A Mercantilização do EaD e o Dilema da Educação Brasileira

jan 13, 2026 | Blog, Educação, elearning

A Mercantilização do EaD e o Dilema da Educação Brasileira

A educação, outrora vista como o “santuário da formação humana”, atravessa no Brasil uma de suas transformações mais dramáticas e silenciosas. O que deveria ser um vetor de emancipação social converteu-se em um dos ativos mais cobiçados do mercado de capitais. O Ensino a Distância (EaD), impulsionado por uma revolução tecnológica necessária, foi sequestrado por uma lógica de financeirização que redefine o que significa ensinar e aprender. Como experts nesta área, precisamos encarar a verdade nua e crua: a educação tornou-se um commodity, e o preço dessa escolha está sendo pago por professores exaustos e estudantes com diplomas de validade intelectual questionável.

1. A Educação como “Big Business“: A Era dos Conglomerados

A virada do milênio marcou o início da consolidação de gigantes educacionais no Brasil. Grupos como Cogna (ex-Kroton), Yduqs (ex-Estácio) e outros players de capital aberto transformaram o ensino em uma linha de montagem de alta eficiência financeira. A lógica é simples, mas perversa: escala. No EaD, o custo marginal de um aluno adicional é próximo de zero. Uma vez produzida a videoaula e estruturado o ambiente virtual, a diferença entre ter mil ou cem mil alunos é puramente de lucro líquido.

Essa “Edu-business” não foca na pedagogia, mas no Ebitda. O impacto disso é a padronização absoluta. O conteúdo é “empacotado” de forma que qualquer pessoa possa replicá-lo, retirando do professor a sua maior riqueza: a autonomia didática e a capacidade de adaptar o ensino às subjetividades da turma. Estamos vivendo a “McDonalização” do saber, onde o importante é o giro rápido e o baixo custo de produção.

2. A Precarização do Trabalho Docente: A “Uberização” da Sala de Aula

Se para os acionistas o EaD é um sonho de rentabilidade, para o professor ele se tornou um pesadelo de invisibilidade. O cargo de “Professor Titular” está sendo substituído pela figura do “Tutor” ou “Mediador”. Este profissional, muitas vezes com a mesma qualificação que o docente, é contratado por uma fração do salário, sem os mesmos direitos ou estabilidade.

O Fenômeno da “Gig Economy” na Educação

Assistimos hoje à Uberização docente. O professor já não habita o campus; ele habita plataformas. Suas horas de trabalho são fragmentadas. Ele precisa responder a centenas de fóruns, corrigir milhares de atividades padronizadas e, muitas vezes, é monitorado por algoritmos que medem seu tempo de resposta, não a profundidade do seu feedback.

Exemplo Prático: Imagine um docente que antes lecionava para 40 alunos em uma sala física. Hoje, esse mesmo docente — ou um tutor sub-remunerado — é responsável por 500, 1.000 ou até 5.000 alunos em uma plataforma nacional. A conexão humana se perde. O professor torna-se um “operário do clique”, um suporte técnico de luxo, enquanto sua saúde mental definha sob o peso da produtividade algorítmica.

3. A Qualidade do Ensino em Xeque: Formação ou Certificação?

Precisamos ser sedutores o suficiente para atrair o aluno, mas honestos o suficiente para avaliar o que estamos entregando. A expansão desenfreada do EaD no setor privado criou um abismo de qualidade. Embora o EaD possibilite que um trabalhador no interior da Amazônia tenha acesso a um curso superior, a pergunta é: que tipo de formação ele está recebendo?

A qualidade é sacrificada no altar da facilidade. Conteúdos superficiais, avaliações de múltipla escolha automatizadas e a ausência de debates críticos formam um exército de graduados que possuem o título, mas carecem das competências socioemocionais e técnicas exigidas pela complexidade do mundo atual. O impacto na sociedade é uma mão de obra desqualificada que retroalimenta o ciclo da pobreza e da baixa produtividade nacional.

4. O Papel das Federações e Sindicatos: A Resistência no Parlamento

Neste cenário de mercantilização agressiva, a articulação política das entidades de classe tornou-se a última linha de defesa. Federações como a CONTEE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino), a CNTE e o PROIFES têm desempenhado um papel hercúleo na discussão com o Parlamento brasileiro.

A Luta Legislativa

A articulação foca em frear a “desregulamentação selvagem”. O lobby das grandes corporações educacionais no Congresso é poderoso, financiando campanhas e pressionando por normativas que permitam até 100% de cursos de saúde (como Enfermagem e Fisioterapia) na modalidade EaD — o que representa um perigo real à saúde pública.

