Crianças que não sabem como gerir as suas emoções
Crianças que não sabem como gerir as suas emoções: Navegando o Mar Revolto das Emoções Não Geridas
No palco da infância, onde a imaginação floresce e os sonhos ganham asas, existe uma tempestade invisível que assola muitas crianças: a incapacidade de compreender e gerir as próprias emoções. Como um maestro que perdeu a batuta, a criança se vê à deriva num oceano de sentimentos intensos – raiva, medo, tristeza, frustração – sem as ferramentas necessárias para navegar. Este não é um mero capricho infantil, mas um desafio profundo com repercussões que ecoam pela vida adulta e moldam o tecido da nossa sociedade. Como estudioso e eterno aprendiz, convido você a mergulhar neste universo complexo, mas fundamental, para que possamos, juntos, acender faróis de esperança.
O Coração da Tempestade: Por Que Nossas Crianças Lutam com Suas Emoções?
Imagine um pequeno explorador descobrindo um novo mundo a cada dia. Esse mundo interno, o das emoções, é igualmente vasto e, por vezes, assustador. A dificuldade em gerir emoções na infância não é um sinal de “mau comportamento” ou “birra” intencional, mas um reflexo de uma complexa interação de fatores:
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Desenvolvimento Cerebral Imaturo: O cérebro infantil, especialmente o córtex pré-frontal – responsável pelo raciocínio, tomada de decisões e regulação emocional –, ainda está em pleno desenvolvimento. A amígdala, centro das emoções primárias como o medo e a raiva, é mais reativa na infância. É como ter um acelerador potente (amígdala) com freios ainda em construção (córtex pré-frontal). Este descompasso neurológico é uma das razões primárias pelas quais as crianças frequentemente “explodem” ou se retraem diante de sentimentos intensos.
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Exemplo Prático: Uma criança de 3 anos que chora inconsolavelmente porque seu brinquedo favorito quebrou não está sendo “manhosa”. Seu cérebro ainda não tem a capacidade madura de processar a perda e a frustração de forma ponderada.
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Ausência de “Alfabetização Emocional“: Assim como aprendemos o ABC para ler palavras, precisamos aprender o “alfabeto das emoções” para entender a nós mesmos e aos outros. Muitas crianças não são ensinadas a nomear, compreender a função e expressar suas emoções de forma saudável.
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Exemplo Prático: Uma criança que empurra um colega na disputa por um brinquedo pode estar sentindo frustração ou raiva, mas não sabe como comunicar isso verbalmente ou encontrar uma solução alternativa. Ela age impulsivamente porque lhe falta o vocabulário e as estratégias emocionais.
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Modelagem Parental e Ambiental: As crianças são como esponjas, absorvendo os comportamentos e as reações emocionais dos adultos ao seu redor. Pais que gritam, reprimem suas próprias emoções ou invalidam os sentimentos dos filhos (“Engole o choro!”, “Não foi nada!”) inadvertidamente ensinam que as emoções são perigosas ou vergonhosas.
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Exemplo Prático: Se uma criança vê seus pais lidando com o estresse através de gritos ou isolamento, ela provavelmente replicará esses padrões quando se sentir sobrecarregada.
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Experiências Adversas na Infância (EAI): Traumas, negligência, abuso ou instabilidade familiar criam um estado de alerta constante, dificultando o desenvolvimento da regulação emocional. O cérebro se adapta para sobreviver, muitas vezes à custa da capacidade de sentir segurança e gerir emoções de forma equilibrada.
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Temperamento Inato: Algumas crianças nascem com uma sensibilidade emocional mais aguçada, reagindo de forma mais intensa a estímulos que outras podem ignorar. Isso não é um defeito, mas uma característica que exige um suporte mais atento e especializado.
As Cicatrizes Invisíveis: O Impacto Devastador na Vida da Criança
Quando uma criança não aprende a gerir suas emoções, as consequências podem ser profundas e duradouras, afetando todas as áreas de sua vida:
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Saúde Mental e Bem-Estar: A dificuldade em lidar com emoções negativas é um fator de risco significativo para o desenvolvimento de transtornos de ansiedade, depressão, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e problemas de conduta. O “peso” das emoções não processadas pode se manifestar como tristeza persistente, irritabilidade, medos excessivos e dificuldade de concentração.
