Quem Manda no Mundo? de Noam Chomsky

jul 11, 2026 | Blog, Antropologia, Filosofia

Quem Manda no Mundo? de Noam Chomsky

Existe um exercício simples que Noam Chomsky propõe, capítulo após capítulo, ao longo deste livro, e que muda para sempre a forma como se lê o noticiário internacional. O exercício é o seguinte: pegue qualquer ação de um governo estrangeiro hostil aos Estados Unidos, qualquer bombardeio, qualquer assassinato seletivo, qualquer violação do direito internacional, e pergunte como a imprensa, os políticos e a opinião pública reagiriam se o autor do mesmo ato fosse, em vez de um inimigo declarado, o próprio governo norte-americano ou um de seus aliados mais próximos. Esse pequeno deslocamento de perspectiva, aplicado com obsessiva regularidade documental ao longo de vinte e três ensaios, é o motor de Quem Manda no Mundo?, um dos livros mais lidos e mais debatidos do intelectual, linguista e ativista político mais citado da segunda metade do século vinte. Publicado originalmente em 2016 e atualizado com um posfácio escrito já sob a sombra da eleição de Donald Trump, o livro reúne textos produzidos ao longo de mais de uma década, do auge da guerra ao terror sob George W. Bush até os primeiros dias da nova direita radical que tomaria o poder em Washington.

O que emerge dessa colagem de ensaios não é um manual de geopolítica no sentido convencional, mas algo mais parecido com uma auditoria moral da potência mais poderosa da história humana, conduzida com a paciência de um arquivista e a fúria contida de quem se recusa a aceitar a amnésia histórica como estado natural das coisas. Passamos pelos memorandos da tortura da era Bush, pela crise dos mísseis de Cuba relida através de gravações secretas da Casa Branca, pelos acordos de Oslo e o labirinto de Israel e Palestina, pela lenta erosão da Magna Carta sob o peso de drones e listas de terroristas decretadas pelo Executivo, pela luta de classes silenciosa que atravessa a história trabalhista dos Estados Unidos, e finalmente pelas duas ameaças que, segundo o autor, decidirão se haverá história alguma para se contar daqui a um século: a guerra nuclear e o colapso climático. No centro de tudo está uma única pergunta, tão simples quanto desconfortável, que dá título ao livro e que a sociedade contemporânea prefere, na maior parte do tempo, não fazer a si mesma em voz alta.

OBJETIVO DO LIVRO

O propósito declarado de Chomsky não é convencer o leitor de uma ideologia partidária, mas restaurar uma capacidade que ele considera sistematicamente atrofiada pela educação, pela mídia e pelo conforto psicológico da autoimagem nacional: a capacidade de aplicar a nós mesmos o mesmo padrão moral que exigimos, sem hesitação, dos nossos adversários. Trata-se de um livro que se recusa a separar filosofia moral de análise política, insistindo que perguntas sobre poder, sociedade e comportamento institucional só podem ser respondidas com honestidade se abandonarmos a premissa confortável de que existe uma diferença de natureza, e não apenas de intensidade, entre a violência que “nós” cometemos e a violência que “eles” cometem. O objetivo final é armar o leitor, sobretudo o leitor jovem que ainda está formando sua consciência cívica, com ferramentas de leitura crítica capazes de atravessar a superfície do discurso oficial e enxergar os padrões estruturais de poder que moldam a existência coletiva de bilhões de pessoas que nunca foram consultadas sobre as decisões que governam suas vidas.

Avram Noam Chomsky

Poucas biografias intelectuais do século vinte são tão duplas quanto a de Avram Noam Chomsky, nascido em 7 de dezembro de 1928 na Filadélfia, Pensilvânia, filho de William Chomsky, um respeitado estudioso da língua hebraica que emigrou da Ucrânia ainda jovem. Antes de se tornar o crítico mais implacável da política externa norte-americana, Chomsky já havia mudado para sempre outro campo inteiro do conhecimento humano: formado e doutorado em linguística pela Universidade da Pensilvânia, ingressou no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) em 1955 e, com a publicação de Estruturas Sintáticas em 1957, lançou as bases da gramática gerativa e da hipótese da gramática universal, a ideia revolucionária de que a capacidade de adquirir linguagem é uma estrutura biológica inata da mente humana, e não um produto exclusivo de condicionamento ambiental.

Essa tese redesenhou a psicologia cognitiva e a filosofia da mente do século vinte e rendeu a Chomsky o título, hoje quase folclórico, de pai da linguística moderna. Paralelamente a essa carreira acadêmica, e a partir da oposição pública à Guerra do Vietnã na década de 1960, Chomsky construiu uma segunda carreira como intelectual dissidente, publicando mais de cem livros sobre política, mídia e relações internacionais, entre eles o influente Manufacturing Consent, escrito com Edward Herman em 1988, que propôs um modelo de propaganda para explicar o funcionamento da grande imprensa comercial. Estudos de índices de citação acadêmica já o colocaram entre os autores vivos mais citados da história, ao lado de nomes como Marx, Shakespeare e a Bíblia.

Uma curiosidade reveladora, e que o próprio livro menciona de passagem: o primeiro texto que Chomsky se lembra de ter escrito não foi um artigo científico, mas uma redação, aos dez anos de idade, em fevereiro de 1939, sobre a queda de Barcelona para as forças de Francisco Franco e o avanço do que ele já então chamava, com a lucidez precoce de uma criança que ouvia os discursos de Hitler no rádio sem entender as palavras mas sentindo o terror do tom, de “praga fascista”. A consciência política que atravessa este livro, portanto, não nasceu na maturidade: foi formada quase noventa anos antes de sua publicação.

 

Do livro: Quem Manda no Mundo? de Noam Chomsky


Quem Manda no Mundo? reúne vinte e três ensaios independentes, escritos e publicados originalmente em momentos distintos, sem uma divisão oficial em partes. Para fins didáticos e de clareza pedagógica, organizamos esses ensaios em seis blocos temáticos que revelam a arquitetura de pensamento do autor e facilitam a leitura crítica de uma obra tão extensa.

PARTE I — O INTELECTUAL, A MEMÓRIA E OS DOIS PESOS DA HISTÓRIA

RESUMO DA PARTE
O primeiro ensaio do livro, que revisita um tema que Chomsky vem desenvolvendo desde a década de 1960, começa com uma pergunta aparentemente simples: quem é, afinal, um intelectual? A resposta remonta ao Manifesto dos Intelectuais de 1898, escrito pelos defensores de Alfred Dreyfus, o oficial francês condenado injustamente por espionagem, e ridicularizados à época pelas correntes dominantes da vida acadêmica como uma “fração minoritária” de agitadores.

Chomsky mostra como essa tensão se repete estruturalmente ao longo do século vinte: durante a Primeira Guerra Mundial, intelectuais que se alistaram a serviço da propaganda de guerra foram aclamados, enquanto dissidentes como Bertrand Russell, Eugene Debs e Randolph Bourne foram presos ou demitidos por questionarem a narrativa oficial. O relatório A Crise da Democracia, produzido pela Comissão Trilateral em 1975, é citado como prova de que as elites liberais internacionalistas viram nos movimentos populares dos anos 1960, um “excesso de democracia” a ser contido, e não uma conquista a ser celebrada.

A parte central do capítulo expõe, com riqueza documental, a assimetria com que o Ocidente trata seus “dissidentes”: Nelson Mandela permaneceu na lista oficial de terroristas dos Estados Unidos até 2008, enquanto o assassinato de seis padres jesuítas em El Salvador em 1989, por um batalhão treinado por Washington, recebeu fração da atenção internacional dedicada a dissidentes do bloco soviético. Chomsky estende essa análise à guerra não declarada contra a Teologia da Libertação na América Latina, ao golpe no Haiti contra o padre Jean-Bertrand Aristide e, no fecho mais provocador do capítulo, à comparação entre os atentados de 11 de setembro de 2001 e o golpe militar de 11 de setembro de 1973 no Chile, apoiado pelos Estados Unidos, que ele chama, deliberadamente, de “o primeiro onze de setembro”.

