Você Vive Dentro de um Império e Nem Sabe — Eis a Prova
Você Vive Dentro de um Império e Nem Sabe — Eis a Prova
O que Hardt e Negri chamam de “Império” não é Estados Unidos, não é a ONU, não é o FMI, embora todos esses atores façam parte da sua estrutura. Império é um conceito — uma forma de soberania radicalmente nova, sem centro fixo, sem fronteiras, sem um inimigo claramente localizável, que opera de forma difusa, em rede, através de mercados, leis, comunicação, tecnologia, identidades e corpos. Ao contrário do imperialismo europeu da era moderna, que se baseava na expansão territorial de Estados-nação que impunham suas fronteiras e sua soberania sobre outros povos, o Império contemporâneo funciona como um sistema de hierarquias flexíveis, regimes de normalização e controle biopolítico que penetram em todas as dimensões da existência — do trabalho à cultura, da linguagem às emoções, do comportamento individual à organização coletiva. Mais perturbador ainda: os autores argumentam que essa forma de poder surge paradoxalmente das próprias lutas de libertação que prometia incorporar — e que, dentro dessa estrutura, as possibilidades de resistência e criação de um mundo alternativo continuam vivas e potentes, encarnadas naquilo que chamam de “a Multidão”.
OBJETIVO DESTE LIVRO
O objetivo central de Império é triplo e inseparável: primeiro, mapear com rigor filosófico e histórico a nova forma de soberania global que substitui o imperialismo moderno dos Estados-nação; segundo, analisar como essa forma de poder produz e controla a vida social por inteiro — não apenas a economia, mas a subjetividade, o comportamento, a consciência, os afetos — num processo que os autores chamam de produção biopolítica; e terceiro, e talvez mais urgente, identificar na própria estrutura do Império as forças constituintes que o contestam e que carregam o potencial de uma alternativa real — a Multidão, esse sujeito político singular, plural e criativo que Hardt e Negri propõem como o agente de um mundo diferente, no terreno do próprio Império e além dele.
CONTEXTO BIOGRÁFICO E INTELECTUAL DOS AUTORES
Michael Hardt nasceu em 1960 nos Estados Unidos e é professor de literatura e teoria crítica na Universidade Duke, na Carolina do Norte, onde desenvolveu uma obra densa situada na interseção entre filosofia política continental, crítica literária e teoria marxista; doutorou-se na Universidade de Washington em 1990 com uma dissertação sobre Gilles Deleuze e tornou-se amplamente reconhecido por sua capacidade de articular o pensamento de Espinoza, Foucault, Deleuze e Gramsci em análises políticas rigorosas e acessíveis.
Antonio Negri, seu coautor e parceiro intelectual, nasceu em 1933 em Pádua, Itália, e teve uma trajetória que mistura erudição filosófica e militância política de forma inseparável: foi professor de Doutrina do Estado na Universidade de Pádua, um dos teóricos centrais do marxismo autônomo italiano (operaísmo), e foi preso em 1979 acusado — de forma amplamente contestada — de envolvimento com o terrorismo das Brigadas Vermelhas; cumpriu parte da pena na Itália e viveu exilado em Paris por muitos anos, onde lecionou na Universidade de Paris VIII e aprofundou seu diálogo com Foucault, Althusser e Deleuze, antes de retornar à Itália para cumprir o restante de sua pena — e foi precisamente durante esses anos de prisão e exílio que escreveu algumas de suas obras mais importantes, incluindo contribuições fundamentais para a teoria da biopolítica e do trabalho imaterial, que viriam a fundamentar Império; a curiosidade que poucos conhecem:
Hardt e Negri escreveram boa parte de Império através de correspondência enviada entre a prisão italiana onde Negri estava detido e os Estados Unidos onde Hardt trabalhava, tornando o próprio processo de escrita uma demonstração prática da tese do livro sobre redes de comunicação e produção intelectual sem fronteiras fixas.
Você Vive Dentro de um Império e Nem Sabe — Eis a Prova
HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Império.
Tradução de Berilo Vargas. Rio de Janeiro: Record, 2001.
Título original: Empire. Cambridge: Harvard University Press, 2000.
SEM CENTRO, SEM FRONTEIRA, SEM ROSTO: O QUE É O IMPÉRIO QUE GOVERNA O MUNDO E COMO A MULTIDÃO PODE DERRUBÁ-LO
Quando Império foi publicado em 2000, os críticos que queriam atacá-lo escolheram a estratégia mais fácil: chamá-lo de vago, excessivamente abstrato, apocalíptico sem evidência. Dois dos críticos mais ferozes criaram até um site chamado “Emperor Has No Clothes” (O Imperador Não Tem Roupas) — uma alusão ao conto de Andersen, sugerindo que a grandiosidade do projeto de Hardt e Negri era uma ilusão coletiva de intelectuais dispostos a admirar o que não entendem. Vinte e cinco anos depois, o site existe na memória, mas o livro continua sendo lido, debatido e citado — porque a realidade que ele descrevia em 2000 simplesmente aconteceu, de forma mais completa e perturbadora do que a maioria dos analistas contemporâneos previu. As plataformas digitais que capturam a vida social para produzir valor, a governança global por organismos supranacionais sem accountability democrática, o trabalho cognitivo e afetivo como motor da economia, as migrações em massa como forma de resistência e de exploração simultâneas, a impossibilidade de localizar um inimigo claro contra quem protestar — tudo isso estava lá, nas páginas densas de Hardt e Negri, antes de se tornar realidade óbvia.