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Exemplo Prático: Uma criança que constantemente sente “borboletas no estômago” antes de ir à escola, chora para não ir ou se queixa de dores de barriga frequentes pode estar sofrendo de ansiedade não verbalizada, fruto da incapacidade de lidar com o medo do desconhecido ou da separação.
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Desempenho Acadêmico: Emoções como ansiedade, frustração e tédio podem minar a capacidade de aprendizado. Uma criança preocupada ou irritada terá dificuldade em focar nas aulas, absorver conteúdo e realizar tarefas. A baixa tolerância à frustração pode levar à desistência diante de desafios acadêmicos.
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Exemplo Prático: Um aluno que rasga a prova após errar uma questão demonstra uma incapacidade de lidar com a frustração do erro, o que prejudica sua oportunidade de aprender com ele.
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Relacionamentos Sociais: A inteligência emocional é a base das habilidades sociais. Crianças que não entendem suas emoções ou as dos outros podem ter dificuldade em fazer amigos, resolver conflitos pacificamente, demonstrar empatia e trabalhar em equipe. Elas podem ser vistas como agressivas, retraídas ou “difíceis”.
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Exemplo Prático: Uma criança que reage com agressividade física (bater, morder) sempre que contrariada terá dificuldades em manter amizades, pois os colegas aprenderão a evitá-la.
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Saúde Física: O estresse crônico causado por emoções não geridas pode impactar o sistema imunológico, levando a doenças mais frequentes. Dores de cabeça, problemas gastrointestinais e distúrbios do sono também podem ser manifestações físicas de um desequilíbrio emocional.
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Autoestima e Autoconfiança: Uma criança que se sente constantemente sobrecarregada por suas emoções e percebe que não consegue “controlá-las” pode desenvolver uma autoimagem negativa, acreditando ser “problemática” ou “incapaz”.
O Eco na Sociedade: Quando a Dor de Uma Criança se Torna um Problema Coletivo
A incapacidade de uma criança gerir suas emoções não é um problema isolado, confinado às paredes de sua casa ou escola. As ondas de choque se propagam, afetando a sociedade como um todo:
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Aumento da Violência e Criminalidade: Estudos longitudinais, como o famoso “Marshmallow Test” de Walter Mischel e suas continuações, já indicavam uma correlação entre a capacidade de adiar a gratificação (uma forma de autorregulação) na infância e melhores resultados na vida adulta, incluindo menores taxas de envolvimento com problemas legais. Indivíduos com baixa regulação emocional podem ter maior propensão a comportamentos impulsivos e agressivos.
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Sobrecarga dos Sistemas de Saúde e Educação: Crianças e adolescentes com problemas emocionais não tratados demandam mais recursos dos sistemas de saúde (consultas, medicamentos, internações) e educacional (necessidade de suporte especializado, problemas de disciplina).
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Menor Produtividade e Impacto Econômico: Adultos que carregam as cicatrizes de uma infância emocionalmente desassistida podem enfrentar dificuldades no mercado de trabalho, ter relacionamentos interpessoais instáveis e apresentar menor produtividade, gerando custos indiretos para a economia.
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Ciclos Intergeracionais de Disfunção: Pais que não aprenderam a gerir suas próprias emoções têm maior probabilidade de repetir padrões disfuncionais com seus filhos, perpetuando o ciclo de dificuldades emocionais.
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Erosão do Capital Social: Uma sociedade composta por indivíduos com baixa inteligência emocional tende a ser menos empática, menos colaborativa e mais polarizada, dificultando a construção de comunidades fortes e resilientes.
Vozes da Ciência: O Que Dizem os Especialistas Nacionais e Internacionais
A importância da regulação emocional na infância é um consenso robusto na comunidade científica global.
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Internacionalmente:
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Daniel Goleman, em seu livro seminal “Inteligência Emocional”, popularizou o conceito e demonstrou como o Quociente Emocional (QE) pode ser mais determinante para o sucesso e a felicidade do que o Quociente de Inteligência (QI).