PONTOS-CHAVE
O conceito moderno de intelectual nasceu dividido entre os que servem ao poder estabelecido e os que o desafiam em nome de valores, e a história tende a recompensar os primeiros e a punir os segundos. A mesma sociedade que celebra dissidentes de regimes inimigos costuma ignorar ou insultar vítimas de violência cometida por seus próprios governos ou por regimes aliados. A Doutrina de Segurança Nacional, implementada na América Latina a partir de 1962, redirecionou exércitos inteiros da defesa externa para a repressão interna, com apoio direto de Washington. A comparação entre os dois eventos de 11 de setembro funciona como um teste de consistência moral, revelando o quanto a atenção pública é seletiva conforme a identidade do agressor.

REFLEXÃO CRÍTICA
O teste de universalidade moral proposto por Chomsky, aplicar a si mesmo o padrão que se aplica ao inimigo, é filosoficamente robusto e dificilmente refutável em abstrato: poucos discordariam de que a consistência ética exige isso. O problema, apontado por críticos de longa data como o historiador Paul Berman e o próprio Christopher Hitchens em vida, está na seleção dos casos. Ao concentrar o foco quase exclusivamente nos crimes ocidentais e tratar os crimes de regimes rivais, como os massacres estalinistas ou os expurgos maoístas, como pano de fundo já assumido e por isso dispensável de nova denúncia, Chomsky corre o risco de produzir um mapa moral distorcido, mesmo sem a intenção de fazê-lo.

A comparação entre o Onze de Setembro chileno e o americano, por mais poderosa que seja como recurso retórico, também foi acusada por comentaristas de rivalizar contextos, atores e escalas de forma que privilegia o efeito de choque sobre a precisão analítica. Isso não invalida o ponto central do capítulo, mas exige do leitor a mesma vigilância crítica que o próprio autor pede: aplicar consistência inclusive à leitura de Chomsky.

APLICAÇÕES PRÁTICAS
Um exercício simples e replicável para o público brasileiro é observar como a cobertura jornalística nacional trata a violência de Estado dependendo de quem a comete: compare, por exemplo, a repercussão de uma operação policial letal em uma favela do Rio de Janeiro com a repercussão de um ataque terrorista no exterior, e note a diferença na duração da cobertura, na humanização das vítimas e na busca por responsabilização institucional. Estudantes de jornalismo e ciências sociais podem usar esse mesmo teste de consistência para analisar criticamente qualquer manchete, perguntando sempre: essa mesma ação, cometida por outro ator, receberia o mesmo tratamento?

PARTE II — A ARQUITETURA DO TERROR: QUEM TEM LICENÇA PARA MATAR

RESUMO DA PARTE
Este bloco reúne os ensaios em que Chomsky examina de perto a própria definição de terrorismo e mostra como ela é aplicada de forma seletiva. O ponto de partida é o assassinato do comandante do Hezbollah Imad Mughniyeh em 2008, celebrado pela imprensa ocidental como justiça feita contra “um dos homens mais procurados do mundo”, enquanto o bombardeio israelense a Túnis que matou dezenas de civis dias antes, e que motivou o sequestro do navio Achille Lauro, recebeu tratamento muito mais brando, apesar de ter sido formalmente condenado pelo Conselho de Segurança da ONU como ato de agressão.

Os memorandos da tortura liberados entre 2008 e 2009 são analisados não como uma aberração da administração Bush, mas como a ponta visível de uma prática que Chomsky documenta desde os primeiros dias da expansão territorial norte-americana. O ensaio “Atrocidade” contrapõe a cobertura do voo MH17, derrubado na Ucrânia em 2014, à quase total ausência de memória pública sobre o voo 655 da Iran Air, derrubado por um cruzador norte-americano em 1988 com a morte de 290 pessoas, cujo comandante foi condecorado, não punido.

O ensaio “Acordos de Cessar-fogo em que as Violações Nunca Cessam” documenta o padrão recorrente de escaladas em Gaza, e o capítulo de título mais direto do livro, “Os EUA São o Principal Estado Terrorista”, usa um exercício de inversão digno de ficção especulativa: imagine se a KGB tivesse publicado um estudo interno sobre o fracasso relativo de suas operações de apoio a insurgências armadas pelo mundo. Foi exatamente isso que a CIA fez, e o New York Times noticiou sem qualquer escândalo em 2014.

PONTOS-CHAVE
A palavra terrorismo, na prática do discurso político anglo-americano, tende a designar apenas a violência cometida por atores hostis a Washington, e raramente inclui operações equivalentes conduzidas por Estados aliados ou pelo próprio governo dos Estados Unidos. Tragédias com número de vítimas comparável recebem cobertura midiática e indignação pública radicalmente diferentes conforme a identidade do responsável, um padrão ilustrado de forma didática pela comparação entre os voos MH17 e Iran Air 655.

Documentos oficiais desclassificados, incluindo relatórios internos da própria CIA, corroboram a tese de que operações encobertas de apoio a grupos armados fazem parte da política externa norte-americana havia décadas. A ausência de reação pública diante dessas revelações é, para Chomsky, tão significativa quanto as revelações em si.

REFLEXÃO CRÍTICA
A força argumentativa desta parte do livro está na qualidade documental: Chomsky não afirma nada que não esteja lastreado em fontes primárias, relatórios oficiais ou reportagens da própria grande imprensa ocidental, o que torna a crítica difícil de descartar como simples opinião. Ainda assim, cabe uma ponderação importante: definir terrorismo de forma consistente é um dos problemas mais antigos e genuinamente difíceis do direito internacional, e não é exclusivo da hipocrisia ocidental.

Estudiosos de relações internacionais de tradição realista argumentam que Estados, por definição, reivindicam o monopólio legítimo da força dentro de estruturas de direito que os grupos não estatais rejeitam, e que essa assimetria jurídica, embora imperfeita e sujeita a abuso, não é puramente arbitrária como o texto por vezes sugere. Há também o risco de que, ao concentrar-se quase exclusivamente nos crimes ocidentais, o leitor termine com a impressão equivocada de que atores não estatais como o Hezbollah ou o Hamas operam sem agência moral própria, quando na realidade suas escolhas estratégicas e seus próprios crimes documentados contra civis merecem exame igualmente rigoroso, algo que este bloco de ensaios, centrado deliberadamente na responsabilidade ocidental, não se propõe a fazer.

APLICAÇÕES PRÁTICAS
Ao consumir notícias internacionais, vale o hábito de perguntar sistematicamente quem definiu determinado ator como terrorista, insurgente ou libertador, e sob qual autoridade essa definição foi estabelecida. Para educadores e criadores de conteúdo, este bloco oferece um estudo de caso poderoso sobre como a linguagem jornalística molda a percepção pública antes mesmo de qualquer fato ser analisado, uma habilidade de leitura crítica especialmente relevante numa era de manchetes automatizadas e consumo fragmentado de notícias.

PARTE III — A MÃO INVISÍVEL: PETRÓLEO, DECLÍNIO E A LEI QUE VIRA PÓ

RESUMO DA PARTE
Este bloco reconstrói a arquitetura estratégica que, segundo Chomsky, moldou a política externa norte-americana desde a Segunda Guerra Mundial: a chamada Doutrina da Grande Área, elaborada por planejadores do Departamento de Estado ainda durante o conflito, que previa o controle norte-americano sobre o hemisfério ocidental, o Extremo Oriente e os recursos energéticos do antigo Império Britânico no Oriente Médio. O ensaio sobre o declínio norte-americano situa esse processo historicamente: os Estados Unidos detinham cerca de metade da riqueza mundial em 1945 e viram essa fatia cair para cerca de vinte e cinco por cento já em 1970, um declínio relativo, e não um colapso absoluto, que Chomsky distingue com cuidado das previsões apocalípticas populares na mídia.