Este artigo propõe uma imersão profunda nas quatro partes do livro, explorando suas ideias com a seriedade que merecem e com a linguagem que a geração atual precisa para apropriar-se delas. Porque, no fundo, Império não é um livro sobre geopolítica ou sobre economia. É um livro sobre poder, sobre resistência, sobre o que é possível — e sobre quem somos nós, coletivamente, dentro de um sistema que parece maior do que qualquer um de nós.
O PRIMEIRO ANÚNCIO: UM NOVO TIPO DE SOBERANIA
RESUMO DA PARTE
O Prefácio é simultaneamente uma declaração de intenções e uma tese compactada. Hardt e Negri anunciam que o Império está se materializando diante de nossos olhos — não como metáfora, mas como conceito teórico rigoroso que descreve uma forma de soberania qualitativamente nova. O que chamamos de “globalização” não é apenas a expansão do mercado capitalista: é a emergência de uma nova lógica de poder que incorpora o mundo inteiro dentro de suas fronteiras abertas e em expansão permanente. Ao contrário do imperialismo da era moderna, o Império não tem um centro territorial: os Estados Unidos ocupam uma posição privilegiada mas não são seu centro — nenhum Estado-nação poderia sê-lo. Essa nova forma de soberania funciona por meio de hierarquias flexíveis, organismos supranacionais, direito internacional e produção biopolítica. E crucialmente, os autores insistem que sua hipótese não é pessimista: as mesmas forças que criaram o Império criaram também a possibilidade real de um Contra-Império.
PONTOS-CHAVE:
– O Império não é imperialismo: o imperialismo moderno se baseava em fronteiras, centros e periferias fixas; o Império opera por desterritorialização e reterritorialização contínua.
– A soberania dos Estados-nação entrou em declínio real, mas isso não significa ausência de poder — significa que o poder migrou para formas supranacionais e reticulares.
– Os Estados Unidos são parte do Império, não seu centro: têm posição privilegiada mas não hegemonia exclusiva.
– O Império não é uma metáfora histórica: é um conceito que exige abordagem teórica rigorosa.
– A globalização produz, simultaneamente, novas formas de dominação e novas possibilidades de libertação.
REFLEXÃO CRÍTICA
O que os autores fazem neste Prefácio é algo que poucos teóricos têm a coragem de fazer: anunciar explicitamente a ambição de seu projeto e as apostas políticas que o motivam. Não estão apenas descrevendo o mundo — estão argumentando que compreendê-lo de uma forma específica é condição para transformá-lo. A recusa em identificar os Estados Unidos como o novo centro imperial é filosoficamente crucial e politicamente desafiadora: ela desloca a resistência de um alvo simples (anti-americanismo) para uma análise estrutural muito mais difícil e mais honesta. O Império não tem rosto — e isso é exatamente o que o torna tão difícil de combater pelas formas tradicionais de resistência.
Do ponto de vista da psicologia política, isso tem implicações profundas. Quando o inimigo tem rosto e endereço, a ansiedade social se organiza com mais facilidade em movimento político. Quando o poder é difuso, reticular e invisível, a ansiedade tende a se dispersar ou a encontrar bodes expiatórios inadequados — um país, uma etnia, um partido, um líder — em vez do sistema como tal. Hardt e Negri estão, de certa forma, propondo uma terapia cognitiva coletiva: ver o sistema, não apenas seus sintomas.
APLICAÇÕES PRÁTICAS
Por que é tão difícil “mudar as coisas” mesmo quando governos mudam? Por que tantos movimentos sociais, depois de conquistas iniciais, se encontram absorvidos pela lógica que queriam transformar? A resposta está aqui: porque o poder que precisaria ser transformado não está apenas nos governos eleitos, mas na estrutura global que os enquadra e limita. Entender isso não é paralisante — é o primeiro passo para uma ação política mais eficaz.
PARTE 1 — A CONSTITUIÇÃO POLÍTICA DO PRESENTE
RESUMO DA PARTE
A Parte 1 é a espinha dorsal filosófica do livro. Dividida em três seções (Ordem Mundial, Produção Biopolítica e Alternativas dentro do Império), ela articula os fundamentos teóricos da tese central. Na seção Ordem Mundial, Hardt e Negri analisam como o direito internacional passou por uma transformação radical: de um sistema de relações entre soberanias nacionais para um projeto de constitucionalização global. O antigo direito internacional presuponha a existência de Estados soberanos separados que faziam tratados entre si; o novo paradigma jurídico imperial pressupõe uma hierarquia global de autoridade que transcende os Estados. A intervenção humanitária, a “guerra justa”, as sanções econômicas e os organismos supranacionais são os instrumentos desse novo direito imperial. Na seção Produção Biopolítica, os autores trazem Michel Foucault para o centro da análise: o poder imperial não funciona apenas através do controle de territórios e populações, mas através da produção e regulação da própria vida social. As indústrias de comunicação, informação e serviços assumiram a hegemonia econômica — e ao fazê-lo, tornaram o próprio espaço social o terreno da produção capitalista. Finalmente, em Alternativas dentro do Império, os autores examinam movimentos de resistência contemporâneos — de Tiananmen a Los Angeles, de Chiapas a Paris — e argumentam que essas lutas apontam para algo novo: uma forma de política que não busca tomar o poder de Estado, mas criar espaços públicos, formas de comunidade e modos de vida alternativos diretamente no terreno do Império.
