Como formular as perguntas certas

jul 7, 2025 | Blog, Educação, PSICOLOGIA

Saber como formular as perguntas certas é uma das habilidades mais poderosas que se pode ter, seja para aprender algo novo, resolver um problema, ou simplesmente entender melhor o mundo. É a diferença entre obter uma resposta superficial e uma que realmente traz clareza e conhecimento

Como Formular as Perguntas Certas – Passo a Passo

Passo 1: Clarifique seu Objetivo Final

Antes de perguntar qualquer coisa, pergunte a si mesmo: “O que eu realmente quero saber ou alcançar com esta informação?”. A falta de clareza no objetivo leva a perguntas vagas.

  • Ruim: “Quero saber sobre marketing digital.” (Muito amplo)

  • Bom: “Quero saber quais são as três estratégias de marketing digital mais eficazes e de baixo custo para atrair os primeiros 100 clientes para uma pequena loja online de artesanato.” (Específico e direcionado a um objetivo)

Passo 2: Desconstrua o Tópico (Use os “5 Ws e 1 H”)

Pegue seu objetivo e quebre-o em partes menores usando as perguntas básicas do jornalismo. Isso ajuda a cobrir todos os ângulos do assunto.

  • O quê? (What?): Sobre o que exatamente estamos falando? Qual é a definição?

  • Por quê? (Why?): Por que isso é importante? Qual é a causa? Qual é o propósito?

  • Quem? (Who?): Quem está envolvido? Para quem isso é relevante?

  • Onde? (Where?): Onde isso acontece? Onde posso encontrar mais informações?

  • Quando? (When?): Quando isso ocorre? Em que etapa do processo?

  • Como? (How?): Como funciona? Como posso aplicar isso? Quais são os passos?

Exemplo: Aprendendo a investir.

  • O quê? -> O que é a Bolsa de Valores? O que são ações e fundos imobiliários?

  • Por quê? -> Por que a diversificação de investimentos é importante para reduzir riscos?

  • Quem? -> Quem são as corretoras de confiança no meu país?

  • Onde? -> Onde posso abrir uma conta em uma corretora?

  • Quando? -> Quando é um bom momento para começar a investir, mesmo com pouco dinheiro?

  • Como? -> Como eu analiso uma empresa antes de comprar uma ação?

Passo 3: Comece com “Por Quê” para Atingir a Raiz

A pergunta “Por quê?” é a mais poderosa para aprofundar o entendimento. Ela move você da observação de um fato para a compreensão da causa.

  • Pergunta superficial: “Qual é a melhor dieta?”

  • Pergunta profunda:Por que a maioria das dietas restritivas falha a longo prazo?” ou “Por que um déficit calórico é o princípio fundamental para a perda de peso?”

A segunda leva a um conhecimento mais duradouro e aplicável.

Passo 4: Use Perguntas Abertas vs. Fechadas Estrategicamente

  • Perguntas Fechadas: São boas para obter fatos rápidos, confirmação (sim/não) ou dados específicos.

    • Exemplo: “O prazo para a entrega do projeto é amanhã?”

    • Use quando: Você precisa de uma informação direta e rápida.

  • Perguntas Abertas: São excelentes para explorar um tópico, gerar discussão e obter respostas detalhadas. Geralmente começam com “Como”, “Por que”, “O que”, “Descreva”.

    • Exemplo:Como podemos garantir que o projeto seja entregue no prazo, considerando os obstáculos atuais?”

    • Use quando: Você quer entender o contexto, as opiniões e as possibilidades.

Passo 5: Formule Hipóteses com “E se…?”

Perguntas hipotéticas abrem a mente para cenários futuros, ajudam a prever problemas e a encontrar soluções criativas.

  • Para resolver um problema: “E se o nosso principal concorrente lançasse um produto similar pela metade do preço? Como reagiríamos?”

  • Para aprender: “E se eu tentasse aplicar este conceito de programação em um pequeno projeto pessoal? Quais seriam os primeiros passos?”


Ferramentas e Técnicas Adicionais

  1. A Técnica dos 5 Porquês (5 Whys)
    Criada pela Toyota, é usada para encontrar a causa raiz de um problema. Você faz uma pergunta “Por quê?” e, para cada resposta, pergunta “Por quê?” novamente, até chegar à origem.

    Problema: O carro não liga.

    1. Por quê? -> A bateria está descarregada.

    2. Por quê? -> O alternador não está funcionando.

    3. Por quê? -> A correia do alternador quebrou.

    4. Por quê? -> A correia estava velha e desgastada.

    5. Por quê? -> A manutenção do carro não foi feita no intervalo recomendado. (Causa raiz)

  2. Mapas Mentais (Mind Mapping)
    Escreva o tópico central no meio de uma folha e vá puxando “ramos” com sub-tópicos e ideias. As lacunas e as conexões que surgem no mapa visualmente vão gerar perguntas naturalmente.

  3. Converse com Alguém (ou com um “Pato de Borracha”)
    Tente explicar o que você já sabe sobre o assunto para outra pessoa. Os pontos em que você travar ou se sentir inseguro são exatamente onde suas perguntas mais importantes estão escondidas. Programadores chamam isso de “depuração com pato de borracha” (explicar o código para um pato de borracha na mesa).


Exemplos Práticos

Cenário 1: Você quer aprender uma nova habilidade (ex: edição de vídeo).

  • Pergunta Vaga: “Como aprender a editar vídeos?”