O ensaio sobre o Vietnã reconstitui, a partir de documentos desclassificados, a decisão de Kennedy de invadir o Sudeste Asiático, e traça uma linha direta entre a retórica daquela época e a retórica usada décadas depois para justificar a guerra do Iraque. O capítulo mais surpreendente do bloco, sobre a Magna Carta, começa como uma aula de história constitucional inglesa, da Carta de Direitos de 1215 à Carta da Floresta que protegia os bens comuns da população contra a privatização pela Coroa, e termina como um dos textos mais urgentes do livro sobre a atualidade: a erosão do devido processo legal pelos assassinatos por drone da era Obama, a criação de listas de terroristas por decisão unilateral do Executivo, e finalmente a destruição contemporânea dos bens comuns planetários pela mudança climática, um fio condutor que liga o rei João Sem-Terra do século treze às sabatinas do Senado americano sobre o Acordo de Paris.

PONTOS-CHAVE
A política externa dos Estados Unidos desde 1945 seguiu, de forma relativamente estável através de diferentes administrações, uma doutrina estratégica voltada ao controle de recursos energéticos e rotas comerciais globais, e não apenas a reações pontuais a ameaças específicas. O declínio do poder relativo dos Estados Unidos é um processo real, mensurável e iniciado há décadas, mas não implica a emergência automática de um substituto único no comando da ordem mundial. A Magna Carta funciona no livro tanto como fato histórico quanto como metáfora: a erosão de garantias jurídicas fundamentais, do habeas corpus ao devido processo, é apresentada como sintoma direto da concentração de poder executivo. A crise climática é tratada não como um tema ambiental isolado, mas como a mais recente e mais grave etapa da privatização e destruição dos bens comuns que a Carta da Floresta buscava proteger.

REFLEXÃO CRÍTICA
A reconstrução histórica da Doutrina da Grande Área é bem documentada e amplamente aceita mesmo por historiadores diplomáticos que não compartilham as conclusões políticas de Chomsky, o que confere solidez a esta parte do livro. A ponte entre a Magna Carta medieval e a crise climática contemporânea é elegante e didaticamente poderosa, mas também é, é preciso dizer, uma escolha retórica: outros autores explicam a crise climática por meio de estruturas econômicas e incentivos de mercado sem recorrer ao aparato de história constitucional inglesa, e a analogia, embora sedutora, simplifica processos econômicos e científicos complexos ao encaixá-los numa narrativa moral única e contínua.

Quanto ao tema do declínio americano, economistas de outras tradições, incluindo autores mais otimistas sobre a resiliência da inovação tecnológica norte-americana, argumentam que Chomsky subestima sistematicamente a capacidade de reinvenção econômica dos Estados Unidos, um contraponto que o próprio livro reconhece parcialmente ao afastar-se das previsões mais catastrofistas sobre o fim da hegemonia americana.

APLICAÇÕES PRÁTICAS
Compreender a lógica de controle de recursos estratégicos ajuda a interpretar de forma mais sofisticada notícias sobre conflitos aparentemente distantes da vida cotidiana brasileira, do pré-sal ao papel do Brasil nos debates climáticos internacionais, situando o país como parte de um tabuleiro geopolítico mais amplo, e não como espectador neutro. A discussão sobre devido processo e vigilância estatal também ressoa diretamente com debates brasileiros contemporâneos sobre uso de tecnologia de reconhecimento facial, mandados coletivos e limites ao poder do Executivo em situações de exceção.

PARTE IV — QUEM PROTEGE A QUEM: ELITES, TRABALHADORES E O JORNAL DE CADA DIA

RESUMO DA PARTE
Este bloco desce da geopolítica internacional para a arquitetura de poder dentro dos próprios Estados Unidos. O ensaio sobre luta de classes recupera a história pouco contada da violência sistemática contra o movimento trabalhista norte-americano, citando estudos acadêmicos segundo os quais os Estados Unidos registraram, proporcionalmente, mais mortes por violência ligada ao trabalho no fim do século dezenove do que qualquer outro país exceto a Rússia czarista. Chomsky retoma aqui a “vil máxima” atribuída por Adam Smith aos “mestres da humanidade”: tudo para nós, nada para os outros.

O ensaio “Segurança para Quem?” desmonta a versão padrão de que a política de segurança nacional sempre existiu para proteger o cidadão comum, mostrando que mesmo após o colapso da União Soviética em 1989, quando a ameaça oficial desapareceu, o aparato militar e as intervenções, como a invasão do Panamá naquele mesmo ano, continuaram praticamente inalteradas, apenas com novos pretextos. Fechando o bloco, “Um Dia na Vida de um Leitor do New York Times” é um exercício minucioso de leitura crítica de uma única edição do jornal, publicada em 6 de abril de 2015, revelando como escolhas editoriais aparentemente neutras, o que ganha primeira página, o que é relegado à página sete, o que simplesmente não é mencionado, constroem uma visão de mundo tão poderosa quanto qualquer discurso político explícito.

PONTOS-CHAVE
A repressão ao movimento trabalhista organizado é parte estrutural, e não acidental, da formação histórica dos Estados Unidos modernos, segundo a documentação apresentada pelo autor. A política de segurança nacional protege, na prática documentada por Chomsky, prioritariamente interesses corporativos e de elite, ainda que seja apresentada publicamente como proteção ao cidadão comum. A imprensa de referência, mesmo quando tecnicamente precisa em cada fato isolado, produz uma narrativa de mundo através da seleção e da hierarquização daquilo que escolhe noticiar. A raiva popular contra o establishment, canalizada tanto à esquerda quanto à direita do espectro político, tem raízes materiais concretas em décadas de estagnação salarial documentada por dados oficiais.

REFLEXÃO CRÍTICA
A análise da desigualdade salarial e da estagnação dos salários reais desde os anos 1970 é amplamente sustentada por dados do próprio governo americano e por economistas de tradições variadas, incluindo vozes fora da esquerda tradicional, o que fortalece consideravelmente este bloco do livro.

A leitura de uma única edição do New York Times como amostra representativa da cultura intelectual dominante, entretanto, é metodologicamente frágil: um único dia de jornal é, por definição, uma amostra pequena, e críticos de mídia argumentam que esse tipo de leitura seletiva pode confirmar a tese do autor com relativa facilidade, uma vez que qualquer edição de qualquer jornal, examinada com lupa suficientemente cuidadosa, revelará escolhas editoriais discutíveis. Isso não torna o exercício inútil como demonstração pedagógica de leitura crítica, mas o leitor atento deve distinguir entre um estudo de caso ilustrativo e uma prova estatística de viés sistemático, que exigiria uma amostragem muito mais ampla do que a apresentada.

APLICAÇÕES PRÁTICAS
O exercício de dissecar uma única edição de jornal pode ser reproduzido por qualquer leitor brasileiro com qualquer veículo nacional: escolha um dia, leia a capa, compare o espaço dedicado a diferentes notícias e pergunte por que certas pautas ganharam destaque e outras não. Para profissionais de recursos humanos, economia e políticas públicas, o resgate da história do movimento trabalhista oferece contexto valioso para debates atuais sobre precarização, plataformas de trabalho sob demanda e enfraquecimento de sindicatos, temas centrais também na realidade brasileira contemporânea.

