Funções do Eu como gestor dos pensamentos (Augusto Cury)
Funções do Eu como gestor dos pensamentos
Usamos a palavra “eu” cotidianamente, sem ter compreensão de sua dimensão, suas habilidades e funções vitais. O Eu é o centro da personalidade, o líder da psique ou da mente, o desejo consciente, a capacidade de autodeterminação e a identidade fundamental que nos torna seres únicos. Como a definição do Eu é ampla e suas funções ou papéis fundamentais são múltiplos. Há pelo menos 25 papéis vitais.
Não basta o Eu ser tranquilo, ele precisa desenvolver suas funções fundamentais para que possa honrar sua condição de Homo sapiens, um ser pensante. Não poucos profissionais e intelectuais, inclusive com títulos de doutor ou pós-doutor, têm um Eu não estruturado, intolerante a frustrações e, embora tenham notável cultura, embora sejam louvados pela academia, não podem ser contrariados, não sabem dar um choque de gestão em seus pensamentos nem filtrar minimamente estímulos estressantes e mapear suas mazelas. Sua mente é terra de ninguém, não tem seguro. E a sua mente, leitor, é protegida?
A ideia do “Eu como gestor dos pensamentos” fundamenta-se na premissa de que a mente humana não deve ser um fluxo caótico e autônomo, mas sim um espaço governado pela consciência crítica e pela vontade do indivíduo. No contexto da psicologia cognitiva e das teorias de inteligência emocional — como a Teoria da Inteligência Multifocal de Augusto Cury —, entende-se que o “Eu” representa a capacidade de decisão, a identidade e a voz consciente que deve assumir o papel de diretor no teatro da mente. Sem essa gestão ativa, a psique torna-se vulnerável à produção desenfreada de pensamentos intrusivos, imagens desgastantes e fluxos de ansiedade que operam em “piloto automático”, transformando o sujeito em um espectador passivo de suas próprias angústias. Portanto, assumir a gestão mental significa reconhecer que, embora não tenhamos controle total sobre o surgimento espontâneo de cada ideia, detemos a autoridade executiva para decidir quais pensamentos serão alimentados, quais serão confrontados e quais devem ser descartados, estabelecendo uma fronteira clara entre o que pensamos e quem realmente somos.
No cenário contemporâneo, marcado pelo bombardeio constante de informações e pela hiperestimulação digital, a gestão dos pensamentos torna-se uma ferramenta indispensável para a preservação da saúde mental e da eficácia intelectual. Ser o gestor da própria mente implica aplicar uma espécie de “higiene mental” diária, utilizando técnicas como a dúvida e a crítica diante de crenças limitantes ou interpretações catastróficas da realidade, o que evita o esgotamento emocional e o desenvolvimento da Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA). Esse processo exige um treinamento contínuo da autoconsciência, permitindo que o indivíduo deixe de reagir por instinto e passe a responder com lucidez aos desafios do cotidiano. Ao exercer esse protagonismo, o sujeito desenvolve maior resiliência, protege sua memória de registros traumáticos e constrói uma narrativa interna muito mais equilibrada, garantindo que o intelecto trabalhe a favor da sua qualidade de vida e não contra ela, promovendo, assim, uma existência mais serena e focada na autorrealização.

Acredita-se que a grande maioria das pessoas de todos os povos e culturas tenha menos de 10% dessas funções bem trabalhadas. Ao usar a Teoria da Inteligência Multifocal para estudar tais funções do Eu, fiquei decepcionado comigo, reconheci minha pequenez, me reciclei e me coloquei como um eterno aprendiz (Augusto Cury).
Funções do Eu como gestor dos pensamentos
I – Autoconhecer, mapear suas mazelas psíquicas e superar a necessidade neurótica de ser perfeito.
II – Ter consciência crítica e exercer a arte da dúvida sobre tudo o que o controla, em especial as falsas crenças.
III – Ser autônomo, aprender a ter opinião própria e fazer escolhas, mas saber que todas as escolhas implicam perdas.
IV – Ter identidade psíquica e social e superar a necessidade neurótica de poder.
V – Gerenciar os pensamentos e qualificá-los para não ser escravo das ideias que ruminam o passado ou antecipam o futuro.
VI – Qualificar as imagens mentais e libertar o imaginário para ser inteligente nos focos de tensão.
VII – Gerenciar a emoção, protegê-la como a mais excelente propriedade e filtrar estímulos estressantes.
VIII – Superar a necessidade neurótica de mudar o outro (ninguém muda ninguém) e aprender a contribuir com ele, surpreendendo-o.
IX – Criar pontes sociais: saber que toda mente é um cofre, que não há mentes impenetráveis, mas chaves erradas.
X – Aprender a dialogar e transferir o capital das experiências, e não apenas comentar o trivial ou ser um manual de regras. Quem é apenas um manual de regras está apto a lidar com máquinas, e não a formar pensadores.
XI – Reciclar influências genéticas instintivas (raiva, punição, agressividade, competição predatória) que nos tornam Homo bios para enriquecer o Homo sapiens.
XII – Reciclar a influência do sistema social que nos torna meros números no tecido social, e não seres humanos complexos.
XIII – Reeditar as janelas killer, sabendo que deletar a memória é uma tarefa impossível.
XIV – Fazer a mesa-redonda com os “fantasmas” mentais para construir janelas paralelas ao redor do núcleo traumático ou killer.
XV – Pensar antes de reagir e raciocinar multifocalmente; não ser escravo das respostas, mas em primeiro lugar ser fiel à própria consciência.
XVI – Colocar-se no lugar do outro para interpretá-lo com maior justiça a partir dele mesmo.
XVII – Desenvolver altruísmo, solidariedade e tolerância, inclusive consigo mesmo.
XVIII – Desenvolver resiliência: trabalhar perdas e frustrações e reciclar o conformismo e a autopiedade.
XIX – Gerenciar a lei do menor e do maior esforço; saber que a mente humana tende a seguir o caminho mais curto, como julgar, excluir, negar, eliminar (lei do esforço menor), mas a maturidade recomenda o caminho mais inteligente e elaborado (lei do esforço maior).
XX – Pensar como humanidade, e não apenas como grupo social, nacional, cultural, religioso.
XXI – Dar choque de gestão no fenômeno do autofluxo. Deixá-lo livre desde que ele não se ancore em janelas killer ou acelere a construção de pensamentos.
XXII – Gerenciar a SPA para não ser uma máquina de pensar e de gastar energia cerebral inútil.
XXIII – Dar um choque de gestão no pacto entre o gatilho da memória e as janelas da memória.
XXIV – Aprender a não ser vítima da Síndrome do Circuito Fechado da Memória e do fenômeno ação-reação.
XXV – Educar-se com todas as 24 funções mais complexas da inteligência citadas acima para desenvolver a mais notável delas: ser o autor da própria história ou gestor da sua mente. Sonho que, em todas as escolas do mundo do ensino fundamental ao ensino médio , essas funções sejam trabalhadas sistematicamente. Sonho que todas as universidades, e não apenas as de psicologia, vivencie-nas durante todo o curso. Embora os professores sejam, em minha opinião, os profissionais mais importantes e desvalorizados da sociedade, um dos meus gritos de alerta é que o sistema educacional mundial está agonizante, formando alunos imaturos e despreparados para ser líderes de si mesmos numa sociedade digital. Ele entulha os alunos com milhões de dados sobre o mundo objetivo e não trabalha sistematicamente as funções do Eu no mundo subjetivo.