PONTOS-CHAVE:
– O direito imperial opera numa lógica de “estado permanente de exceção”: a intervenção é sempre justificada por valores universais (paz, democracia, direitos humanos), legitimando a hierarquia global.
– A produção biopolítica significa que o capitalismo contemporâneo não produz apenas mercadorias, mas subjetividades, formas de vida, afetos e comportamentos.
– As indústrias de comunicação não apenas organizam a produção — elas produzem sua própria legitimação.
– As lutas dos anos 1990 (Tiananmen, Los Angeles, Chiapas, Paris 1995) compartilham uma característica nova: atacam a ordem global em sua generalidade, mesmo quando parecem locais.
– A ausência de linguagem comum entre as lutas não é fraqueza, mas característica estrutural de um novo modo de fazer política.
REFLEXÃO CRÍTICA
A seção sobre produção biopolítica é talvez a mais densa e a mais visionária de todo o livro — e também a que mais ressoa hoje. O que Hardt e Negri estavam descrevendo em 2000, antes do Facebook, antes do iPhone, antes da economia de plataformas, era exatamente o que viria a se tornar o modelo de negócios dominante do século XXI: a captura, organização e monetização de toda a atividade social, cognitiva, afetiva e comunicativa da humanidade. Quando você passa uma hora no Instagram, você não está simplesmente “usando uma rede social” — você está trabalhando, no sentido rigoroso do termo que Hardt e Negri propõem. Você está produzindo dados, atenção, relações, afetos, conteúdo — e esse trabalho é capturado por uma empresa que o transforma em lucro sem te pagar. A biopolítica não é uma abstração filosófica: é o modelo econômico das empresas mais valiosas do mundo.
A discussão sobre as “alternativas dentro do Império” é igualmente desafiadora, porque confronta uma intuição política muito comum: a de que resistir ao poder significa estar “fora” dele. Hardt e Negri dizem que não existe fora. O Império não tem exterior — porque ele incorpora continuamente seus conflitos e seus limites como motor de seu próprio desenvolvimento. Isso pode parecer paralisante, mas é na verdade uma inversão radical da estratégia: se não há exterior, a resistência tem que ser construída dentro do próprio terreno imperial, criando formas de vida, de produção e de organização que sejam irredutíveis à sua lógica.
APLICAÇÕES PRÁTICAS
Observe sua própria rotina de trabalho e consumo digital: quanto do que você faz, produz, sente e compartilha se transforma em valor para plataformas que você “usa gratuitamente”? Quais formas de colaboração, criação coletiva e compartilhamento existem na sua vida que poderiam ser a semente de algo diferente? O projeto político de Hardt e Negri começa precisamente aí — nas práticas cotidianas de produção do Comum.
PARTE 2 — TRANSIÇÕES DE SOBERANIA
RESUMO DA PARTE
A Parte 2 é a mais histórica e genealógica do livro. Em seis seções densas, os autores reconstroem a trajetória da soberania moderna desde a Renascença europeia até o presente, mostrando como chegamos à forma atual do Império. A seção “Duas Europas, Duas Modernidades” distingue duas tradições internas à modernidade europeia: uma imanente e revolucionária, que afirma o poder criativo da multidão, e outra transcendente e reacionária, que procura dominar e neutralizar esse poder. A seção “Soberania do Estado-nação” analisa como o Estado moderno, sustentado pelo contrato social e pelo princípio da representação, tornou-se a forma dominante de soberania — e como ele está agora em crise sistêmica. A seção “A Dialética da Soberania Colonial” mostra como o colonialismo foi uma extensão necessária da soberania moderna e como os processos de descolonização, ao mesmo tempo em que libertaram povos, paradoxalmente contribuíram para a formação do Império.
A seção “Sintomas de Transição” mapeia os sinais do colapso do velho sistema: pós-modernismo e fundamentalismo emergem como dois polos opostos mas complementares da mesma crise. A seção “Rede do Poder” analisa especificamente a Constituição dos Estados Unidos como modelo imperial — não por ser um imperialismo clássico, mas por propor uma soberania de rede, horizontal e expansiva, que serve de matriz para a Constituição imperial global. Por fim, “Soberania Imperial” sintetiza as características da nova forma de poder: ausência de fronteiras, permanente expansão, gestão do conflito como motor.
PONTOS-CHAVE:
– A modernidade européia tem duas almas contraditórias: uma que libera e outra que domina. O Império herdou primordialmente a segunda.
– O Estado-nação foi a forma política da modernidade capitalista, mas entrou em crise porque o capital ultrapassou suas fronteiras.
– O colonialismo foi uma extensão da soberania moderna — e a descolonização formal não eliminou as relações de dependência que o sustentavam.
– Pós-modernismo e fundamentalismo são sintomas do mesmo colapso: dois modos opostos de responder à crise da soberania moderna.
– A Constituição dos EUA como modelo de soberania imperial: poder distribuído em rede, sem centro fixo, expansivo por natureza.
– O Império não é um regime histórico nascido da conquista, mas uma ordem que suspende a história e apresenta o estado de coisas existente como eterno.