PARTE V — A TERRA PROMETIDA E O TABULEIRO DO ORIENTE MÉDIO

RESUMO DA PARTE
Este bloco reúne os ensaios dedicados ao conflito Israel-Palestina e à região que Dwight Eisenhower certa vez chamou de “a área estrategicamente mais importante do mundo”. O ensaio sobre os Acordos de Oslo de 1993 reconstrói o contexto das negociações, iniciadas em Madri em 1991, e argumenta que o processo, celebrado internacionalmente como um avanço histórico, na prática excluiu a vasta população de refugiados palestinos e consolidou, e não resolveu, as assimetrias fundamentais de poder entre as partes. “Israel-Palestina: As Opções Concretas” desafia o consenso de que existiriam apenas duas saídas possíveis, dois Estados ou um Estado binacional, apontando para uma terceira realidade, silenciosamente construída no terreno por meio da expansão de assentamentos e da fragmentação territorial da Cisjordânia.

“A Histórica Medida de Obama” analisa a normalização diplomática entre Estados Unidos e Cuba em 2014 e questiona a narrativa nostálgica que a acompanhou. “E Ponto Final” compara a cobertura midiática do atentado ao Charlie Hebdo em 2015 com o bombardeio, quase esquecido, da sede da televisão estatal sérvia pela OTAN em 1999, que matou dezesseis jornalistas sem provocar reação pública comparável. Fechando o bloco, “A Ameaça Iraniana” examina o histérico debate político em torno do acordo nuclear de Viena de 2015, contrastando a rejeição bipartidária dos falcões de Washington com o apoio quase universal de especialistas em não proliferação ao redor do mundo.

PONTOS-CHAVE
Os Acordos de Oslo, embora celebrados como marco de paz, excluíram sistematicamente a questão dos refugiados palestinos e criaram estruturas administrativas que, segundo o autor, facilitaram a continuidade da ocupação em vez de encerrá-la. A expansão de assentamentos e corredores territoriais em torno de Jerusalém e na Cisjordânia constitui, na análise de Chomsky, uma terceira opção de fato já em curso, distinta tanto da solução de dois Estados quanto de um Estado binacional.

Ataques com número comparável de vítimas civis recebem tratamento midiático radicalmente diferente conforme o perpetrador seja aliado ou adversário do Ocidente, um padrão documentado repetidamente ao longo deste bloco. O debate público sobre o acordo nuclear com o Irã, segundo o autor, foi dominado por retórica alarmista amplamente desconectada da avaliação técnica de especialistas em armamento nuclear.

REFLEXÃO CRÍTICA
Este é, sem dúvida, o bloco mais politicamente contestado do livro, e é importante que o leitor o trate como tal. A posição de Chomsky sobre Israel e Palestina, favorável historicamente a uma solução negociada de dois Estados e crítica contundente da política de assentamentos, é compartilhada por parte significativa de organizações de direitos humanos e por setores da própria opinião pública israelense, mas é também rejeitada com veemência por outros analistas, que argumentam que o texto subestima as ameaças de segurança concretas enfrentadas por Israel, incluindo ataques terroristas contra civis israelenses ao longo de décadas, e que a ênfase quase exclusiva nas ações israelenses deixa pouco espaço para uma análise igualmente rigorosa das escolhas estratégicas de lideranças palestinas.

Sobre o acordo nuclear iraniano, é verdade que a maioria dos especialistas técnicos apoiava o Plano de Ação Conjunto, mas críticos legítimos do acordo, inclusive alguns não alinhados à direita política, levantaram preocupações reais sobre cláusulas de expiração e mecanismos de verificação que merecem consideração além do enquadramento de “histeria” sugerido pelo texto.

APLICAÇÕES PRÁTICAS
Ao acompanhar notícias sobre o Oriente Médio, vale cultivar o hábito de buscar ativamente fontes de diferentes origens, israelenses, palestinas, e de organizações internacionais neutras, antes de formar uma opinião definitiva, exatamente o tipo de triangulação de fontes que qualquer curso de jornalismo recomenda para temas de alta polarização. Para o público jovem brasileiro interessado em relações internacionais, este bloco também serve como estudo de caso sobre como um mesmo conflito pode ser narrado de formas radicalmente diferentes dependendo da fonte consultada, uma habilidade essencial de alfabetização midiática num ambiente digital saturado de desinformação.

PARTE VI — O RELÓGIO DA MEIA-NOITE: SOBREVIVER À PRÓPRIA ESPÉCIE

RESUMO DA PARTE
O bloco final, e emocionalmente mais intenso do livro, reúne os ensaios sobre as ameaças existenciais que, para Chomsky, deveriam organizar toda a agenda política mundial e que, na prática, recebem atenção mínima diante da urgência real. “A Semana em que o Mundo Parou” reconstrói, a partir de gravações secretas liberadas nos anos 1990, os treze dias da crise dos mísseis de Cuba em 1962, nos quais o próprio Kennedy estimava em cinquenta por cento a chance de guerra nuclear, e revela que um único oficial soviético, o comandante Vasili Arkhipov, provavelmente evitou um lançamento nuclear ao vetar uma ordem de disparo em um submarino cercado.

“À Beira da Destruição” convida o leitor a adotar a perspectiva de um observador extraterrestre e nota, com amarga ironia, que as sociedades mais ativas na defesa do planeta contra o colapso ambiental são justamente as comunidades indígenas e tribais, historicamente as mais despojadas de poder político formal. “Quantos Minutos Faltam para a Meia-Noite?” traça a história do Relógio do Juízo Final, criado pelo Boletim dos Cientistas Atômicos, e cita o general Lee Butler, ex-chefe do comando estratégico nuclear americano, que descreveu sua própria carreira de décadas planejando o uso de armas nucleares como um erro histórico do qual a humanidade sobreviveu por sorte, mais do que por competência.

“O Relógio do Juízo Final” atualiza essa análise incorporando a mudança climática como segunda ameaça existencial, destacando como a arquitetura política norte-americana, sobretudo o poder de veto do Senado sobre tratados internacionais vinculantes, tornou impossível transformar o Acordo de Paris de 2015 em compromisso juridicamente obrigatório. O ensaio final e mais ambicioso do livro, “Mestres da Humanidade”, amarra todos os fios anteriores: reafirma o conceito de Adam Smith sobre elites econômicas que perseguem sua “vil máxima” às custas do restante da sociedade, analisa acordos comerciais como o Acordo de Associação Transpacífico como instrumentos de concentração de poder disfarçados de livre comércio, e encerra com uma reflexão pesarosa, escrita já sob a sombra da eleição de Trump em 2016, sobre raiva popular legítima, décadas de estagnação salarial e o risco real do que o autor chama de “fascismo amigável”.

PONTOS-CHAVE
A humanidade viveu, sem saber em tempo real, momentos concretos de risco elevado de aniquilação nuclear, e a sobrevivência até hoje deveu-se, segundo múltiplas fontes militares citadas no livro, em boa medida ao acaso e a decisões individuais de baixo escalão, e não a um sistema de segurança infalível. A crise climática é tratada pelo autor como ameaça de mesma magnitude existencial que a guerra nuclear, e ambas compartilham o mesmo obstáculo estrutural: a dificuldade de subordinar interesses econômicos concentrados e ciclos eleitorais de curto prazo a horizontes de risco de longuíssimo prazo.

Comunidades indígenas e países mais pobres, com menor responsabilidade histórica pelas emissões de carbono, aparecem no livro como os atores mais ativos na defesa de soluções ambientais, uma inversão que Chomsky considera moralmente significativa. A ascensão de líderes populistas de direita é interpretada não como fenômeno isolado, mas como consequência direta de décadas de políticas econômicas neoliberais que produziram estagnação salarial real e canalizaram a raiva popular resultante para alvos políticos, em vez de corporativos.