  • Boas Perguntas (usando as técnicas):

    • (Objetivo) “Qual software de edição de vídeo é o mais recomendado para iniciantes que usam Windows e querem postar no YouTube?”

    • (Desconstrução) “Quais são os 5 conceitos fundamentais da edição que eu preciso dominar primeiro (cortes, transições, áudio, cor, etc.)?”

    • (Como) “Como posso encontrar material de vídeo gratuito para praticar?”

    • (Por quê) “Por que o ritmo (pacing) de um vídeo é tão importante para manter o espectador engajado?”

Cenário 2: Você está com um problema complexo no trabalho.

  • Pergunta Vaga: “Como eu resolvo isso?”

  • Boas Perguntas (usando as técnicas):

    • (5 Porquês) “Qual é a causa raiz deste problema? Por que ele continua acontecendo?”

    • (Quem) “Quem são as pessoas-chave que preciso envolver para encontrar uma solução? Qual a perspectiva delas?”

    • (Abertas) “Quais soluções já tentamos no passado e o que aprendemos com elas?”

    • (Hipotéticas) “E se ignorássemos este problema por mais um mês? Quais seriam as consequências?”

Conclusão

Achar a pergunta certa é uma habilidade que se desenvolve com a prática. Não tenha medo de fazer perguntas “bobas” no início. O processo é um funil: comece amplo, refine, aprofunde e você chegará à pergunta que destrava o conhecimento que você busca.

Lembre-se sempre: A qualidade das suas respostas é determinada pela qualidade das suas perguntas.


Aqui está uma pequena história para ilustrar o poder de fazer as perguntas certas.

A Lenda da Ponte dos Murmúrios

Numa vila aninhada entre montanhas, existia uma lenda sobre a “Ponte dos Murmúrios”. Dizia-se que a ponte, envolta numa névoa perpétua, só permitia a passagem àqueles que descobrissem o seu segredo. Muitos viajantes e aventureiros tentaram, mas acabaram por desistir, frustrados.

Um jovem chamado Léo, conhecido pela sua impaciência, decidiu que seria ele a desvendar o mistério. Chegando à beira da ponte, ele gritou para a névoa:

— Ponte! Como é que eu atravesso?

Uma voz etérea, como o som do vento entre as pedras, respondeu:
Apenas os que compreendem o caminho podem passar.

Frustrado com a resposta vaga, Léo tentou de novo, mais alto:
— E qual é o segredo para atravessar?
A voz murmurou:
O segredo está na pergunta.

Léo passou horas a fazer perguntas genéricas e abertas: “O que preciso de saber?”, “Mostra-me o caminho!”, “Isto é um enigma?”. A cada pergunta, a ponte respondia com frases poéticas e inúteis, e a névoa parecia ficar mais densa.

Cansado, Léo sentou-se na margem e observou. Ele reparou num padrão sutil: a névoa parecia mover-se de forma diferente sobre certas pedras da ponte. Em vez de perguntar o que ele queria (atravessar), ele decidiu perguntar sobre o que ele via. Ele mudou a sua abordagem.

Levantou-se e, com uma voz calma, perguntou:
— Ponte, a névoa sobre a terceira pedra à minha direita parece mais fina. Isso tem algum significado?

O silêncio foi quebrado por uma resposta clara e útil pela primeira vez:
Sim. Essa é a primeira pedra segura.

O coração de Léo acelerou. Ele tinha uma pista! Agora, ele sabia como continuar. Olhando para a frente, ele formulou a sua próxima pergunta com base na nova informação.
— Depois de pisar na primeira pedra segura, qual é a característica da próxima pedra que devo procurar?

A voz respondeu:
Procure a pedra que parece mais quente ao toque do que as outras.

Léo atravessou, passo a passo, não perguntando “Como chego ao fim?”, mas sim “Qual é o próximo passo específico?”. Cada resposta dava-lhe a informação exata para formular a pergunta seguinte. Em poucos minutos, ele chegou ao outro lado, onde a névoa se dissipou, revelando um caminho ensolarado.


A Moral da História

Léo, no início, fez o que muitos de nós fazemos:

  • Perguntas Abertas e Vagas: “Como atravesso?” ou “Qual é o segredo?”. Estas perguntas são tão amplas que as respostas são igualmente vagas e filosóficas. É como perguntar a um mecânico “O que há de errado com o meu carro?” sem dar mais detalhes.

Ao mudar a sua estratégia, Léo aprendeu a:

Observar Primeiro: Ele parou de gritar os seus desejos e começou a analisar a situação.

Fazer Perguntas Específicas e Direcionadas: Em vez de perguntar pelo objetivo final, ele perguntou sobre o próximo passo concreto, baseado no que observava (“A névoa sobre esta pedra…”).

Construir Conhecimento Sequencialmente: Usou a resposta de uma pergunta para formular a próxima, criando uma cadeia de informação que o guiou até à solução.

Da mesma forma, quando queremos saber algo — seja num projeto de trabalho, numa conversa difícil ou ao tentar resolver um problema —, a qualidade da nossa resposta está diretamente ligada à qualidade da nossa pergunta. Em vez de perguntar “Como podemos ter sucesso?”, é mais eficaz perguntar: “Qual é o maior obstáculo que nos impede de avançar nesta semana?” ou “Com base nos dados que temos, qual é a ação mais lógica a ser tomada a seguir?”.

Fazer a pergunta certa não é sobre ter uma sabedoria mística, mas sobre ser observador, específico e metódico.

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