REFLEXÃO CRÍTICA
A análise das “Duas Modernidades” é um dos momentos mais ricos e filosoficamente ambiciosos do livro. Hardt e Negri estão essencialmente propondo que há, dentro do próprio projeto da modernidade europeia, uma contradição irresolúvel entre o poder constituinte (a força criativa, imanente, que afirma a capacidade humana de fazer o mundo) e o poder constituído (a ordem estabelecida, transcendente, que procura congelar e controlar essa força). Essa tensão não desapareceu — ela continua sendo o motor de toda a história política. E o Império, argumentam os autores, é precisamente a tentativa mais sofisticada até agora de gerir essa tensão, de absorver e neutralizar as forças constituintes antes que elas possam se organizar em alternativa real.
A análise da Constituição americana como modelo imperial é fascinante e provocativa. A ideia de que o projeto fundacional dos Estados Unidos — poder distribuído, sem hierarquia territorial fixa, baseado em valores universais — serve de matriz para a ordem imperial global é uma interpretação que vai contra os dois discursos dominantes: tanto o do anti-americanismo simples (os EUA como novo império colonial) quanto o do excepcionalismo americano (os EUA como defensor das liberdades). O que Hardt e Negri propõem é mais complexo: os EUA são o laboratório histórico onde se desenvolveu, pela primeira vez, uma forma de soberania pós-territorial e em rede — que hoje funciona em escala global, com ou sem controle americano direto.
APLICAÇÕES PRÁTICAS
A próxima vez que você ouvir alguém dizer que “a globalização é inevitável” ou que “não há alternativa ao mercado global”, reconheça esse discurso pelo que é na perspectiva de Hardt e Negri: a ideologia do Império — a apresentação de uma ordem histórica contingente como eterna e natural. A história não acabou. A soberania sempre foi disputada. E os processos de transição que o livro mapeia mostram que as grandes transformações políticas sempre foram precedidas por longos períodos de crise, mutação e conflito que só parecem inevitáveis em retrospecto.
INTERMEZZO: CONTRA-IMPÉRIO
RESUMO DA PARTE
O Intermezzo é um dos momentos mais ousados e filosoficamente instigantes do livro — e talvez o mais incompreendido. Situado entre as análises históricas das Partes 2 e 3, ele propõe uma inversão radical da perspectiva: em vez de continuar analisando o Império de fora, os autores propõem que a resistência deve ser pensada a partir de dentro, do próprio terreno do poder. O conceito central aqui é o de “não-lugar de exploração”: no capitalismo contemporâneo, ao contrário do capitalismo industrial clássico, não existe mais um “exterior” ao capital onde o trabalhador possa enraizar uma identidade de resistência pura. O trabalho abstrato, social, comunicativo e afetivo é ao mesmo tempo a força mais interna ao capital e o lugar mais potente de resistência. Os autores dialogam aqui com a tradição republicana radical (Maquiavel, Spinoza, os fundadores americanos) para propor que o projeto político da Multidão deve ser republicano no sentido mais radical: não uma república de cidadãos nacionais, mas uma organização democrática do comum que transcenda toda fronteira.
PONTOS-CHAVE:
– Não existe exterior ao Império: toda resistência se dá dentro do terreno do poder.
– O trabalho imaterial e social é simultaneamente o motor do capital e o lugar de sua subversão potencial.
– A tradição republicana radical — democracia direta, poder constituinte, autogoverno das multidões — é o horizonte político do Contra-Império.
– A cooperação produtiva da Multidão produz o Comum: linguagem, conhecimento, afetos, código — que é a base de um projeto político alternativo.
– O IWW (Industrial Workers of the World) como modelo histórico de organização sem fronteiras nacionais ou de ofício.
REFLEXÃO CRÍTICA
O Intermezzo é onde a aposta política do livro fica mais clara — e mais controversa. Dizer que não há exterior ao Império pode soar como uma forma sofisticada de resignação. Mas o que os autores estão propondo é o oposto: que a resistência mais eficaz é aquela que atua nas contradições internas do sistema, que usa contra ele as próprias ferramentas que ele criou — a cooperação, a comunicação, o comum, a inteligência coletiva. Quando trabalhadores de plataformas digitais em todo o mundo começam a se organizar coletivamente, quando desenvolvedores de software criam sistemas de código aberto que desafiam o monopólio das corporações, quando movimentos sociais usam as redes globais de comunicação para coordenar lutas locais sem uma hierarquia central — tudo isso está dentro do que Hardt e Negri chamam de práticas do Contra-Império.
A referência ao IWW — o grande sindicato internacional do início do século XX que organizava trabalhadores de todas as línguas, raças e ofícios sem distinção de fronteiras nacionais — é um gesto político deliberado. Os autores estão propondo que o modelo organizativo adequado para a Multidão na era do Império não é o partido, não é o sindicato nacional, não é a vanguarda iluminada — mas algo mais parecido com uma rede horizontal de singularidades que cooperam sem se fundir numa identidade uniforme.
APLICAÇÕES PRÁTICAS
Pense nos movimentos que mais cresceram nos últimos anos: Black Lives Matter, Fridays for Future, o movimento dos trabalhadores de aplicativos, o feminismo transnacional do #MeToo. O que eles têm em comum? São todos movimentos sem centro fixo, sem liderança hierárquica única, que surgem localmente mas se conectam globalmente. São, na linguagem de Hardt e Negri, práticas embrionárias da Multidão. Suas limitações — dificuldade de sustentação no tempo, ausência de programa político unificado, vulnerabilidade à cooptação — são também os desafios que o projeto do Contra-Império ainda tem que resolver.