REFLEXÃO CRÍTICA
A documentação sobre a crise dos mísseis de Cuba e sobre a arquitetura de comando nuclear é rigorosa, amplamente corroborada por historiadores da Guerra Fria de diferentes orientações políticas, e representa provavelmente a seção mais solidamente estabelecida do livro inteiro, quase livre de controvérsia factual. Já a análise sobre a ascensão de Trump, escrita a quente, no calor imediato do resultado eleitoral de 2016, tem o mérito da urgência mas também os riscos de qualquer análise produzida sem a distância do tempo: cientistas políticos que estudaram o fenômeno posteriormente encontraram evidências mais mistas do que o texto sugere sobre o peso relativo da ansiedade econômica frente a outros fatores, incluindo atitudes raciais e identitárias, na explicação do voto em Trump, um debate acadêmico que segue em aberto até hoje.

O rótulo “fascismo amigável”, tomado de empréstimo do sociólogo Bertram Gross, é evocativo, mas também é um termo carregado que outros historiadores do fascismo histórico consideram um uso ampliado demais do conceito original, aplicável com mais precisão a movimentos de massa com estruturas paramilitares e projetos totalitários explícitos.

APLICAÇÕES PRÁTICAS
Diante de temas que parecem grandes demais para qualquer ação individual, como guerra nuclear e mudança climática, o próprio livro sugere um caminho prático: engajamento cívico coletivo, organização comunitária e pressão política sustentada, seguindo o modelo das mobilizações indígenas descritas nos capítulos finais. No Brasil, essa lógica se conecta diretamente a debates sobre proteção de territórios indígenas na Amazônia como estratégia de mitigação climática, e a discussões sobre o papel do país em fóruns internacionais de desarmamento e clima, temas em que a geração atual tem, de fato, capacidade real de organização e influência.

IMPACTO NA SOCIEDADE

Poucos livros de não ficção política conseguem manter a coerência de método ao longo de vinte e três textos escritos em momentos tão distintos, e é exatamente essa coerência que explica o impacto duradouro de Quem Manda no Mundo? sobre gerações sucessivas de leitores que chegam à política pela porta da desconfiança institucional.

Como estudioso do tema, é possível afirmar que a principal contribuição do livro para o debate público não está em nenhuma revelação isolada, a maioria dos fatos citados já era, tecnicamente, de domínio público antes da publicação, mas na disciplina metodológica de reunir esses fatos dispersos em um único argumento sustentado. Esse método influenciou de forma mensurável o jornalismo investigativo independente das duas últimas décadas, especialmente veículos digitais voltados a públicos jovens e politicamente engajados, que adotaram variações do próprio teste de consistência moral que estrutura este livro como ferramenta editorial.

Ao mesmo tempo, o livro se tornou, para seus críticos, um símbolo do que chamam de unilateralismo moral da esquerda acadêmica ocidental: a tendência de aplicar rigor forense às ações dos próprios governos e tratamento mais brando às ações de regimes rivais, uma crítica que o próprio corpo de ensaios, é justo reconhecer, nunca responde de forma totalmente satisfatória. O resultado é uma obra que raramente deixa o leitor neutro. Ela produz indignação, desconforto ou rejeição, mas raramente indiferença, e essa capacidade de provocar reação ativa é, ela mesma, uma forma de impacto social que poucos livros de análise política contemporânea conseguem sustentar por mais de quatrocentas páginas.

MENSAGEM PARA A GERAÇÃO ATUAL

Se há uma geração para a qual este livro parece ter sido escrito com particular urgência, é a que hoje tem entre dezoito e quarenta anos, a primeira a crescer sabendo, desde a infância, que existe um relógio contando os minutos até a meia-noite metafórica da civilização. Vocês herdaram um mundo em que as duas maiores ameaças à existência coletiva, a guerra nuclear e o colapso climático, já não são hipóteses distantes discutidas em relatórios acadêmicos, mas condições estruturais da vida adulta que terão de administrar, contornar ou enfrentar de frente nas próximas décadas.

Chomsky não oferece conforto fácil, e este texto tampouco pretende oferecê-lo. O que o livro sugere, com insistência quase pedagógica, é que a sensação de impotência diante de forças tão vastas, o Estado, o mercado, o sistema internacional, é, em boa parte, um produto cultivado deliberadamente, e não uma verdade inevitável sobre a natureza humana ou sobre a política.

A história registrada neste livro está cheia de exemplos de mudança real conquistada por movimentos populares organizados: o movimento trabalhista que arrancou direitos à força, os movimentos de direitos civis que romperam consensos aparentemente inabaláveis, as comunidades indígenas que hoje lideram a resistência climática global sem deter fração do poder econômico das corporações que combatem. A geração atual não precisa concordar com cada conclusão política deste livro, e muitas delas são, de fato, legitimamente contestáveis, para absorver sua lição metodológica mais valiosa: questionar com o mesmo rigor as narrativas que confortam quanto as que perturbam é o primeiro passo de qualquer consciência verdadeiramente livre.

CONCLUSÃO

Ao final destas mais de quatrocentas páginas, a pergunta que dá título ao livro permanece, deliberadamente, sem resposta definitiva e fechada. Não existe um único ator que “manda no mundo” de forma simples e monolítica; existe, isso sim, uma complexa arquitetura de poder concentrado, estatal e corporativo, que opera muitas vezes à margem do escrutínio democrático, protegida pela linguagem técnica, pelo sigilo institucional e pela seletividade da atenção midiática.

A filosofia política que sustenta este livro é, no fundo, uma filosofia moral aplicada: a convicção de que a consciência ética não pode ser fragmentada por fronteiras nacionais, que a sociedade que se recusa a examinar seu próprio comportamento com o mesmo rigor que aplica aos adversários está condenada a repetir, sob nova roupagem, os mesmos padrões de violência que professa condenar.

É impossível separar essa investigação de suas dimensões psicológicas mais profundas: a amnésia histórica que o livro documenta obsessivamente não é apenas um fenômeno político, mas também um mecanismo de defesa coletivo, uma forma de ansiedade social gerenciada pela recusa em confrontar verdades desconfortáveis sobre a própria identidade nacional.

Vale reconhecer, com a mesma honestidade que o livro exige de seus leitores, que Quem Manda no Mundo? não é, nem pretende ser, um relato equilibrado e imparcial no sentido jornalístico convencional. É um libelo, documentado com rigor acadêmico, mas construído com intenção argumentativa explícita, e existem outras tradições de pensamento, do liberalismo internacionalista ao realismo político clássico, que interpretam boa parte dos mesmos eventos sob lentes bastante diferentes e igualmente merecedoras de consideração séria.

Ainda assim, mesmo o leitor que discorde de suas conclusões políticas específicas dificilmente sairá desta leitura sem uma pergunta incômoda instalada permanentemente na consciência: até que ponto a existência confortável de uma sociedade depende, estruturalmente, de olhar para o outro lado.

FRASES MEMORÁVEIS

  • A memória seletiva é a forma mais silenciosa de propaganda.
  • Todo poder que não pode ser questionado já deixou de ser legítimo.
  • Chamar o outro de terrorista é, muitas vezes, evitar olhar no espelho.
  • A civilização sobrevive por decisões de indivíduos anônimos, não por garantias institucionais.
  • Consciência política começa no dia em que aplicamos a nós mesmos o padrão que exigimos dos outros.
OS 23 ENSAIOS DO LIVRO

CAPÍTULO 1 — A RESPONSABILIDADE DOS INTELECTUAIS, REDUX

Ensaio de abertura que retoma um tema caro a Chomsky desde os anos 1960: a divisão histórica entre intelectuais que servem ao poder estabelecido e intelectuais que o desafiam em nome de valores. Partindo do Manifesto dos Intelectuais de 1898, ligado ao caso Dreyfus, o texto atravessa a Primeira Guerra Mundial, o relatório da Comissão Trilateral de 1975 sobre o suposto “excesso de democracia” dos anos 1960, e a assimetria com que o Ocidente trata seus dissidentes, celebrando os que se opõem a regimes inimigos e ignorando ou insultando as vítimas de violência cometida por seus próprios governos ou aliados, como os padres jesuítas assassinados em El Salvador em 1989. O capítulo termina comparando o atentado de 11 de setembro de 2001 ao golpe militar de 11 de setembro de 1973 no Chile, apoiado por Washington.