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John Gottman, do The Gottman Institute, desenvolveu o conceito de “Emotion Coaching” (Treinamento Emocional), uma abordagem parental que ensina as crianças a reconhecer, entender e gerenciar suas emoções. Sua pesquisa mostra que crianças “treinadas emocionalmente” têm melhor saúde física, desempenho acadêmico e relações sociais.
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Pesquisas sobre o desenvolvimento cerebral, como as de Daniel Siegel (“O Cérebro da Criança”), explicam a neurobiologia por trás das emoções e da regulação, oferecendo insights práticos para pais e educadores.
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O estudo sobre Adverse Childhood Experiences (ACEs), conduzido originalmente por Felitti e Anda, revelou o impacto devastador do trauma e do estresse tóxico no desenvolvimento infantil, incluindo a capacidade de regulação emocional.
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No Brasil:
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Pesquisadores de universidades renomadas como a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) têm contribuído com estudos sobre saúde mental infantil, desenvolvimento socioemocional e o impacto de fatores de risco e proteção.
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A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) frequentemente publicam diretrizes e materiais educativos que enfatizam a importância da saúde emocional desde os primeiros anos de vida.
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Programas de intervenção precoce e de desenvolvimento de habilidades socioemocionais em escolas brasileiras, embora ainda necessitem de maior escala, mostram resultados promissores, refletindo uma crescente conscientização nacional sobre o tema. Por exemplo, iniciativas que integram a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que prevê o desenvolvimento de competências socioemocionais.
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Autores como Ilana Casoy (embora mais conhecida por criminologia, aborda a psicologia infantil em alguns contextos) e Leo Fraiman (psicoterapeuta e educador) têm popularizado discussões sobre o desenvolvimento emocional de jovens no Brasil.
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Essas fontes, entre muitas outras, convergem em um ponto crucial: investir no desenvolvimento da inteligência emocional infantil não é um luxo, mas uma necessidade urgente para o bem-estar individual e o progresso social.
Acendendo Faróis: Como Ajudar Nossas Crianças a Navegar Suas Emoções
A boa notícia é que a capacidade de gerir emoções pode ser aprendida e desenvolvida. Como adultos, temos um papel fundamental nesse processo. Eis algumas estratégias eficazes:
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Seja um Porto Seguro e um Modelo:
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Valide os Sentimentos: Acolha todas as emoções da criança, mesmo as negativas. Diga: “Eu entendo que você está com raiva porque não pode brincar agora” ou “É normal sentir medo do escuro”. Validar não é concordar com o comportamento inadequado, mas reconhecer a emoção.
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Modele a Regulação Emocional: Mostre como você lida com suas próprias emoções de forma saudável. Verbalize: “Estou me sentindo frustrado agora, então vou respirar fundo para me acalmar”.
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Crie um Ambiente de Confiança: A criança precisa se sentir segura para expressar o que sente sem medo de punição ou julgamento.
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Ensine o “Alfabeto Emocional”:
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Nomeie as Emoções: Ajude a criança a identificar e nomear o que está sentindo. “Você parece triste. É isso mesmo?” Use livros, fantoches e jogos sobre emoções.
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Conecte Emoções, Pensamentos e Comportamentos: Explique como os sentimentos podem influenciar o que pensamos e fazemos.
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Explore a Função das Emoções: Ensine que todas as emoções têm um propósito. O medo nos protege do perigo, a raiva pode nos dar energia para mudar algo injusto.
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Desenvolva Estratégias de Regulação (O Kit de Primeiros Socorros Emocionais):
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Técnicas de Acalmar: Ensine a criança a respirar profundamente (“cheirar a flor, soprar a vela”), contar até dez, abraçar um bichinho de pelúcia, desenhar o que sente ou encontrar um “cantinho da calma”.
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Resolução de Problemas: Quando a emoção estiver mais controlada, ajude a criança a pensar em soluções para o problema que a desencadeou. “O que podemos fazer da próxima vez que você quiser muito um brinquedo que seu amigo está usando?”
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Expressão Criativa: Incentive o uso de arte, música, dança ou escrita como formas de canalizar emoções intensas.