PARTE 3 — TRANSIÇÕES DE PRODUÇÃO
RESUMO DA PARTE
A Parte 3 é a mais econômica e materialista do livro. Em quatro seções, os autores analisam como a produção capitalista passou por três grandes paradigmas — agrícola, industrial, informacional — e como a passagem para o terceiro paradigma transforma radicalmente as formas de trabalho, as estruturas de poder e os sujeitos políticos. A seção “Os Limites do Imperialismo” analisa as teorias clássicas do imperialismo (Lenin, Luxemburgo, Hobson) e mostra por que elas explicam o imperialismo histórico mas não conseguem capturar a forma atual do Império. A seção “Governabilidade Disciplinar” usa Foucault para analisar como o poder industrial criou formas específicas de disciplinar corpos e comportamentos — na fábrica, na escola, no exército, no hospital. A seção “Resistência, Crise, Transformação” mostra como as lutas operárias do século XX forçaram o capital a se reinventar continuamente. A seção crucial “Pós-Modernização, ou a Informatização da Produção” argumenta que o trabalho imaterial — cognitivo, afetivo, comunicativo — se tornou o setor hegemônico da produção global, não por ser o mais numeroso (a maioria dos trabalhadores ainda está no setor industrial ou agrícola), mas por determinar a lógica e as formas de todo o resto.
PONTOS-CHAVE:
– Três paradigmas de produção: agrícola (a terra como meio), industrial (a fábrica), informacional (o cérebro, o código, o afeto).
– A passagem para o terceiro paradigma não elimina os anteriores: os subordina à sua lógica.
– O trabalho imaterial é hegemônico qualitativamente, não quantitativamente: é ele que dita a forma de toda produção.
– Foucault e a “sociedade disciplinar”: escolas, prisões, hospitais, fábricas como instituições de produção de corpos dóceis e mentes produtivas.
– As lutas dos trabalhadores sempre precederam e forçaram as transformações do capital — não o contrário.
– O trabalho imaterial produz o Comum como subproduto necessário: conhecimento, código, linguagem, afetos que não podem ser completamente privatizados.
REFLEXÃO CRÍTICA
A tese sobre o trabalho imaterial e sua hegemonia é, provavelmente, a contribuição mais duradoura e mais empiricamente verificável de Império. O que os autores estavam descrevendo como tendência em 2000 é hoje a realidade óbvia da economia global: as empresas mais valiosas do mundo (Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta) não produzem coisas físicas como produto central — produzem plataformas, dados, código, sistemas de organização da atividade humana. O trabalhador mais estratégico não é mais o operário da linha de montagem, mas o desenvolvedor de software, o designer de experiência, o analista de dados, o criador de conteúdo.
Mas a consequência que Hardt e Negri tiram dessa transformação é ainda mais radical: se o trabalho imaterial produz essencialmente o Comum — conhecimento, código, linguagem, redes de relações —, então a privatização desse Comum por corporações é uma contradição crescente. O open source, o Creative Commons, a Wikipedia, o movimento por uma internet livre, as plataformas cooperativas de trabalhadores: são todas formas de afirmar que o produto do trabalho coletivo deve ser compartilhado coletivamente. E essa contradição, argumentam os autores, não é apenas econômica: é o terreno de uma luta política fundamental.
APLICAÇÕES PRÁTICAS
A próxima vez que uma empresa “de tecnologia” pedir seus dados em troca de um serviço gratuito, lembre-se: você não é o usuário, você é o trabalhador. Seus dados, sua atenção, suas redes de relações são a matéria-prima de um processo produtivo que gera bilhões em valor para acionistas que você jamais verá. A questão política que Hardt e Negri levantam é: como o Comum que você e bilhões de pessoas produzem coletivamente pode permanecer comum, em vez de ser continuamente capturado por formas privadas de acumulação?
PARTE 4 — DECLÍNIO E QUEDA DO IMPÉRIO
RESUMO DA PARTE
A Parte 4 é a mais filosófica e utópica do livro — e, paradoxalmente, a mais concreta em termos de proposta política. Em três seções (Virtualidades, Geração e Corrupção, e A Multidão contra o Império), os autores articulam sua tese central sobre o projeto político alternativo ao Império. A seção “Virtualidades” argumenta, a partir de Spinoza e Bergson, que o poder imperial é essencialmente negativo e parasitário: ele existe apenas como regulação e controle das forças criativas da Multidão, sendo incapaz de gerar valor por si mesmo. A riqueza é produzida pela cooperação social da Multidão; o Império apenas captura, organiza e explora essa produção. A seção “Geração e Corrupção” analisa as contradições internas do Império: o nomadismo das massas, a miscigenação de identidades, o trabalho do desejo — tudo isso são forças que o Império precisa ao mesmo tempo explorar e controlar, e essa contradição é constitutiva de seu declínio. A seção “A Multidão contra o Império” apresenta o projeto político: não uma revolução que toma o poder de Estado, mas um processo de constituição do Comum, de criação de novas formas de democracia e de poder constituinte que vai além das fronteiras do Império. Três demandas globais são propostas: cidadania global, salário social universal para todos, e direito de reapropriação dos meios de produção.
PONTOS-CHAVE:
– O poder imperial é parasitário: extrai valor da criatividade da Multidão sem conseguir gerá-lo autonomamente.