CAPÍTULO 2 — TERRORISTAS PROCURADOS NO MUNDO INTEIRO

A partir do assassinato do comandante do Hezbollah Imad Mughniyeh em 2008, celebrado pela imprensa ocidental como justiça feita contra um dos homens mais procurados do mundo, Chomsky questiona quem define os termos “mundo” e “terrorista” no discurso político anglo-americano. O contraponto é o bombardeio israelense a Túnis em 1985, que matou dezenas de civis tunisianos e palestinos e foi condenado pela ONU como ato de agressão, mas recebeu tratamento midiático muito mais brando que o sequestro do navio Achille Lauro que se seguiu como represália. O ensaio expõe como a mesma palavra, terrorismo, muda de peso conforme a identidade de quem a comete.

CAPÍTULO 3 — OS MEMORANDOS DA TORTURA E A AMNÉSIA HISTÓRICA

Analisa os memorandos de tortura da era Bush, liberados entre 2008 e 2009, e os depoimentos ao Senado revelando a pressão de Dick Cheney e Donald Rumsfeld para que interrogadores encontrassem uma ligação, inexistente, entre Iraque e Al-Qaeda. Chomsky argumenta que o verdadeiro choque não deveria ser a existência da tortura, mas a ideia de que ela seria uma aberração pontual: o texto documenta a prática como rotina desde os primeiros anos da expansão territorial dos Estados Unidos, citando o conceito de “propósito transcendente” do teórico das relações internacionais Hans Morgenthau para explicar o abismo entre o discurso oficial e a conduta histórica real do país.

CAPÍTULO 4 — A MÃO INVISÍVEL DO PODER

Compara as revoltas democráticas do mundo árabe com as manifestações trabalhistas de Madison, Wisconsin, ambas em 2011, para em seguida reconstruir a chamada Doutrina da Grande Área, plano estratégico dos anos 1940 que definiu o controle norte-americano sobre regiões-chave do planeta, sobretudo as reservas energéticas do Oriente Médio. O capítulo mostra como a OTAN, criada para conter uma possível independência europeia, expandiu-se para o leste após 1989 em violação a promessas feitas a Mikhail Gorbachev, e como doutrinas de intervenção militar arbitrária, formalizadas ainda sob Bill Clinton, garantem a Washington o direito autoproclamado de proteger o acesso a mercados e recursos estratégicos em qualquer lugar do mundo.

CAPÍTULO 5 — DECLÍNIO NORTE-AMERICANO: CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS

Situa historicamente a narrativa do declínio dos Estados Unidos, mostrando que o país concentrava cerca de metade da riqueza mundial em 1945 e já via essa fatia cair para aproximadamente vinte e cinco por cento em 1970, à medida que Europa e Ásia se reconstruíam. Chomsky descreve esse processo como inevitável e distinto das previsões apocalípticas populares, mas também mostra como episódios como a “perda da China” em 1949 revelam uma mentalidade que trata partes do mundo como propriedade legítima a ser mantida ou recuperada, um pressuposto que sobreviveu, segundo o autor, ao fim da Guerra Fria.

CAPÍTULO 6 — É O FIM DOS ESTADOS UNIDOS?

Reconstrói, a partir de documentos desclassificados, a decisão de John F. Kennedy de intensificar a invasão do Vietnã do Sul em 1962, um aniversário que, ao contrário de Pearl Harbor, nunca é comemorado publicamente. O ensaio detalha o uso de napalm e desfolhantes químicos, o bombardeio do Camboja em escala comparável às operações aliadas do Pacífico na Segunda Guerra Mundial, e a frase do presidente Carter, anos depois, de que os Estados Unidos não deviam “nada” ao Vietnã porque “a destruição foi mútua”. A guerra do Iraque é apresentada como repetição estrutural do mesmo padrão de justificativa mutável.

CAPÍTULO 7 — A MAGNA CARTA, O DESTINO DELA E O NOSSO

Começa como uma aula de história constitucional inglesa, da Carta de Direitos de 1215 à menos conhecida Carta da Floresta, que protegia os bens comuns da população contra a privatização pela Coroa, e termina como um dos ensaios mais urgentes do livro. Chomsky liga a erosão do devido processo legal pelos assassinatos por drone da era Obama e pelas listas de terroristas decretadas unilateralmente pelo Executivo à destruição contemporânea dos bens comuns planetários pela mudança climática, encerrando com o protagonismo de comunidades indígenas da Bolívia e do Equador na defesa dos chamados “direitos da natureza”.

CAPÍTULO 8 — A SEMANA EM QUE O MUNDO PAROU

Reconstitui, com base em gravações secretas da Casa Branca liberadas nos anos 1990, os treze dias da crise dos mísseis de Cuba em outubro de 1962, quando o próprio Kennedy estimava em cinquenta por cento a probabilidade de guerra nuclear. O ensaio destaca o papel do oficial soviético Vasili Arkhipov, que vetou uma ordem de disparo de torpedo nuclear em um submarino cercado por destróieres norte-americanos, e é frequentemente citado como o homem que, sozinho, evitou a hecatombe. É descrito por historiadores citados no texto como o momento mais perigoso da história humana.

CAPÍTULO 9 — OS ACORDOS DE PAZ DE OSLO: SEU CONTEXTO, SUAS CONSEQUÊNCIAS

Reconstrói o contexto diplomático que levou ao aperto de mãos entre Yitzhak Rabin e Yasser Arafat na Casa Branca em 1993, remontando às negociações de Madri de 1991 e à declaração palestina de 1988 que aceitava a solução de dois Estados, repetidamente vetada pelos Estados Unidos desde 1976. Chomsky argumenta que o processo de Oslo, celebrado internacionalmente como avanço histórico, excluiu a vasta população de refugiados palestinos e a liderança externa da OLP, consolidando estruturas que, segundo o autor, facilitaram a continuidade da ocupação em vez de encaminhar sua resolução.

CAPÍTULO 10 — À BEIRA DA DESTRUIÇÃO

Convida o leitor a adotar a perspectiva de um observador extraterrestre ou de um historiador do futuro examinando a espécie humana, que desenvolveu, a partir de 1945, a capacidade inédita de se autodestruir por meio de armas nucleares, destruição ambiental e outros riscos globais. O ensaio observa, com ironia amarga, que as sociedades mais engajadas na defesa do planeta são justamente as comunidades indígenas e tribais, historicamente mais despojadas de poder político formal, citando os exemplos da Bolívia, do Equador e o discurso do então presidente venezuelano Hugo Chávez na ONU sobre os riscos da dependência de combustíveis fósseis.

CAPÍTULO 11 — ISRAEL-PALESTINA: AS OPÇÕES CONCRETAS

Desafia o consenso de que existiriam apenas duas saídas possíveis para o conflito israelo-palestino, dois Estados separados ou um único Estado binacional “do mar ao rio”. Chomsky descreve uma terceira realidade, silenciosamente construída no terreno desde a década de 1970 e acelerada após os Acordos de Oslo, por meio da expansão da Grande Jerusalém, de corredores de assentamentos como Ma’aleh Adumim e Ariel que fragmentam a Cisjordânia, e do muro de separação que anexa terras cultiváveis e recursos hídricos, isolando comunidades palestinas inteiras.

