediato de atitudes negativas em relação a imigrantes muçulmanos, mesmo em países onde nenhum ataque ocorreu. À primeira vista, isso parece simplesmente racismo ou xenofobia. A Terror Management Theory oferece uma explicação mais precisa e, por isso, mais útil: a notícia de um ataque terrorista funciona como um lembrete coletivo da mortalidade.
Nosso cérebro, confrontado com imagens de morte e destruição, ativa o mecanismo de defesa da visão de mundo cultural. Para reforçar o escudo, tendemos a nos aproximar de quem compartilha os mesmos valores e a nos distanciar de quem percebemos como ameaça a esses valores. Esse distanciamento não é apenas emocional: ele muda comportamentos concretos, como o voto, a política migratória e o tratamento de minorias. Compreender esse mecanismo não é um exercício teórico. É o primeiro passo para não sermos manipulados por ele.
UMA ANALOGIA MEMORÁVEL
Imagine que cada cultura humana é um guarda-chuva. Cada pessoa carrega o seu, e ele a protege da chuva, que nessa analogia representa a consciência esmagadora da própria morte e da insignificância. Enquanto todo mundo tem o seu guarda-chuva aberto e caminha na mesma direção, tudo bem. Mas quando alguém aparece com um guarda-chuva diferente, de cor diferente, de forma diferente, e o abre ao seu lado, o vento muda, o seu guarda-chuva começa a virar, e você sente a chuva escorrer pelo pescoço.
Você não odeia a pessoa. Você odeia o guarda-chuva dela. Porque ele ameaça o seu. E quando o guarda-chuva fecha, o medo entra. A Terror Management Theory diz que grande parte dos conflitos humanos, inclusive o terrorismo, começa exatamente nesse momento: quando um guarda-chuva ameaça outro.
GLOSSÁRIO PARA INICIANTES
ANIMISMO
Definição: A crença de que todos os seres — não só humanos, mas também animais, plantas, pedras, rios e fenômenos naturais — possuem uma alma ou espírito. É considerado por Tylor a forma mais primitiva e universal de religião.
Exemplo: Quando uma criança acha que a lua está “olhando para ela” ou que a tempestade está “brava”, ela está tendo um pensamento animista natural — atribuindo intenção e sentimento a algo que não é humano.
SOBREVIVÊNCIA CULTURAL (Survival)
Definição: Uma prática, crença, costume ou objeto que existia com um propósito claro em etapas anteriores da cultura, mas que sobreviveu até tempos mais avançados mesmo tendo perdido sua função original — como um fóssil comportamental.
Exemplo: Bater na madeira “para dar sorte” é uma sobrevivência de um ritual mágico primitivo em que tocar madeira servia para despertar os espíritos que habitavam as árvores.
EVOLUÇÃO CULTURAL
Definição: A ideia de que as culturas humanas passam por estágios de desenvolvimento ao longo do tempo, do mais simples ao mais complexo — semelhante à evolução biológica, mas aplicada às práticas e conhecimentos humanos.
Exemplo: Assim como o celular evoluiu do telefone fixo, que evoluiu do telégrafo, que evoluiu dos sinais de fumaça, a escrita evoluiu de pinturas rupestres, para ideogramas, para o alfabeto fonético que você está lendo agora.
MONOGENISMO
Definição: A teoria de que toda a humanidade descende de um único ancestral comum — em oposição ao poligenismo, que supunha origens separadas para as diferentes raças.
Exemplo: O DNA mitocondrial humano confirma hoje o que Tylor defendia em 1881: todos os seres humanos do planeta têm uma “Mitocôndria Eva” africana em comum.
FAMÍLIA DE LÍNGUAS
Definição: Um grupo de línguas que descendem de um mesmo idioma ancestral, compartilhando estruturas gramaticais e vocabulário semelhantes, como filhos do mesmo pai linguístico.
Exemplo: O português, o espanhol, o francês e o italiano são todos filhos do latim — e portanto membros da família das línguas românicas. Por isso “mãe” em português, “madre” em espanhol e “mère” em francês soam tão parecidos.
TOTEMISMO
Definição: Um sistema de crença e organização social em que um grupo humano se identifica com um animal, planta ou objeto natural, considerado seu ancestral ou protetor — o “totem” do clã.
Exemplo: Clãs iroqueses se identificavam com o Urso, a Garça ou o Cervo — e um membro do clã Urso não podia se casar com outro membro do mesmo clã, assim como irmãos não se casam entre si.
CLÃ
Definição: Um grupo de pessoas que se consideram descendentes de um mesmo ancestral e partilham uma identidade coletiva, geralmente com regras próprias de casamento, posse de terras e rituais.
Exemplo: Pense nos sobrenomes de família no Brasil: os “Albuquerques de Pernambuco” ou os “Borges do Rio Grande do Sul” são resquícios da consciência de clã — a ideia de que pertencer a um certo grupo de sangue define quem você é.
EXOGAMIA
Definição: A regra que proíbe o casamento dentro do próprio grupo (clã, tribo, família), obrigando as pessoas a buscarem parceiros fora. O oposto é a endogamia (casar dentro do grupo).
Exemplo: É como a regra implícita que temos hoje de não nos casarmos com primos próximos — apenas generalizada para grupos maiores. Em muitas tribos, casar com alguém do mesmo clã era considerado tão criminoso quanto incesto.
PALEOÍNDIO / PERÍODO PALEOLÍTICO
Definição: O período mais antigo da pré-história, quando os seres humanos viviam como caçadores-coletores e usavam ferramentas de pedra lascada (paleo = antigo, lítico = pedra). Corresponde a um período de aproximadamente 2,5 milhões de anos até cerca de 10.000 a.C.
Exemplo: Os instrumentos de pedra lascada que encontramos em museus — aqueles fragmentos afiados com aparência de faca toscamente talhada — são os iPads dos nossos antepassados paleolíticos: a tecnologia mais sofisticada disponível em seu tempo.
MANA (ANIMISMO MELANÉSIO)
Definição: Termo originário das culturas do Pacífico que descreve uma força ou poder sobrenatural que pode habitar pessoas, objetos ou lugares — tornando-os especialmente eficazes, poderosos ou sagrados.
Exemplo: Quando dizemos que um atleta está “numa fase”, que um lugar tem uma “energia especial” ou que uma pessoa tem “carisma” inexplicável, estamos usando, em linguagem moderna, o mesmo conceito que as culturas da Melanésia chamavam de mana — uma força invisível que faz a diferença.
DIFUSIONISMO (Como contraponto à teoria de Tylor)
Definição: A teoria de que características culturais se espalharam de uma cultura para outras por meio de contato, migração ou comércio — em oposição à teoria evolucionista de Tylor, que supunha que culturas semelhantes chegavam às mesmas soluções de forma independente.
Exemplo: O difusionismo seria como dizer que o Brasil aprendeu a fazer pizza dos italianos que imigraram. O evolucionismo de Tylor seria como dizer que culturas diferentes inventaram o pão de forma independente porque tinham o mesmo cereal disponível e as mesmas necessidades de nutrição.