– O nomadismo, a miscigenação e os fluxos migratórios são formas de resistência e também meios pelos quais o Império se reproduz.
– A ação da Multidão se torna política quando confronta diretamente as operações repressivas do Império com consciência adequada.
– Três demandas globais: cidadania global (direito de mover-se e pertencer a qualquer lugar), salário social garantido (não atrelado ao emprego), reapropriação do comum.
– O projeto político não é tomar o Estado, mas criar novas formas de democracia e poder constituinte além e dentro do Império.
REFLEXÃO CRÍTICA
A noção de que o poder imperial é “puramente negativo e parasitário” é uma das teses mais spinozistas do livro — e também uma das mais contestadas. Afirmar que o Império não produz nada, que é apenas o resíduo negativo da ação criativa da Multidão, pode parecer excessivamente otimista: como explicar a enorme capacidade do capital de inovar, criar tecnologias, desenvolver mercados, transformar territórios? Os autores responderiam que toda essa criatividade não é “do capital” mas do trabalho — o capital apenas organiza, direciona e apropria-se do que a Multidão cria. E há evidência empírica robusta para isso: a pesquisa fundamental que gerou a internet, os antibióticos, os semicondutores foi feita em universidades e laboratórios públicos; as inovações do Vale do Silício dependem de gerações de imigrantes, pesquisadores e engenheiros formados por sistemas públicos de educação.
A proposta das três demandas globais é o momento mais explicitamente utópico do livro — e o mais vulnerável à crítica de que é vaga. Cidadania global, salário social, reapropriação do comum: como? Por quem? Com qual sujeito político organizado? Os autores admitem, honestamente, que não sabem ainda. Mas argumentam que a tarefa intelectual é primeiro nomear o que é necessário; a forma organizativa só se revela no próprio processo de luta.
APLICAÇÕES PRÁTICAS
O movimento pela Renda Básica Universal — que antes parecia utopia marginal e que hoje é discutido seriamente por economistas e governos — é exatamente uma das demandas que Hardt e Negri propunham como “salário social” em 2000. Movimentos por regularização de imigrantes, por passaportes livres, por internet como direito universal são formas embrionárias da demanda por cidadania global. E o movimento de código aberto, cooperativas de plataforma, bibliotecas digitais, enciclopédias colaborativas são formas concretas de reapropriação do Comum. O projeto político de Império não é tão abstrato quanto parece: já está sendo construído em muitos lugares ao mesmo tempo.
IMPACTO NA SOCIEDADE
Império teve um impacto que poucas obras teóricas alcançam no começo de um novo século: foi um livro que chegou no momento exato em que o mundo precisava de um mapa — e que entregou não apenas um mapa, mas uma bússola filosófica que permanece relevante precisamente porque não mapeou o presente imediato, mas a estrutura profunda que o governa; desde Seattle 1999 até os protestos contra o G8, desde o Fórum Social Mundial até os Indignados, desde Occupy Wall Street até os movimentos contra a uberização do trabalho, desde as lutas por acesso livre ao conhecimento até os debates sobre soberania digital, as categorias que Hardt e Negri elaboraram — Multidão, trabalho imaterial, produção biopolítica, Comum, Contra-Império — tornaram-se vocabulário operativo de movimentos e intelectuais que, em muitos casos, nunca leram o livro, o que é talvez o sinal mais eloquente de que suas ideias penetraram no tecido do pensamento crítico contemporâneo de forma irreversível, transformando não apenas a linguagem com que descrevemos o poder global, mas a imaginação política de uma geração que continua, ainda que sem essa nomenclatura, lutando pelos mesmos projetos que o livro nomeou.
A MENSAGEM PARA A GERAÇÃO ATUAL
Há uma provocação que Hardt e Negri fazem implicitamente ao longo de todo o livro e que se torna explícita na conclusão: a geração que vai transformar o Império já existe — ela é a Multidão. E a Multidão não precisa de um líder carismático, de um partido vanguardista, de uma revolução armada com um dia marcado. Ela precisa, primeiro, de consciência adequada — de uma compreensão do sistema tal como ele é, não como gostaríamos que fosse ou como o Império nos apresenta como inevitável. E é aqui que o livro fala diretamente com você.
Você vive numa época em que o trabalho e a vida se fundiram de forma sem precedentes. Você é solicitado a ser “apaixonado” pelo que faz, a construir sua “marca pessoal”, a estar sempre disponível e sempre conectado, a transformar suas relações, suas criações e seus afetos em conteúdo monetizável. Isso não é uma anomalia do capitalismo contemporâneo — é sua lógica mais desenvolvida, o que Hardt e Negri chamam de produção biopolítica. Reconhecer isso não é motivo de desespero, mas de lucidez estratégica: se o capital captura toda a sua vida social, sua resistência também pode ser social e total.
Você também vive numa época de ansiedade política profunda. A sensação de que “não há o que fazer”, de que os problemas são grandes demais, de que qualquer movimento é cooptado, de que não existe alternativa real — essa ansiedade é funcionalmente necessária para o Império, que precisa que você acredite em sua inevitabilidade para se reproduzir. O que Hardt e Negri propõem não é ingenuidade — é a recusa filosófica e política do fatalismo. Eles dizem: a história não acabou, o poder nunca foi tão completo quanto parece, e as forças que produzem o Comum são, ao mesmo tempo, as forças que podem subvertê-lo.