Os sindicatos lutam por:

  • Limitação de Vagas em EaD: Para garantir que a expansão não destrua a qualidade.

  • Regulação de Mensalidades e Salários: Evitando o dumping social.

  • Reconhecimento da Hora-Atividade Virtual: Garantindo que o trabalho invisível atrás das telas seja remunerado.

  • A Campanha contra a Desumanização: Mostrar aos parlamentares que educação não é gasto, é investimento, e que o “barato” do EaD desregrado sai caro para o futuro do país.

Um exemplo prático dessa luta foi a recente mobilização para a suspensão de novos cursos de graduação em EaD em áreas sensíveis, uma vitória parcial das federações que forçou o Ministério da Educação (MEC) a repensar o marco regulatório.

5. Impacto Social: O Estelionato da Esperança

O aspecto mais emocional e doloroso dessa realidade é o impacto na vida do estudante periférico. O EaD é vendido como a “ponte para o sucesso”. O aluno, muitas vezes o primeiro da família a chegar ao ensino superior, compromete sua renda limitada em parcelas baixas, acreditando em uma ascensão social.

No entanto, ao se deparar com um mercado de trabalho que já começa a filtrar e desvalorizar diplomas de certas instituições puramente mercadológicas, esse aluno descobre que comprou um papel, não um futuro. A educação, que deveria ser o motor da mobilidade social, acaba se tornando um mecanismo de manutenção do status quo, onde a elite frequenta cursos presenciais de elite e o trabalhador se contenta com o “fast-food” educacional.

6. Perspectivas Científicas e Referenciais

A análise aqui exposta não é meramente opinativa; ela se ancora em décadas de pesquisa em políticas educacionais. Autores como Dermeval Saviani, com sua pedagogia histórico-crítica, alertam há tempos sobre a função social da escola contra a lógica do capital. Valdemar Sguissardi, um dos maiores especialistas em expansão do ensino superior no Brasil, documentou meticulosamente como o financiamento público (através de FIES e Prouni) foi desviado para alimentar o lucro de grupos privados em vez de fortalecer o sistema público.

Estudos recentes de João dos Reis Silva Júnior sobre a “Nova Gestão Pública” e a financeirização da educação superior demonstram como os indicadores de desempenho acadêmico foram substituídos por indicadores financeiros, alterando a ontologia do trabalho docente.


Conclusão: O Chamado à Ação

A educação a distância não é a vilã; a vilã é a ganância que a utiliza como ferramenta de precarização. O futuro do Brasil depende da nossa capacidade de resgatar a educação das garras do mercado financeiro e devolvê-la ao campo do direito humano.

Professores precisam de voz, sindicatos precisam de força e o Parlamento precisa de coragem para legislar em favor da nação, não dos acionistas. Se não agirmos agora, estaremos condenando gerações a uma semi-formação que apenas perpetua a desigualdade. É hora de humanizar o digital, valorizar o mestre e entender que o saber não tem preço, mas tem um valor inestimável para a soberania de um povo.


Fontes Científicas Consultadas:

  1. SAVIANI, Dermeval. Pedagogia Histórico-Crítica: primeiras aproximações. Editora Autores Associados.

  2. SGUISSARDI, Valdemar. Modelo de expansão da educação superior no Brasil: predomínio privado/mercantil e desafios para a regulação e a avaliação. Educação & Sociedade.

  3. SILVA JÚNIOR, João dos Reis. A financeirização do ensino superior privado no Brasil. Revista Brasileira de Educação.

  4. CONTEE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino). Relatórios sobre a Precarização do Trabalho Docente no EaD.

  5. INEP/MEC. Censo da Educação Superior (Dados sobre o crescimento do EaD versus Presencial).

O ensino a distância – EAD – tem condições de levar educação e conhecimento a regiões remotas do país e a estudantes que não tenham condições de tempo ou localização para frequentar uma sala de aula. Mas é também uma grande fonte de lucro para instituições de ensino privadas – comprometendo as condições de trabalho de professores e a qualidade do ensino. Neste programa a TV Fepesp discute essa questões, mostra como a educação a distância tornou-se um grande negócio, como isso afeta as condições de trabalho de professores e a qualidade do ensino, e a articulação da federação e sindicatos com o parlamento na discussão da precarização do ensino pela crescente mercantilização da educação privada no Brasil.

 

fonte: fepesp.org.br

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