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Estabeleça Limites Claros e Consistentes:
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“Todos os sentimentos são permitidos, mas nem todos os comportamentos são.” Ensine que é normal sentir raiva, mas não é aceitável bater ou gritar com os outros. Ofereça alternativas saudáveis de expressão.
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Promova a Empatia:
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Ajude a criança a reconhecer e compreender as emoções dos outros. “Como você acha que seu amigo se sentiu quando você pegou o brinquedo dele sem pedir?”
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Busque Ajuda Profissional Quando Necessário:
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Se a criança apresenta dificuldades emocionais persistentes e intensas que interferem em seu dia a dia e bem-estar, não hesite em procurar um psicólogo infantil ou psiquiatra infantil. Eles podem oferecer avaliação especializada e intervenções terapêuticas adequadas.
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Um Futuro Emocionalmente Inteligente: O Legado que Podemos Deixar
As crianças que hoje lutam para entender o turbilhão de suas emoções não precisam estar condenadas a uma vida de dificuldades. Ao abraçarmos nosso papel como guias emocionais, podemos equipá-las com as ferramentas para navegar não apenas as tempestades internas, mas também os desafios complexos de um mundo em constante mudança.
Investir na inteligência emocional infantil é semear um futuro onde a empatia supera a indiferença, a colaboração substitui o conflito e a resiliência floresce mesmo diante da adversidade. É construir uma sociedade mais consciente, compassiva e, fundamentalmente, mais humana.
O grito silencioso de uma criança que não sabe gerir suas emoções é um chamado à ação. Devemos ouvi-lo com o coração aberto e a mente preparada, oferecendo não apenas consolo, mas o conhecimento e o suporte que transformarão suas lágrimas de hoje nos sorrisos de um amanhã mais equilibrado e feliz. A jornada é longa, mas a recompensa – crianças emocionalmente saudáveis e uma sociedade mais forte – é inestimável.
Fontes Consultadas (Exemplos Ilustrativos, uma lista exaustiva seria impraticável aqui):
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Internacionais:
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Goleman, D. (1995). Emotional Intelligence: Why It Can Matter More Than IQ. Bantam Books.
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Gottman, J., & DeClaire, J. (1997). Raising An Emotionally Intelligent Child: The Heart of Parenting. Simon & Schuster.
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Siegel, D. J., & Bryson, T. P. (2011). The Whole-Brain Child: 12 Revolutionary Strategies to Nurture Your Child’s Developing Mind. Delacorte Press.
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Felitti, V. J., Anda, R. F., et al. (1998). Relationship of childhood abuse and household dysfunction to many of the leading causes of death in adults: The Adverse Childhood Experiences (ACE) Study. American Journal of Preventive Medicine, 14(4), 245-258.
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Shonkoff, J. P., & Phillips, D. A. (Eds.). (2000). From Neurons to Neighborhoods: The Science of Early Childhood Development. National Academies Press.
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Nacionais (Brasil) e Referências Relevantes para o Contexto Brasileiro:
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Publicações e diretrizes da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) sobre saúde mental infantil.
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Materiais e campanhas da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) sobre desenvolvimento emocional.
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Artigos científicos de pesquisadores de universidades brasileiras (USP, UNICAMP, UFRJ, UNIFESP, etc.) em periódicos como Cadernos de Saúde Pública, Jornal de Pediatria, Revista Brasileira de Psiquiatria. (Ex: Busca por termos como “regulação emocional infantil Brasil”, “saúde mental escolar Brasil”).
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Base Nacional Comum Curricular (BNCC) – Ministério da Educação, que inclui o desenvolvimento de competências socioemocionais.
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Livros de autores brasileiros que abordam parentalidade e desenvolvimento infantil com foco no emocional, como os de Leo Fraiman ou Ilana Casoy (em suas abordagens sobre psicologia infantil quando aplicável).
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Relatórios de ONGs e instituições que trabalham com infância e adolescência no Brasil, como UNICEF Brasil, Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, que frequentemente abordam o desenvolvimento socioemocional.
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Este artigo representa uma síntese de conhecimentos consolidados e perspectivas atuais, visando ser um ponto de partida para uma compreensão mais profunda e uma ação mais eficaz em prol do desenvolvimento emocional de nossas crianças.