A demanda por cidadania global não é fantasia: é a consequência lógica de um mundo em que o capital circula livremente e as pessoas não. A demanda por salário social não é utopia: é a resposta racional a uma economia em que a automação e o trabalho imaterial dissociam cada vez mais a produção de riqueza do emprego formal. E a demanda por reapropriação do Comum não é nostalgia: é o projeto de recuperar para uso coletivo aquilo que foi coletivamente produzido — o conhecimento, a linguagem, o código, as redes, a vida social.
O que Império pede a você, acima de tudo, não é que leia o livro e concorde com tudo (aliás, os próprios autores encorajam o desacordo crítico). É que leve a sério a possibilidade de que o mundo pode ser diferente — e que essa possibilidade não está num futuro distante nem num paraíso revolucionário, mas nas práticas cotidianas de cooperação, criação, cuidado e resistência que você e milhões de pessoas já estão construindo, muitas vezes sem nome, dentro e além das fronteiras do Império.
CONCLUSÃO
Ler Império hoje, vinte e cinco anos depois de sua publicação, é ter a experiência simultânea de reconhecer o mapa e de descobrir que o território cresceu além dele — porque o livro descreve tendências que se tornaram realidades brutais, estruturas que se tornaram mais densas e mais ubíquas, e formas de resistência que, embora emergentes em 2000, ainda buscam a linguagem e a organização adequadas para se tornar força constituinte real; Hardt e Negri fizeram algo que filósofos raramente fazem sem perder o rigor: propuseram um diagnóstico que é simultaneamente uma aposta política, uma teoria do poder que é também uma teoria da liberdade, uma análise do capitalismo global que não termina no pessimismo da razão mas avança, com coragem intelectual genuína, para a questão de como a Multidão — esse sujeito plural, singular, cooperativo, criativo, que não cabe em nenhuma identidade nacional, de classe ou partidária — pode constituir um mundo comum que não seja gerenciado pelo Império mas habitado e produzido livremente por todos aqueles que o criaram; e é essa aposta — filosófica, política, ontológica — que faz de Império não apenas um livro importante do seu tempo, mas um texto que interpela diretamente a consciência de cada geração que o encontra e que se recusa a aceitar que o presente seja a última palavra sobre o possível.
FRASES MEMORÁVEIS
- “O poder que está em todo lugar é, ao mesmo tempo, o poder que você tem o direito de transformar em todo lugar.”
- “Quando a sua vida inteira se torna produção, a sua vida inteira se torna também resistência.”
- “O Império não tem rosto — mas a Multidão tem mil rostos, e cada um é uma força.”
- “Não existe exterior ao poder — mas existe o Comum, e o Comum é o que o poder nunca consegue capturar completamente.”
- “A história não acabou: ela está sendo escrita agora por quem recusa que o presente seja eterno.”
O QUE ESTE ARTIGO REALMENTE QUER TE DIZER?
A ideia central do livro
O livro quer te dizer o seguinte: você vive dentro de uma ideologia, e a característica mais poderosa dessa ideologia é que ela se apresenta como a ausência de ideologia. Quando o governo dos Estados Unidos gastou 700 bilhões de dólares para salvar bancos em 2008 — bancos que defendiam o livre mercado sem intervenção estatal —, isso foi apresentado não como uma escolha política, mas como uma “necessidade técnica”. Não havia alternativa. Era isso ou o colapso total. Žižek quer que você perceba esse mecanismo: a ideia de que “não há alternativa” ao capitalismo não é um fato da natureza, mas uma construção ideológica tão bem-sucedida que nem percebemos mais que é uma escolha. E enquanto somos bombardeados de opções no mercado — qual celular comprar, qual série assistir, qual estilo de vida adotar —, a única escolha que verdadeiramente importa, a escolha sobre como organizar a nossa sociedade, nos é apresentada como fora do alcance, perigosa ou impossível.
Por que isso importa na vida real?
Pense no seguinte exemplo do cotidiano: você compra um café na Starbucks porque, além do café, está “comprando uma ética” — a empresa apoia agricultores, cuida do meio ambiente, cria comunidades. Você sente que está fazendo algo bom pelo mundo enquanto consome. Mas Žižek mostra que esse mecanismo — o “capitalismo cultural” ou “capitalismo compassivo” — é a forma mais sofisticada de ideologia: ele permite que você critique o sistema enquanto o sustenta com seu dinheiro. Ele transforma a culpa por consumir em mais consumo. Você não precisa mudar nada estruturalmente; basta comprar a versão “consciente” do produto e sua consciência fica tranquila. Isso é exatamente o que o livro chama de fetiche ideológico: sabemos que o sistema tem problemas, mas nos agarramos a esses pequenos gestos para não ter de encarar a verdade maior.
A analogia que resume tudo
Imagine que você está num avião com um grave problema no motor. O piloto anuncia: “Por razões de segurança, precisaremos fazer um pouso de emergência. Isso vai atrasar a viagem, mas é o único jeito de chegar ao destino.” O que o livro de Žižek revela é que o capitalismo contemporâneo opera exatamente assim: toda vez que o sistema cria uma crise, ele anuncia que a única solução é mais do mesmo — mais desregulação, mais mercado, mais ajustes. Jamais sugere que talvez o problema esteja no próprio avião. E nós, passageiros, acreditamos no piloto porque a alternativa — questionar a existência do avião — parece inimaginável. A “hipótese comunista” de Žižek é simplesmente isso: e se tentarmos outro tipo de avião?