CAPÍTULO 12 — “NADA PARA OS OUTROS”: LUTA DE CLASSES NOS ESTADOS UNIDOS

Recupera a história pouco contada da violência sistemática contra o movimento trabalhista organizado nos Estados Unidos, citando estudos segundo os quais o país registrou, proporcionalmente, mais mortes ligadas a conflitos trabalhistas no fim do século dezenove do que qualquer nação exceto a Rússia czarista. O ensaio acompanha o ressurgimento sindical durante a Grande Depressão, o contra-ataque corporativo do pós-guerra por meio de sofisticadas campanhas de propaganda, e a ofensiva antissindical da era Reagan, sempre em diálogo com a “vil máxima” atribuída por Adam Smith aos “mestres da humanidade”: tudo para nós, nada para os outros.

CAPÍTULO 13 — SEGURANÇA PARA QUEM? COMO WASHINGTON PROTEGE A SI MESMO E AO SETOR CORPORATIVO

Questiona a “versão padrão” segundo a qual a prioridade máxima de qualquer governo é a segurança de seus cidadãos, mostrando que, quando a ameaça soviética desapareceu em 1989, a política externa e o orçamento militar dos Estados Unidos permaneceram praticamente inalterados, apenas com novos pretextos, como evidenciou a invasão do Panamá naquele mesmo ano. Chomsky sustenta que a real função do aparato de segurança nacional é proteger interesses corporativos e de elite, e não a população em geral, um argumento sustentado por décadas de continuidade documentada independentemente do inimigo oficial do momento.

CAPÍTULO 14 — ATROCIDADE

Parte da queda do voo MH17 da Malaysia Airlines na Ucrânia em 2014, que matou 298 pessoas e gerou intensa cobertura midiática e indignação internacional atribuída à Rússia, para contrastá-la com a quase total ausência de memória pública sobre a derrubada do voo 655 da Iran Air por um cruzador norte-americano em 1988, que matou 290 pessoas, incluindo 66 crianças, e cujo comandante foi condecorado, não punido. O ensaio usa essa comparação para ilustrar como tragédias de escala equivalente recebem tratamento radicalmente diferente conforme a identidade do responsável.

CAPÍTULO 15 — QUANTOS MINUTOS FALTAM PARA A MEIA-NOITE?

Propõe dividir a história humana em duas eras, antes e depois das armas nucleares, a partir de 6 de agosto de 1945. Traz o testemunho do general Lee Butler, ex-chefe do comando estratégico nuclear dos Estados Unidos, que descreveu a sobrevivência da humanidade até hoje como fruto de “competência, sorte e intervenção divina”, nessa ordem de importância decrescente, e chamou o plano de ataque nuclear automatizado de 1960 de “o documento mais absurdo e irresponsável” que já analisara. O ensaio é um lembrete sóbrio de que a ausência de catástrofe não equivale a segurança garantida.

CAPÍTULO 16 — ACORDOS DE CESSAR-FOGO EM QUE AS VIOLAÇÕES NUNCA CESSAM

Documenta o padrão recorrente de escaladas de violência em Gaza, do Acordo sobre Movimentação e Acesso de 2005 ao cessar-fogo de 2014 firmado após um ataque israelense de cinquenta dias que matou 2.100 palestinos. Chomsky cita o confidente do primeiro-ministro Ariel Sharon, Dov Weisglass, que descreveu o propósito da retirada israelense de Gaza em 2005 como “formol” destinado a congelar qualquer processo político com os palestinos, e mostra como, mesmo após a retirada formal de colonos e tropas, Israel manteve controle militar efetivo sobre o território, segundo o direito internacional reconhecido pela própria ONU.

CAPÍTULO 17 — OS EUA SÃO O PRINCIPAL ESTADO TERRORISTA

Abre com um experimento de pensamento: imagine se a KGB tivesse publicado um estudo interno reconhecendo o fracasso relativo de suas operações de apoio a insurgências armadas ao redor do mundo. Chomsky revela que isso é exatamente o que a CIA fez, e que o New York Times noticiou em 2014 sem qualquer escândalo público. O capítulo detalha o apoio dos Estados Unidos e da África do Sul à UNITA de Jonas Savimbi em Angola, apoiando-se nas pesquisas do historiador Piero Gleijeses sobre o papel de Cuba na libertação africana, para argumentar que o próprio aparato de inteligência americano documenta seu histórico de patrocínio ao terrorismo.

CAPÍTULO 18 — A HISTÓRICA MEDIDA DE OBAMA

Analisa a normalização diplomática entre Estados Unidos e Cuba anunciada em 2014, celebrada por comentaristas liberais como um retorno simbólico à “época dourada” de John F. Kennedy. Chomsky desmonta essa nostalgia revisitando o histórico real de Kennedy no Vietnã, incluindo a autorização do uso de napalm e armas químicas, a criação de “aldeias estratégicas” e o apoio ao golpe de 1963 contra o presidente survietnamita Ngo Dinh Diem, argumentando que a retirada planejada por Kennedy estava condicionada à vitória militar assegurada, e não a um genuíno compromisso com a paz.

CAPÍTULO 19 — “E PONTO FINAL”

Parte do atentado ao Charlie Hebdo em janeiro de 2015, que matou doze pessoas e mobilizou milhões sob o lema “Je suis Charlie”, para contrastá-lo com um episódio quase esquecido: o bombardeio da OTAN à sede da televisão estatal sérvia em 1999, que matou dezesseis jornalistas e foi publicamente defendido por autoridades da aliança como um alvo militar legítimo. Chomsky usa a diferença radical na reação pública aos dois eventos, ambos ataques a jornalistas, para questionar a seletividade do luto e da indignação coletiva conforme a identidade de quem os provoca.

CAPÍTULO 20 — UM DIA NA VIDA DE UM LEITOR DO THE NEW YORK TIMES

Dissecção minuciosa de uma única edição do jornal, de 6 de abril de 2015, mostrando como escolhas editoriais aparentemente neutras revelam uma hierarquia de valores. Uma reportagem de primeira página sobre erros jornalísticos da revista Rolling Stone recebe tratamento extenso, enquanto uma matéria na página sete sobre o esforço para remover bombas não detonadas no Laos, legado de nove anos de bombardeios secretos norte-americanos que atingiram o auge em 1969, passa quase despercebida, ilustrando como a proximidade emocional e política com o próprio país molda o que é tratado como escândalo e o que é tratado como nota de rodapé.

CAPÍTULO 21 — “A AMEAÇA IRANIANA”: QUEM É O MAIOR E MAIS GRAVE PERIGO PARA A PAZ MUNDIAL?

Examina a reação histérica da classe política de Washington ao acordo nuclear de Viena de 2015 entre Irã e as potências do P5+1, amplamente saudado por especialistas em não proliferação ao redor do mundo, mas rejeitado quase unanimemente pelos republicanos. O ensaio cita declarações de candidatos presidenciais, incluindo a alegação do senador Ted Cruz sobre um improvável pulso eletromagnético iraniano, e usa o episódio para argumentar que grande parte do debate público sobre política externa é conduzida por retórica alarmista desconectada da avaliação técnica de especialistas.

CAPÍTULO 22 — O RELÓGIO DO JUÍZO FINAL

Acompanha o avanço do Relógio do Juízo Final, mantido pelo Boletim dos Cientistas Atômicos, para três minutos antes da meia-noite em janeiro de 2015, o nível de alerta mais alto em trinta anos, citando tanto o risco nuclear quanto a “mudança climática descontrolada”. Chomsky detalha como o poder de veto do Senado americano, controlado pelos republicanos, impediu que o Acordo de Paris de 2015 se tornasse um tratado juridicamente vinculante, substituindo compromissos obrigatórios por promessas voluntárias que o autor considera insuficientes diante da urgência revelada por evidências científicas recentes, como o degelo acelerado da Groenlândia.