GLOSSÁRIO PARA INICIANTES
Império (no sentido do livro)
Não é uma nação dominante nem um exército, mas uma nova forma de soberania global sem centro fixo, sem fronteiras, que regula toda a vida social por meio de redes flexíveis de poder, lei, mercado e comunicação. Pense no sistema de regras do xadrez: nenhuma peça é o “dono” das regras, mas as regras determinam o movimento de todas as peças. O Império é esse conjunto de regras que governa o mundo globalizado.
Biopolítica (e biopoder)
Conceito criado por Michel Foucault e central no livro: é o poder que não controla apenas o comportamento das pessoas através de leis e punições, mas que penetra na própria vida biológica e social, regulando saúde, sexualidade, reprodução, migrações, trabalho, comunicação e afetos. Exemplo cotidiano: quando uma empresa de saúde coleta seus dados genéticos, quando um algoritmo decide quais vagas de emprego aparecem para você, ou quando o governo regula quem pode entrar no país — tudo isso é biopoder em ação.
Multidão
Para Hardt e Negri, a Multidão não é “o povo” (homogêneo, com identidade nacional única) nem “a classe operária” (definida pela fábrica). É o conjunto de todas as singularidades que produzem e vivem sob o Império — trabalhadores cognitivos, migrantes, ativistas, comunidades, artistas, cuidadores. A Multidão é plural, não tem um líder, mas tem um potencial coletivo imenso de criar o comum. Como uma coral que não precisa de regente para soar: cada voz é singular, mas juntas produzem algo que nenhuma produz sozinha.
Trabalho Imaterial
Trabalho cujo produto não é um objeto físico, mas informação, conhecimento, comunicação, cuidado, afeto ou relações sociais. A maioria dos empregos modernos envolve trabalho imaterial: professor, designer, programador, atendente de call center, médico, gestor de redes sociais. Hardt e Negri argumentam que esse tipo de trabalho se tornou hegemônico no capitalismo global, redefinindo o que significa “produzir valor”.
Soberania
O poder supremo de governar um território e uma população. Na modernidade, a soberania pertencia ao Estado-nação: era ele quem decidia as leis, protegia (ou não) seus cidadãos e exercia força sobre seu território. Com o Império, a soberania se tornou difusa — compartilhada entre Estados, organismos internacionais, corporações e redes de poder que não têm território fixo.
Imperialismo (vs. Império)
O imperialismo foi a prática dos Estados-nação modernos (principalmente europeus) de expandir seu controle sobre outros territórios e povos, criando colônias ou zonas de influência. Exigia fronteiras: um centro dominante (a metrópole) e uma periferia dominada (a colônia). O Império, para Hardt e Negri, é diferente: não tem centro, não tem fronteiras fixas e não precisa de colônias formais porque opera por dentro do sistema econômico e cultural global.
Produção Biopolítica
A ideia de que, no capitalismo contemporâneo, a produção econômica passou a incluir não apenas mercadorias e serviços, mas a própria vida social: formas de comunicar, de se relacionar, de sentir, de criar. Quando o TikTok extrai valor das suas danças, do seu tempo de atenção, das suas reações emocionais — isso é produção biopolítica. A fábrica do século XXI é o próprio espaço social.
Constituição Material
Para os autores, toda sociedade tem não apenas uma Constituição formal (o documento escrito com as leis) mas uma Constituição material — o conjunto de forças sociais reais que determinam como o poder é distribuído, quem manda de fato e como a sociedade se organiza na prática. O Império tem sua própria Constituição material, formada por hierarquias flexíveis e redes de governança que superam as constituições formais dos países.
Common / O Comum
Conceito central no projeto político de Hardt e Negri: tudo o que é compartilhado e produzido coletivamente — linguagem, conhecimento, cultura, código de software, espaços urbanos, ecossistemas. O Comum é a base da cooperação humana e o fundamento de qualquer alternativa ao Império. Quando um grupo de programadores desenvolve um software de código aberto (como o Linux), estão produzindo e compartilhando o Comum.
Trabalho Afetivo
Uma subcategoria do trabalho imaterial que produz ou manipula afetos, emoções e relações sociais. O trabalho de uma enfermeira que cuida de pacientes, de um professor que motiva alunos, de um atendente que precisa “sorrir com a voz” — tudo isso é trabalho afetivo. Hardt e Negri destacam que esse tipo de trabalho, historicamente desvalorizado e frequentemente realizado por mulheres, tornou-se central para a economia global.
Desterritorialização / Reterritorialização
Conceitos de Deleuze e Guattari usados pelos autores: desterritorialização é o processo pelo qual o capital desmancha fronteiras, identidades e estruturas fixas, tornando tudo fluido e móvel. Reterritorialização é como ele reinstala novas hierarquias e controles num nível mais amplo. Exemplo: uma fábrica fecha no Brasil (desterritorialização) e abre na Malásia (reterritorialização), mas o capital que a controla permanece em Nova York ou Luxemburgo.
Hegemonia
Poder que se exerce não apenas pela força, mas pelo consenso — pela capacidade de fazer com que as regras, os valores e a visão de mundo de quem domina sejam aceitos como naturais e inevitáveis por quem é dominado. O Império exerce hegemonia quando as pessoas aceitam que a “globalização” é um processo natural e inevitável, que não há alternativa ao mercado livre, ou que a democracia liberal é a única forma possível de governo.