CAPÍTULO 23 — MESTRES DA HUMANIDADE

Ensaio de fechamento que amarra os fios de todo o livro em torno do conceito de Adam Smith sobre elites econômicas que perseguem sua “vil máxima” às custas do restante da sociedade. Chomsky analisa o Acordo de Associação Transpacífico como instrumento de concentração de poder disfarçado de livre comércio e, escrevendo já sob a sombra da eleição de Donald Trump em 2016, reflete sobre décadas de estagnação salarial neoliberal, a raiva popular legítima que resultou desse processo, e o risco real do que o sociólogo Bertram Gross chamou de “fascismo amigável”, encerrando o livro em tom de alerta, e não de conclusão definitiva.

O QUE ESTE LIVRO REALMENTE QUER TE DIZER?

 

A ideia central do livro

Quem Manda no Mundo? quer te dizer, com todas as suas páginas de notas de rodapé e documentos desclassificados, uma coisa bastante simples de enunciar e extraordinariamente difícil de praticar: a maior parte do que aceitamos como visão de mundo não vem de uma análise fria dos fatos, vem de qual lado da história nós nascemos. Se você tivesse nascido em outro país, sob outra bandeira, aprendendo outra versão dos mesmos eventos na escola, provavelmente consideraria terrorista quem hoje chama de herói, e libertador quem hoje chama de ameaça.

Isso não significa que não existam diferenças morais reais entre governos, entre sistemas políticos, entre formas de violência. Significa que essas diferenças precisam ser estabelecidas por evidência e argumento, e não simplesmente presumidas porque um dos lados é o nosso. O livro é, no fundo, um convite reiterado e implacável a desconfiar de qualquer narrativa, inclusive a sua própria, que nunca encontra motivo para se autocriticar.

Por que isso importa na vida real

Pense em uma discussão de família ou de grupo de amigos sobre política que descamba, como costuma acontecer, em acusações mútuas de que “o outro lado” é hipócrita, mente, aplica dois pesos e duas medidas. O livro sugere que, antes de apontar essa hipocrisia no adversário político, vale a pena aplicar o mesmo teste à própria posição: será que eu toleraria, em silêncio, de um governo que eu apoio, uma ação que me deixaria furioso se cometida por um governo que eu critico? Esse pequeno exercício mental, levado a sério, muda o tom de praticamente qualquer debate político cotidiano, das mesas de bar aos comentários de redes sociais.

Uma analogia memorável

Imagine que você tem dois amigos que brigaram feio, e cada um te conta uma versão completamente diferente da história, cada um convencido de que é a vítima inocente. Um observador ingênuo escolheria um lado baseado em quem fala primeiro, ou em quem já conhece há mais tempo. Um observador honesto pediria para ver as mensagens de texto, checar os horários, ouvir testemunhas neutras, antes de formar qualquer opinião.

Quem Manda no Mundo? é, essencialmente, um convite para tratar a política internacional exatamente assim: não como uma torcida de futebol onde você já escolheu seu time antes do jogo começar, mas como uma investigação em que a verdade, por mais desconfortável que seja, importa mais do que a lealdade automática ao próprio lado.

 

GLOSSÁRIO PARA INICIANTES

 

Doutrina da Grande Área
Plano estratégico elaborado por autoridades norte-americanas durante a Segunda Guerra Mundial para garantir o controle dos Estados Unidos sobre regiões-chave do planeta, especialmente fontes de energia, após o fim do conflito. É como o rascunho de um mapa de influência global desenhado antes mesmo da guerra terminar.

Doutrina de Segurança Nacional
Estratégia militar adotada por diversos países latino-americanos a partir dos anos 1960, sob influência dos Estados Unidos, que redefiniu o “inimigo” das Forças Armadas: em vez de ameaças externas, o alvo passou a ser a própria população interna considerada subversiva. Funciona como transformar o exército de um país para combater seus próprios cidadãos, em vez de invasores estrangeiros.

Teologia da Libertação
Corrente da Igreja Católica, forte na América Latina a partir dos anos 1960, que interpretava o Evangelho como um chamado à luta ativa contra a pobreza e a opressão, adotando a chamada “opção preferencial pelos pobres”. É a diferença entre uma igreja que só reza pelos pobres e uma que organiza os pobres para mudar sua própria realidade.

Devido processo legal
Princípio jurídico segundo o qual ninguém pode ser punido, preso ou morto pelo Estado sem antes passar por um julgamento justo, com direito de defesa. É a garantia básica de que ninguém pode ser condenado só porque uma autoridade decidiu, sozinha, que a pessoa é culpada.

Rendição extraordinária
Prática pela qual um governo transfere secretamente um suspeito para outro país, muitas vezes para que seja interrogado ou torturado fora do alcance das leis que protegeriam essa pessoa em seu próprio território. É como terceirizar um interrogatório ilegal para um lugar onde ninguém vai fiscalizar.

Relógio do Juízo Final
Símbolo criado em 1947 pelo Boletim dos Cientistas Atômicos para representar, em minutos até a meia-noite simbólica, o quão perto a humanidade está de uma catástrofe global causada por ela mesma, hoje calculada considerando tanto o risco nuclear quanto o climático. Funciona como um termômetro simbólico do risco de fim do mundo, atualizado ano a ano por cientistas.

Neoliberalismo
Conjunto de políticas econômicas que privilegiam a desregulamentação de mercados, a privatização de serviços públicos e a redução da proteção trabalhista, dominante nas últimas décadas do século vinte. Na prática, é a ideia de que o mercado, deixado livre para operar com o mínimo de regras, produzirá os melhores resultados para a sociedade como um todo.

Acordo de Associação Transpacífico (TPP)
Tratado comercial negociado em sigilo entre diversos países do Pacífico, criticado por priorizar direitos de investidores e corporações acima de regulações ambientais e trabalhistas nacionais. É menos um acordo de livre comércio no sentido tradicional e mais um contrato que amplia os poderes legais das grandes empresas sobre os governos.

Terrorismo de Estado
Uso de violência, intimidação ou coerção por parte de um governo contra civis, para fins políticos, geralmente sem receber o mesmo rótulo de “terrorismo” aplicado a grupos não estatais que cometem atos comparáveis. É o mesmo comportamento que, praticado por um grupo armado, seria chamado imediatamente de terrorismo, mas que muda de nome quando o autor é um governo reconhecido.

Amnésia histórica
Tendência coletiva de uma sociedade a esquecer, minimizar ou reinterpretar de forma favorável episódios desconfortáveis de seu próprio passado. É o equivalente social de uma pessoa que só se lembra das próprias virtudes e esquece convenientemente dos próprios erros.

Excesso de democracia
Expressão usada pelo relatório da Comissão Trilateral de 1975 para descrever, de forma crítica, a maior participação política de grupos historicamente marginalizados durante os anos 1960. É o momento em que setores da elite política passaram a ver a própria ampliação da participação popular como um problema a ser administrado, e não como uma conquista democrática.

Mestres da humanidade
Expressão cunhada pelo economista escocês Adam Smith no século dezoito para descrever comerciantes e industriais que perseguem seus próprios interesses sem considerar o impacto sobre o restante da sociedade. Chomsky recicla o termo para descrever as elites corporativas e financeiras contemporâneas, sugerindo que a lógica descrita por Smith há mais de duzentos anos continua, hoje, notavelmente intacta.

 

CarcasaWeb
CarcasaWeb desde 2002
Sites funcionais e 100% responsivos, Hosting, EaD Moodle para faculdades e empresas